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Azymir Chiluteque: “Ainda temos défices no culto das artes”

O artista plástico moçambicano, Azymir Chiluteque, dedica-se às artes visuais há quarenta anos. Por isso a sua afirmação, de acordo com a qual “nós, os moçambicanos, ainda temos uma lacuna no culto das artes” tem o seu fundamento. As quatro décadas de produção artística foram, também, uma oposição ao desinteresse dos (potenciais) consumidores em relação aos produtos culturais.

No princípio da sua carreira, Azymir Chiluteque (o homem que explora o pincel e a paleta de cores para ilustrar os seus sentimentos e a sua percepção sobre o mundo) criava obras de arte por puro prazer. Tratava-se de uma aventura. Algum tempo depois, começou a perceber que as suas mãos denotavam uma habilidade rara. Geravam criações que contribuíam para a narrativa da história de Moçambique, com enfoque para a luta da libertação nacional e a conquista da independência.

Nessa altura as suas ideias eram expressas através da batique, uma descoberta que o moveu a atrair muitos jovens artistas. A propaganda da/para a independência nacional, o quotidiano das pessoas naquele Moçambique novo, as suas dificuldades e anseios, as derrotas e as conquistas do povo são os seus principais temas de discussão na pintura.

Foi assim que, a par de todo o aspecto da expressão nacionalista contido nas suas obras, as artes plásticas se tornam uma actividade de renda para Azymir Chiluteque. No entanto, nem a luta pela conservação da simbologia cultural da nossa moçambicanidade – que o artista realiza na sua produção – obsta o desinteresse das populações no seu consumo. A partir daí começa a desilusão do criador.

Onde tudo começou

Azymir Chiluteque é natural de Maputo. Nasceu em 1963. Desde 1969 vive no bairro do Aeroporto – onde também nasceram/viveram célebres artistas plásticos moçambicanos como, por exemplo, Malangatana, Shikane e Naguibe. Na escola, Chiluteque sempre teve dificuldades em expressar-se perante os seus professores. Por isso, para si, a criação artística era uma forma de comunicação. Uma maneira de pronunciar mensagens que – com as palavras – não conseguia.

Aliás, não é obra do acaso que, para si, as artes plásticas constituam um instrumento vital para o resgate dos valores do humanismo, da valorização de manifestações artístico-culturais nacionais, da denúncia dos problemas sociais enfrentados pelos moçambicanos. Por isso, na pintura, o seu maior empenho expressa-se pelo uso das artes plásticas para a sublimação da moçambicanidade, através do resgate e promoção dos seus valores socioculturais.

A partir de 1972 (altura em que vivia na cidade da Beira, onde ao lado do malogrado artista plástico Shikane), Azymir Chiluteque aperfeiçoa a sua actividade na pintura, explorando temas subjectivos. No mesmo ano, o artista pinta nas paredes e placas publicitárias das artérias da urbe.

Foi em resultado disso que – ampliando a sua esfera de acção e representação – a partir de 1976, Chiluteque associa na sua pintura uma propaganda nacionalista da divulgação dos valores sociais, culturais, políticos e económicos do novo estado-nação. No ano seguinte trabalha ao lado do mestre Malangatana, no Museu Nacional de Arte, produzindo obras que lhe valeram um Diploma de Honra atribuído pelo Ministério da Agricultura.

Em 1978, Azymir Chiluteque realizou exposições de arte em países como, por exemplo, a Alemanha, a União Soviética e o Zimbabwe. Mas antes realizara, em Moçambique, três exposições individuais importantes, nomeadamente, A Descoberta em 1983, 25 de Setembro em 1984 e Mbuzine de Samora em 1995.

O artista explora a arte como um instrumento que garante a exaltação do humanismo e a importância da cultura na vida do povo moçambicano, acompanhando as transformações sociais operadas ao longo dos anos. A dimensão dos seus pensamentos na tela induziu muitos jovens – nas/das cidades de Maputo e Matola – a enveredar pelos seus trilhos.

A dada altura, o artista decide criar uma oficina de criação artística na sua casa. O feito configura-se como o ponto mais alto da materialização dos seus anseios – transmitir os seus conhecimentos aos mais jovens. Difunde, entre eles, uma arte ao serviço do combate à pobreza, às doenças endémicas e à consolidação da auto-estima, enaltecendo a heroicidade dos moçambicanos.

“Arte não é apenas uma ilusão. É uma viagem rumo à concretização dos sonhos – através do uso da tela, da tinta de óleo, do acrílico, da aguarela, da tinta-da-china, do papel – buscando-se respostas para das inquietações da sociedade, ao mesmo tempo que se faz o retrato do quotidiano da população”, afirma Azymir.

Viver de/para a arte

Quando Azymir Chiluteque começou a envolver-se nas artes, poucos indícios havia de que tal seria o ofício da sua sobrevivência. Nos dias que correm, este pintor depende do trabalho artístico. É com recurso a ele que satisfaz as suas necessidades e dos seus próximos.

Partindo do princípio de que, neste momento, o Governo, os empresários e a comunidade local não valorizam – de nenhuma forma – a produção artística, ele considera que procurar viver de arte em Moçambique é uma utopia. “Ninguém valoriza o esforço dos embaixadores da cultura moçambicana no país”. Para si, aqui, falta tudo – políticas para o seu incentivo e mecanismos de financiamento para a sua dinamização – para o desenvolvimento artístico.

O artista afirma ainda que se fica com a impressão de que as pessoas que têm o poder decisório nas actividades culturais agem como se não tivessem o domínio do sector em que trabalham. “É em resultado disso que a população valoriza mais a cultura estrangeira, em detrimento dos traços culturais nacionais, porque não nos compreendem”, desabafa.

No seu entender, é esse o contexto que impede que a produção cultural nacional, com enfoque para as artes plásticas, “invada” e se imponha nos mercados internacionais. “Há muita qualidade nos produtos da nossa indústria cultural, mas há necessidade de lapidar os artistas para adequar a nossa realidade às exigências da evolução tecnológica que se registam no mundo contemporâneo”.

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