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Auto-exclusão

A campanha eleitoral é, verdadeiramente, um momento de festa, em que as pessoas vão desfilando ao ritmo dos que querem ser escolhidos, entre a legítima curiosidade e o prazer de estar em multidões. Há-de ser mérito de cada um poder convencer e conquistar votos dessas populações que enchem as ruas e os comícios. Já a caminho do fim da campanha, é possível ler o quadro de expectativas de voto e os efeitos do discurso, quer de inclusão, quer de auto-exclusão. Num dos espaços de antena, um partido político traz a seguinte proposta: “ quando chegarmos ao poder, vamos acabar com a roupa das calamidades. Vamos construir fábricas de vestuário no país. Vamos construir fábricas de automóveis em Moçambique”.

Começando pela sustentabilidade de acabar com a roupa das calamidades no país, a promessa atinge o extremo do absurdo. Fica por aqui claramente visto que não conhecem o Moçambique que desejam governar. Com efeito, do Rovuma ao Maputo, não há posto administrativo ou localidade que não vista roupa das calamidades. É o que há de acessível ao bolso da população, sem que lhe falte qualidade. Portanto, o vestuário fornecido pelos vendedores das calamidades não só deixou de constituir uma imposição de alguma crise, como passou a constituir um mercado específico do ramo, com uma qualidade que não pode ser posta em causa.

Além de vestir milhões de moçambicanos, de todos os extractos sociais, esta área emprega dezenas de milhares ou mesmo centenas de milhares de homens e mulheres. Alimenta numerosas famílias. Por este lado, é óbvio, um partido destes não pode conseguir qualquer voto. Uma auto-exclusao nítida. Ao prometer construir fábricas de vestuário em Moçambique como alternativa às calamidades, peca por ignorar os factores que intervêm no processo desta natureza. A maquinaria e a matéria-prima para tal projecto. O pais não possui nem uma nem outra coisa, o que implicaria custos tais de produção, que melhor ficaria importar o produto final. O preço é o que todos conhecemos e que tem viabilizado o recurso às calamidades. Por ai vaza todo o discurso político nesta matéria.

Quanto a fábrica de automóveis, é bem de se ver quanta demagogia incorpora tal promessa, sobretudo se tomarmos em conta que ensaios do género já haviam sido feitos e o resultado foi nulo. Aliás, uma coisa a que se pode hoje chamar fábrica de computadores não passa de uma linha de montagem, sustentada pelas facilidades aduaneiras na importação de componentes. Mais do que isso e tal como na roupa, o parque de viaturas usadas em Moçambique, com a acessibilidades inerentes, põe completamente fora de questão falar deste assunto como um problema nacional que deva ser solucionado por uma opção de voto.

Razão mais que suficiente para duvidar da seriedade de uma formação política que tem como projecto tão frágeis alicerces. Um caso de auto-exclusão. Na outra vertente, temos a formação política que promete acabar com o desemprego. “Vamos acabar com o desemprego. Não queremos que os jovens dependam do Estado. Vamos promover o auto-emprego”. Pura tautologia, num contexto em que o auto-emprego tem sido politica dominante para combater o desemprego em Moçambique. Mas as coisas complicam-se pelo facto de este partido dispensar o Estado na resolução dos problemas da juventude e, ao mesmo tempo, querer alcançar o poder desse Estado, conduzido por essa mesma juventude.

Com que intuito? E a que titulo vai promover o auto-emprego se os jovens não dependerão do Estado? Se se vota por um projecto politico, é preciso que valha a pena. Que ele ao menos exista com cabeça tronco e membros. Auto-exclusão. “Vamos dar habitação aos jovens!”. Este discurso também, enquanto não apresentar argumentos de raiz, sobre uma atitude que vá ser tomada para concretizar o sonho da juventude, não tem qualquer acolhimento na lógica. Esta perspectiva envelheceu com o tempo e novas soluções foram surgindo. Os jovens, hoje, depois de muito se queixarem da falta de habitação, lutam para ter algum dinheiro e comprar terrenos, pois já embrenharam na filosofia de que precisam de começar de algum lado a criar o seu futuro. As zonas de expansão das nossas cidades reflectem este movimento da juventude para resolver o problema de habitação.

Apresentar uma solução tão extemporânea como prometer habitação é não se constituir em alternativa de governação. Toda esta auto-exclusão decorre, naturalmente, de um único factor. A maioria dos partidos políticos moçambicanos não exerce qualquer actividade política no intervalo entre os pleitos. Sendo por isso que não conhecem a realidade nacional, por jamais se terem preocupado em auscultar as populações para lhes conhecer os anseios.

Pela conversa da esquina não se podem conhecer os problemas de um pais, muito menos encontrar soluções na animosidade crítica de quem ouve queixas de um ou de outro amigo revoltado ou frustrado. Depois desta auto-exclusão dos partidos políticos, melhor vai ser definir novas regras de candidaturas, para que os fundos do Estado tenham algum destino sério pela democracia. E que não venham a ser dados a qualquer palhaço.

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