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As tatuagens que magoam a alma de Naguib

As tatuagens que magoam a alma de Naguib

Cerca de 10 anos depois de um interregno neste tipo de actuação, o artista plástico moçambicano, Naguib Elias Abdula, voltou – no dia 04 de Setembro – a exibir as suas obras na galeria do Museu Nacional de Arte, em Maputo. Com o mote Tatuagens d’Alma, o aspecto particular desta exposição multitemática, produzida com base em técnicas várias “é que eu preparei-a com profunda tristeza na alma”, diz. Como o estimado leitor irá perceber, ao longo da leitura, são vários os aspectos que magoam o ego do artista – e, em sentido metafórico, dos moçambicanos – como, por exemplo, as últimas As tatuagens que magoam a alma de Naguib* hostilidades militares que se responsabilizaram pela chacina de moçambicanos sem nenhum motivo.

Em Tatuagens d’Alma, Naguib convoca-nos a rebelar-nos – e agir nesse sentido – contra os 43 porcento de crianças moçambicanas que padecem de problemas de desnutrição crónica, tendo em conta que 52 porcento da população moçambicana é composta por petizes. Embora o artista admita que o Governo moçambicano edificou inúmeras e valiosas infra-estruturas no país, afirma que o Estado ignorou a que constitui a pedra angular.

“Para mim, a maior e mais importante infra-estrutura que o país possui é a criança”. Reconhecendo os riscos envolvidos nessa realidade – “se nada for feito, nos próximos 20 anos teremos um país subnutrido intelectualmente” – o criador exige que se gere uma bolsa alimentar para assegurar a permanência e a elevação dos níveis de atenção dos petizes na escola. Outro aspecto que mancha, no sentido negativo da palavra, a alma de Naguib é a condição social do artista moçambicano: “Quando eles precisam de nós usam-nos, mas quando é tempo de fazer coisas que nos beneficiam, abandonam-nos”.

De todos os modos, a realidade agravante em relação a qual o autor de Ode a Samora Machel – o maior mural que existe no país e no continente – é o facto de se estar a estratificar os moçambicanos usando-se discursos constructos que perigam a unidade nacional: “O que é um moçambicano de gema?”. Se o estimado leitor desconhece a resposta desta questão, esse texto é recomendável porque, nalguns destes longos parágrafos, Naguib responde de forma original. Mostre-nos que é amante do saber e deixe a sua alma tatuar-se de conhecimento, absorvendo esta matéria.

@Verdade: Tatuagens d’Alma – a mostra de arte que estará patente no Museu Nacional de Arte, em Maputo, entre Setembro e Novembro – assinala o retorno do célebre artista plástico moçambicano Naguib às galerias da capital do país, oito anos depois. O que aconteceu durante esse interregno?

Naguib: Talvez não seja bem assim, porque, nesses últimos anos, eu fui o artista moçambicano que mais realizou mostras de arte no país. Cheguei a realizar duas ou três exposições por ano, sobretudo se tivermos em conta que os murais e monumentos que edifico nas ruas são, de certa forma, um tipo de exposição de arte. Produzir um mural, como fiz em 2006, quando criei o Ode a Samora Machel, com um quilómetro de comprimento, é realizar uma grande exposição de arte. Gerar murais – como os do FIPAG (Os Percursos da Água), do Banco Pro-Crédito (Microdesenvolvimento) e da Universidade Pedagógica (Cultura do Conhecimento) – e os três monumentos que edifiquei na vila de Songo, na província de Tete, não é tarefa fácil. E isso também é um trabalho artístico. Ou seja, estou a realizar exposições de arte de uma forma diferente – não nas galerias, mas nas ruas onde quaisquer pessoas podem apreciar tais criações artísticas.

 

Um tributo ao povo

@Verdade: Por falar da edificação de murais, algo que, dependendo das condições climáticas, pode durar muitos anos, recordo-me de que se dedicou bastante no mural Ode a Samora Machel, um dos maiores deste país e talvez do continente. O que o move a expor através deste formato e, consequentemente, a envolver muitas pessoas na partilha do conhecimento envolvido?

Naguib: Antes de mais, acho que vale a pena recordar que, no início da minha carreira, recebi instruções de diversas pessoas a quem – estando à beira de celebrar 60 anos de vida – vale a pena prestar algum tributo, expondo-lhes os resultados dessas doutrinas. A sociedade deu-me muito carinho e atenção, de tal sorte que estou muito grato por tudo o que aprendi ao longo da vida. Quando falo sociedade incluo o primeiro Presidente da República, Samora Moisés Machel até ao cidadão comum que me transmitiram conhecimentos através de narrativas e de provérbios.

Deles também aprendi a língua local e as histórias que se contavam à volta da fogueira. Portanto, cheguei à conclusão de que era necessário, através da arte, expressar a minha gratidão a todas as pessoas que me ensinaram algo valioso durante estes anos. Outra forma de prestar essa homenagem é ensinando o trabalho artístico aos jovens, com quem trabalho, não só no que diz respeito às técnicas do uso do pincel, da espátula e do próprio mosaico em termos de equilíbrio cromático e da dinâmica da própria pintura até à mensagem que se deve transmitir.

Há muitas horas e meses investidos a realizar-se essa obra colectiva. Além disso, há outros valores (carácter, solidariedade, honestidade e a valorização do próprio trabalho) que transmito continuamente. O rigor laboral associa-se ao rigor com que se encara a vida. Quando se trabalha de forma séria e se tem rigor no que se faz, triunfa-se na vida.

@Verdade: A disseminação e a compreensão da mensagem são um tema que preocupa os homens. Entre os trabalhos que realizou – a começar pelo mural Ode a Samora Machel, edificado ao longo da avenida Marginal da cidade de Maputo, em 2006 – sente que a sua mensagem está a chegar aos destinatários?

Naguib: Eu estou satisfeito com a obra de arte que produzi. No entanto, infelizmente, as sensibilidades não são iguais (até porque ninguém é obrigado a ser sensível em relação às artes e à cultura). Em resultado disso, alguns dos meus murais não são bem conservados. Por exemplo, o parietal da marginal é muito grande e, por várias razões, sobretudo as climatéricas, requer um tratamento especial primeiro, porque está exposto ao mar (devendo ser protegido do salitre), segundo, está completamente exposto ao sol terceiro, as plantas que o suportam podem danificar os azulejos quarto e por fim, o próprio passeio não é cuidado sob o ponto de vista de limpeza – o que me faz pensar que o Conselho Município de Maputo tem outras prioridades.

Esta forma de lidar com a situação faz com que se agudizem (outros) apetites adversos aos objectivos da criação artística. Por exemplo, depois de nós termos estado a trabalhar arduamente, durante seis meses, para edificar a obra, surgem empresas publicitárias que colocam os seus painéis em frente ao mural obstruindo a sua visibilidade. Ou seja, primeiro temos de ver a publicidade e só depois a arte. O drama é que estas empresas não tiveram nenhuma participação na edificação do mural em prejuízo do qual fazem as suas campanhas. Isto é extremamente triste porque, embora eu não saiba quem deve disciplinar este tipo de actuação, sei que se devia proibir a publicitação dos serviços do Moza Banco e da agência que os criou porque não participaram na edificação do mural.


Ninguém escutou o grito

@Verdade: Tendo em conta o feedback da mostra “Não matem a cultura. Não matem Craveirinha”, qual é que foi o impacto da mensagem que pretendia transmitir? Ela chegou aos visados?

Naguib: A mensagem sempre chega, se calhar ela não atingiu o alvo porque as pessoas não são sensíveis à arte e à acultura – e para isso é preciso que se tenha a sensibilidade emocional, sob pena de se estar a investir no vazio. Em resultado disso, sucedeu que, apesar de ter havido sectores sociais que acataram a informação, os que constituíam o nosso alvo não foram atingidos.

@Verdade: Que sectores sociais é que não foram atingidos?

Naguib: Por exemplo, uma das mensagens que eu disseminei tinha a ver com a necessidade de haver apoio para a área das artes, uma das mais sensíveis que existem. Assim compreendo porque os engenheiros trabalham com as pontes, os médicos com a saúde, os juristas com as leis e nós os artistas trabalhamos com a emoção que nos dá a tranquilidade, equilibrando o modus vivendi de um colectivo. Nos últimos anos tenho-me sentido bastante estupefacto, daí ter produzido a mostra “Não matem a cultura”, porque gostaria que se fizesse alguma revisão à lei de protecção cultural. Por exemplo, o artigo 9 do Código de IVA isenta o artista de pagar o Imposto sobre o Valor Acrescentado, condicionando-lhe a abdicar dos (seus) direitos autorais.

Isto significa que, por exemplo, tendo abdicado dos direitos em relação aos murais que criei em Songo, se alguém quiser acrescentar (ou retirar) algo nessa obra pode fazê-lo como quiser – afinal possui direitos sobre a criação. E eu não poderei reclamar, porque a lei o protege. Nesse sentido, eles podem multiplicar, fazendo cartazes, distorcer a obra, como quiserem porque ela já não me pertence. Portanto, tendo em conta que o que eles estão a fazer não se faz, porque revela uma grande insensibilidade, criei a obra “Não matem a cultura”, a fim de lhes recordar da necessidade de reverem as leis desse sector. Por exemplo, a nossa Lei do Mecenato é bastante obsoleta – e ninguém a aplica.

Já naquela época, há oito anos, era altura de se fazer uma lei de incentivo à cultura, o que não aconteceu. Por isso, a cultura passou a ser a última de todas as prioridades do país. Em contra-senso, quando se precisa de fazer campanhas eleitorais ou de se angariar fundos monetários vai-se pedir os quadros de Naguib para vendê-los. Bastas vezes chamam-se os músicos para cantar em nome de movimentos sociais em que se argumenta que não se tem dinheiro para assegurar o seu financiamento.

Ou seja, quando eles precisam de nós usam-nos, mas quando é tempo de fazer coisas que nos beneficiam, abandonam-nos. Não estou a pedir que andem com os artistas ao colo, mas é necessário que se chamem os criadores para juntos analisarmos a lei e ver que pontos nos prejudicam e quais são os que nos beneficiam. Não faz sentido que se estejam a criar muitos ministérios e empresas novas e não haja nenhuma legislação que obrigue tais organizações a consumir os produtos Made In Mozambique, a coisa original que temos.

Porque é que os artistas hoje têm dificuldades em vender as suas obras? Por exemplo, eu estou a montar o meu atelier na África do Sul, para vender as obras em Londres, porque no meu país não consigo. Qual é a necessidade de se fazer isso? Aqui há espaço para grandes empreendimentos económicos e não há lugar para a cultura? E não há ninguém que pensa na necessidade de se fazer uma lei eficaz para o sector da cultura – nem que seja para obrigar cada empresa a consumir, por ano, pelo menos três ou quatro quadros, uma escultura e o nosso artesanato.

@Verdade: Desde que fez o grito “Não matem a cultura” até os dias actuais, não lhe foi contactado a fim de se ter alguma assessoria?

Naguib: Não! Não existe sensibilidade para as artes em Moçambique.

 

Uma situação revoltante

@Verdade: Sabemos que, para certos povos, as tatuagens servem para comunicar alguns hábitos e rituais. Nesta mostra Tatuagens d’Alma, cujas obras expõe no Museu Nacional de Arte, de que é que Naguib nos fala?

Naguib: Tatuagens d’Alma é uma exposição que eu preparei com certa tristeza na alma. Portanto, os acontecimentos que, nos últimos anos, me entristeceram estão aqui expostos. Fiquei tatuado de diversas formas no meu espírito. Por exemplo, sempre vivemos e fomos educados segundo princípios sobre as quais ninguém me avisou de que foram mudadas. Eu fui solidário com a luta do Zimbabwe e contra o apartheid.

Durante a nossa criação, nessa altura, juntos passámos fome e lutámos pela liberdade. No entanto, sem que alguém me tenha avisado sobre a mudança da realidade, hoje estou a ver um monte de situações contrárias. É um facto que o Governo fez muitas infra-estruturas no país. Mas, também é irrecusável que o Estado se esqueceu da infra- -estrutura fundamental. Para mim, a maior e mais importante infra-estrutura que o país tem é a criança. Não consigo perceber como é que um país em que 52 porcento da sua população são constituídos por crianças admite que 43 porcento vivam numa situação de subnutrição crónica.

Essa realidade ficou muito tatuada na minha alma, de forma intrigante porque embora nós tenhamos lutado, durante muitos anos, contra o apartheid, actualmente, em Moçambique fala-se de moçambicano de gema. O que é isso? O que é um moçambicano de gema? Quer dizer, existem moçambicanos de primeira, de segunda, moçambicanos – como se fala na Imprensa – de origem asiática? Moçambicanos do norte? Moçambicanos macua? Qual é a razão de se dividir um país que durante a luta de libertação nacional combateu em prol da unidade nacional? Vamos perigar a unidade nacional. Que discurso é este que está a ocupar o nosso dia-a-dia?

@Verdade: Estas pombas pretas, assassinadas, perante a indiferença das demais, estarão a ilustrar esta realidade?

Naguib: Não consigo perceber porque é que, durante 16 anos, o país esteve mergulhado numa guerra sangrenta, em que morreram milhares de pessoas. Vivemos em paz há 20 anos, no entanto, novamente, permite-se que haja moçambicanos a sucumbir vítimas de AKMs. Houve pessoas que morreram, quando os outros levaram um ano e meio a entrarem em consenso em relação ao cessar-fogo.

Agora surgem-nos – os belicistas – e apresentam-se ao povo como se fossem um troféu. Depois de todas as pessoas que morreram no centro do país, vai-se pedir votos às viúvas cujos maridos pereceram sem razão nenhuma. Os órfãos agora devem votar neles? É por isso que a minha pomba chora. Portanto, o facto de não veres lágrimas nos meus olhos não significa que eu não esteja a chorar. Nada me alegra. Não estou em nenhuma situação feliz. Vou levar esta história para fora de Moçambique, por uma simples razão: Por volta de 1970, quando a minha geração começou a dedicar-se às artes se deparou com um grande problema – o que deveria pintar?

Pertencemos a uma geração urbana, de tal sorte que quando vimos os outros artistas plásticos – Malangatana, Mankew, por exemplo – que já pintavam temas como o colonialismo, os ritos de iniciação e a feitiçaria entre outros que não conhecíamos, ficámos sem saber que assuntos abordar na nossa criação. E se nós quiséssemos trabalhar tais tópicos estaríamos a ser falsos porque esse não era o nosso mundo. No entanto, também não poderíamos gerar obras baseadas no realismo socialista muito menos na pintura europeia que não tinha nada a ver connosco.

Então, nessa altura em que éramos uma juventude de 20 e poucos anos, pensámos que a solução era ir ao estrangeiro estudar arte. Entretanto, por várias vezes, eu estive com o Presidente Samora Machel a quem solicitei uma bolsa de estudos. Ele perguntou- me: ‘Naguib, tu queres ir estudar para pintar o que?’ Fiquei sem resposta, de tal sorte que ele acabou por sugerir-me que fosse a Tete, a minha terra natal, recolher histórias e ouvir provérbios locais. Ele queria que eu escutasse o povo, a maior biblioteca do conhecimento, de quem se pode aprender muito sobre a vida. Fui a Tete e fiquei três meses a investigar. Enchi cadernos e cadernos de apontamentos.

Quando voltei, comecei a pintar e nunca mais tive dificuldades na minha vida em criar obras, porque, sempre que enfrento algum obstáculo, converso com as pessoas cujas alegrias, tristezas, ilusões e desilusões constituem a matéria-prima do meu trabalho. O ensinamento que tive de Samora Machel e da Frelimo contribuíram para a formação da minha carreira, ao longo dos últimos 38 anos. Neste momento, não tenho condições para pintar algo diferente daquilo que vejo.

@Verdade: Se por um lado temos uma pomba preta que chora, por outro, temos a branca com um coração visível. Seria correcto inferir que esta segunda representa o desejo de um futuro risonho para as novas gerações?

Naguib: É uma saída porque o uso abusivo da pomba não funciona. Para se falar da paz tem de se estar em paz. As palavras não devem estar dissociadas do sentimento. Quando dizemos que queremos a paz, essa sentença deve estar associada ao sentimento e à emoção da vontade de viver num ambiente pacífico. Se alguém afirma que quer a paz enquanto não a quer – está a ser falso e ridículo. Parafraseando uma pessoa cujo nome não me lembro, nós já aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas ainda não aprendemos a difícil habilidade de viver como irmãos. Temos de aprender a respeitar o espaço alheio e as oportunidades de criação que cada um tem.

Homem de gema

@Verdade: Revelou a sua preocupação em relação à situação da criança moçambicana que padece da subnutrição. Esta postura estará associada ao facto de ser avô, pai ou ter sido criança?

Naguib: De facto, fui criança, sou pai e avô. Quando viajo pelo país – nas províncias e nos distritos e aldeias – vejo uma situação deplorável da nossa criança, o que não faz sentido nenhum, muito em particular porque estamos independentes há 39 anos e 20 anos da paz.

Fui a uma lixeira em Joanesburgo, onde apanhei carrinhas de crianças que – depois de um trabalho artístico – expus nesta mostra. O objectivo é dizer às pessoas que a posse daquele bem não deve ser um luxo, mas um direito básico da criança. É por aí que nós devemos agir. Por exemplo, eu quero pedir ao meu candidato à Presidência da República, Filipe Jacinto Nyusi, para garantir o pequeno-almoço e o almoço a toda a criança no país. Todas as crianças, de manhã, têm de ter direito a um copo de leite e um pedaço de pão. Ao meio-dia, a criançada tem de ter almoço. Se isso acontecer, a atenção nas aulas será maior.

Nenhuma criança irá abandonar a escola porque, desta vez, será um lugar que tem comida. Sem bolsa alimentar para as crianças, nós não vamos a lugar nenhum e, daqui a 20 anos, teremos um povo bastante carente de inteligência, porque a subnutrição afecta os neurónios dos petizes. E porque daqui a 20 terei 80 anos de idade, não quero chegar a essa faixa etária e ver crianças subnutridas intelectualmente. Portanto, é fundamental que se desenvolva essa grande infra-estrutura moçambicana que é a criança, sob pena de não termos país.

@Verdade: Tem sido tradição nas suas obras a homenagem de escritores como, por exemplo, José Craveirinha. Nestas Tatuagens d’Alma há algum escriba a ser reverenciado?

Naguib: Eu fiz um livro gigante, com 10 páginas, cujo título é Constituição da República. A sua estrutura está dividida em três áreas – arte, liderança e política – em que inseri as frases de diversas personalidades do mundo que me agradaram.

@Verdade: Porque é que escolheu a pomba para revelar aquilo que está tatuado na sua alma?

Naguib: A pomba é um símbolo internacional decretado pelas Nações Unidas para representar a paz. De qualquer modo, não é só a pomba que está tatuada em mim. Temos o Made In Mozambique, a Constituição da República, as hostilidades militares recém-terminadas, a situação das comunidades expatriadas das regiões onde se ergueram investimentos económicos, bem como o homem de gema.

Portanto, eu faço esta exposição não como uma forma de crítica mas de apelo para se reflectir sobre a nossa realidade. Para mim, a pessoa que se considera de raça pura, de raça de gema, é um incompetente, egoísta e prepotente porque se quer servir da sua cor para se impor numa sociedade que precisa da intelectualidade, de gente sábia e inteligente. E ele, como não é inteligente, usa a cor da pele para se impor.

E quando começa o racismo, o acto seguinte é o tribalismo e a desintegração do país. Tivemos crises no mundo que nem vale a pena lembrar. Já tivemos Adolfo Hitler a dizimar os judeus, o grupo que actualmente faz o mesmo com os palestinos, os hutus e tutsis mataram-se entre si – será que é isso o que queremos para o nosso país? Quando eu estiver com o candidato da Frelimo, vou pedir-lhe para criar leis contra o racismo e o tribalismo. Todo o indivíduo que é tribalista tem de ser preso.

Eu não estou a pedir uma coisa estranha porque na África do Sul, qualquer atitude racista é condenável com direito a prisão. No Brasil, qualquer comportamento discriminatório em relação à raça, à tribo, à orientação sexual, dá cadeia. Somos um único país e um único povo – já não há minorias. Então, como dizer que eu sou um moçambicano de origem asiática, a minha mulher é de raça diferente da minha, mas eu não consigo vê-la como negra. Porque o nosso filho é a mistura de nós os dois.

@Verdade: A sua mostra é, em certa medida, dedicada à criança. Que mensagem tem para esta camada social?

Naguib: O futuro está nas mãos das crianças e, se assim for, nós temos de ter a humildade de servi-las. Hoje, elas é que precisam de nós mas amanhã são elas quem cuidarão de nós. Como disse, no princípio da conversa, eu recebi muito da sociedade – agora estou a retribuir. Se consegues transmitir todos os ensinamentos que recebeste da sociedade – ao longo da vida – ao homem novo, és um homem de carácter. Se não consegues fazer isso, és de gema.

 

*Entrevista conduzida e gentilmente cedida ao @Verdade pelo jornalista cultural moçambicano, Ouri Pota.

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