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Assaltantes criam pânico na Zona Verde e Ndlavela

Os moradores dos bairros da Zona Verde e de Ndlavela, no município da Matola, estão apavorados devido à criminalidade protagonizada por indivíduos de má-fé. Alguns recorrem à Bíblia para se fazerem passar por pastores mas na verdade são ladrões, de acordo com as vítimas. Outros invadem os domicílios e, para além de outro tipo de torturas, passam o ferro de engomar pelo corpo de alguns chefes de família na presença de crianças e depois exigem dinheiro. Orlando Modumane, porta-voz do Comando da Polícia da República de Moçambique a nível da cidade de Maputo, confirma o facto mas Pedro Cossa, do Comando-Geral, nega que a preocupação dos citadinos seja generalizada.

Devido ao medo e receio de mais tarde os supostos assaltantes procurarem algumas pessoas para um ajuste de contas, os nossos interlocutores colocaram como condição para desabafarem a não captação das suas imagens.

Orlando Modumane confirma que, quer na cidade Maputo, quer na cidade Matola, há meliantes que perturbam a tranquilidade dos munícipes. A corporação suspeita de que alguma quadrilha seja responsável por esse desassossego, porém, está a trabalhar com vista a desmantelar o grupo e isso carece de estratégias para o efeito.

Segundo narraram os habitantes da Zona Verde, de há uns tempos para cá, no período nocturno, há um grupo de malfeitores que se faz passar por pastores que alegadamente seguem a missão de difundir o Evangelho com o intuito de expurgar os maus espíritos e a má sorte nas pessoas. Como artimanha, os gatunos recorrem a alguns versículos da escritura para entreter e enganar os seus alvos com orações para depois agredi-los, assaltá-los e roubar-lhes. Há também relatos de violações sexuais.

O chefe do quarteirão 5/5 na célula “C”, Festas Balaze, disse ao @Verdade que, para além de recorrem a escrituras sagradas, os delinquentes andam bem vestidos para evitar qualquer tipo de suspeita em relação à sua conduta anti-social. Eles atacam principalmente trabalhadores e estudantes.

Andar à noite, na Zona Verde, afirmou o nosso interlocutor, constitui um perigo e algumas mulheres são forçadas a manter relações sexuais com indivíduos estranhos. A existência de becos sem iluminação no bairro está a concorrer também para o aumento da criminalidade.

“Nos últimos dias, a situação é preocupante porque até às 21horas os moradores ficam dentro das suas casas até o dia seguinte devido ao medo”. Por sua vez, o chefe do quarteirão 5/2 no mesmo bairro, Américo Wacitela, declarou que os assaltos são constantes nos fins-de-semana, o que impede a movimentação de munícipes à noite. A área mais perigosa é a da “estrada do campo da serra” devido à falta de iluminação pública e de vigilância da Polícia. Esta é acusada de ter medo dos larápios.

Rosa Cuinica mora, igualmente, na célula “C”. À nossa Reportagem disse que ainda não foi vítima de “falsos pastores” mas tem conhecimento de que alguns vizinhos já foram agredidos e roubados por essa agente. A Polícia Comunitária tem estado a patrulhar a zona mas não faz nada para neutralizar os indivíduos que usam a palavra de Deus para alcançar os seus intentos maléficos. “Quando um cidadão não traz consigo nenhum bem valioso, os marginais ficam enfurecidos e agridem de forma macabra com objectos contundentes”.

Basília Mondlane vive na mesma área e está agastada com o que classificou de “recrudescimento de assaltos na Zona Verde”. Para ela, a incerteza, a insegurança e a desordem têm feito parte do dia-a-dia daquele ponto do município da Matola. A presença da Polícia de Protecção não se faz sentir e a Polícia Comunitária é inoperante. “Os moradores são obrigados a dormir vigilantes”.

A nossa entrevistada declarou ainda que existem indivíduos mal-intencionados que colaboram com as pessoas de má-fé em troca de dinheiro. Outra senhora, que falou sob o anonimato, disse que a população está revoltada, por isso deixou de desembolsar os 60 meticais anuais estipulados para subsidiar dos agentes da Polícia Comunitária.

“Fui vítima”

Celeste Machava vive na célula “C”. Há dias, por volta das 21 horas, quando voltava do trabalho, desceu do chapa numa das paragens da Zona Verde e entrou pelo beco habitual que vai dar à sua casa. Pelo caminhou encontrou-se com indivíduos que liam, em voz alta, alguns versículos da Bíblia, trajados como se fossem pastores.

Porque nunca antes tinha ouvido falar dum conjunto de malfeitores que recorrem a orações para roubar os munícipes, Celeste continuou a caminhar mas, minutos depois, foi brutalmente espancada, tendo-lhe sido arrancada a carteira que continha documentos. “Pensei que os meliantes iriam matar-me porque traziam objectos contundentes que não identifiquei devidamente”.

Assaltantes “engomam” as vítimas no Ndlavela

João Manhiça, morador do quarteirão 22, no bairro de Ndlavela, disse-nos que nos últimos meses, nos bairros da Zona Verde, Ndlavela e outros circunvizinhos, ocorrem assaltos monstruosos, em que os meliantes se introduzem nas residências, roubam, causam terror e traumas nas famílias, uma vez que violam física e sexualmente todos os membros da casa, e torturam-nos com recurso a ferros de engomar. O pior é que, por vezes, obrigam todos, incluindo as crianças, a assistir a essas atrocidades.

“Quando os gatunos pedem dinheiro à família e ela diz que não tem, eles torturam alguns elementos dessa mesma família, espancam e queimam com um ferro de engomar os progenitores na presença dos seus filhos”. João Manhiça contou-nos, com tristeza, o que aconteceu à sua sobrinha Isabel e ao marido, Benet, proprietários de uma barraca em Ndlavela. Por volta das 22 horas, o casal voltava para a residência quando um grupo de gatunos o seguiu. A dado momento da caminhada, os larápios imobilizaram as vítimas, espancaram-nas e obrigaram-nas a que os levassem para a sua habitação.

Chegados ao sítio, os malfeitores exigiram dinheiro mas não havia nenhum tostão guardado em casa, por isso acordaram as crianças dos cônjuges, pegaram num ferro de engomar e passaram entre as pernas de Isabel e Benet, de acordo com Manhiça, para quem o que mais inquieta os moradores da zona é o facto de as autoridades locais não mostrarem interesse em relação ao problema. Quando anoitece as famílias entram em pânico porque nunca se sabe qual delas será a próxima vítima e o alívio só é sentido na altura em que o sol desponta.

 

“Tenho mazelas dos assaltos”

Na noite do dia 10 de Maio passado, por volta das 22horas, Carlos Mathe, condutor de uma viatura de transporte de passageiros, voltava de mais uma jornada de trabalho, tendo-se dirigido a um parque de estacionamento sito no seu bairro, Ndlavela, para deixar a sua viatura.

Passados alguns minutos, já a caminho de casa, o nosso entrevistado foi, de repente, interpelado por três indivíduos desconhecidos. Sem pronunciarem nenhuma palavra, os meliantes agrediram fisicamente Mathe e roubaram-lhe 1.500 meticais e os seus documentos.

A vítima despertou numa enfermaria do Hospital Geral José Macamo, onde ficou duas semanas sob os cuidados médicos intensivos. Em consequência desse assalto, o cidadão perdeu parcialmente a fala, a locomoção, a audição no ouvido do lado direito e a visão num dos olhos. “E também não consigo carregar coisas pesadas, muito por culpa dos assaltantes”.

 

A reacção de um sociólogo e um antropólogo

O antropólogo Hélder Nhamaze explicou-nos que essa forma de actuar de pessoas que praticam roubos ou pequenos crimes é uma demonstração clara de que a sociedade está a viver sem regras. Nota-se a ausência da funcionalidade das normas sociais e jurídicas, o que muitas vezes induz o indivíduo a agir da maneira que entender, violando física e sexualmente os seus semelhantes. E muitos meliantes não agem sob o efeito do álcool nem da droga, mas sim porque já não conseguem viver sem cometer desmandos ou um mal contra os outros cidadãos.

Por sua vez, o docente universitário e sociólogo, Eugénio Brás, considera que o facto de os agressores torturarem as suas vítimas é, para eles, um caminho rápido para a satisfação das suas necessidades e pretendem, também, atingir psicologicamente os munícipes sobre quem recaem os danos.

“Está-se perante uma cadeia de indivíduos assolados por doenças mentais, ou seja, por uma patologia social”. Essas pessoas, segundo o nosso interlocutor, precisam de um tratamento psiquiátrico e de uma punição judicial.

Enquanto isso, as restantes pessoas, principalmente crianças, que tenham acompanhado alguma crueldade no momento do assalto, devem ser submetidas a um tratamento médico para atenuar o efeito do trauma, pois, caso contrário, no futuro podem fazer parte de um outro grupo de psicopatas sociais ou de cidadãos que sofram de desequilíbrios patológicos que se manifestam num comportamento anti-social e impulsivo ou agressivo.

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