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Barracas tornam-se residências

Diz quem por lá vive, que outrora era uma mini-feira, mas hoje os quiosques, os salões de cabeleireiro e as mercearias, sem condições mínimas de habitabilidade, servem de abrigo a meia dúzia de famílias. É, sem dúvidas, a expressão mais visível de um dos maiores problemas sociais da capital do país: a falta de habitação.

Localizam-se no coração do mercado da Malanga e, à primeira vista, levam-nos a concluir equivocamente que se trata de umas simples barracas onde se pode comprar qualquer produto ou obter algum serviço. Ou seja, a aparência é a de um local de venda de bebidas alcoólicas, produtos de primeira necessidade e salão de corte e tratamento de cabelo. Mas engana-se quem assim pensa. Pois, um olhar minimamente atento sobre as mesmas percebe que, por entre as paredes com dizeres “Quiosque N. BECUA, mercearia e salão de cabeleireiro e de corte”, sete famílias fazem, há sete anos, daquelas construções precárias as suas moradias.

Diz Adelina Macuácua, proprietária e moradora de umas das barracas naquele local, que em tempos idos aquelas instalações formavam uma feira, denominada a Mini-Feira da Malanga mas, devido às obras de reabilitação e prolongamento da avenida 24 de Julho, a principal via de acesso à feira foi bloqueada, impedindo, assim a entrada de quaisquer veículos, seja dos clientes ou dos que transportavam mercadorias. Para aquela moradora, este facto precipitou o encerramento daqueles postos de venda e, de modo a minimizarem os danos verificados com a paralisação do negócio, alguns dos proprietários optaram pelo arrendamento do espaço a pessoas de baixa renda que deparam com a falta de habitação.

“Eu, o meu marido e os nossos dois filhos decidimos morar nesta barraca”, disse. Adelina afirma que ela e o seu marido ganham o suficiente para viverem, através da venda de vinho no mercado da Malanga e alimentam o sonho de se mudarem para um lugar melhor. “Estamos a tentar construir a nossa casa para sairmos daqui e reabrir esta barraca onde vivemos se se resolver o problema do acesso e da energia para este sítio”, comenta. Porém, para alguns moradores o facto que levou à paralisação das actividades na extinta feira prende-se com o elevado índice de criminalidade naquela zona, onde os meliantes chegavam a apoderar-se das receitas diárias dos proprietários dos estabelecimentos. Entregue à sua sorte, Imaculada Rosa Joaquim, de 24 anos de idade, vive maritalmente e é mãe de dois filhos.

Debatendo-se com a falta de habitação e de finanças, não teve alternativa senão arrendar um cubículo que no passado foi um salão de cabeleireiro. Há mais de um ano que ela e a sua família vivem naquele local com apenas um quarto, que também funciona como cozinha e sala, pagando de renda o valor de 450 meticais por mês.

“Vivemos aqui porque não temos dinheiro para comprar terreno para construirmos a nossa casa”, afirma e revela ainda que já tentou por diversas vezes fazer negócio para ajudar o seu marido nas despejas da casa e para arrendar uma coisa melhor, mas nada deu certo porque, por um lado, o seu esposo andou bastante doente e teve de gastar o dinheiro no seu tratamento e, por outro, está cada vez mais difícil viver na cidade. Desempregada e sem fonte de rendimento, Imaculada desabafa afirmando que “é difícil viver assim nessas condições, sem casa de banho, água e ainda por cima com ratos”.

Em situação quase idêntica está Victor Faquira, de 35 anos, que vive num extinto quiosque, sem condições de saneamento básico, que serve de quatro e sala para nove pessoas. Desempregado até há pouco tempo, vive naquele espaço relativamente pequeno desde 2003 e disse que já trabalha como guarda-nocturno estando actualmente a fazer todo o tipo de biscates para sobreviver.

O nosso interlocutor revela ainda que não paga renda porque o espaço pertence ao seu antigo patrão que lhe permitiu ocupá-lo de modo que o mesmo não fosse vandalizado. Os lugares que aquelas famílias “escolheram” para viver é disputado com os vendedores de vegetais e bebidas alcoólicas de fabrico caseiro, o que acarreta graves problemas aos habitantes que já vivem em habitações inadequadas, uma vez que se trata de um local sem condições sanitárias.

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