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As Máscaras de Falcão

As Máscaras de Falcão

A exposição de artes plásticas que, recentemente, foi inaugurada no Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCBM), em Maputo, contendo obras da autoria dos artistas plásticos moçambicanos Falcão, Butcheca, Nelly e Nelsa, ambas Guambe, desperta a atenção do público. Intitulada Masque, ou simplesmente Máscaras, as criações sugerem-nos utopias, ideias reias e/ou fictícias de pessoas com dupla personalidade.

Em Máscaras – com cerca de 32 obras – os quatro artistas, cada um usando a sua técnica, exploram a madeira, o pincel, a tinta da china e alguns materiais recicláveis, para ilustrarem os problemas, as inquietações e os desafios que cada um enfrenta na sociedade. Na verdade, embora os criadores admitam que são várias as máscaras usadas pelos seres humanos, afirmam que tudo se resume a falsidade e autenticidade. Na exposição, Butcheca colabora com quadros pintados e esculturas feitas a partir de materiais recicláveis.

Segundo conta, a Máscara é uma forma de rebuscar a nossa cultura, através da valorização da arte, pois “é por detrás de máscaras que se escondem os seres humanos; elas transportam mistérios que escondem uma identidade, em jeito de carapaça que cobre a verdade”.

Por sua vez, Falcão traz um conjunto de estátuas que representam a parte superior do rosto. As obras foram feitas a partir do pau-preto, do sândalo, de pedaços de capulana e de sacos. No entanto, enquanto Falcão se espelha na da madeira para mostrar o seu trabalho e os desafios sociais, as gémeas Nelsa e Nelly usam a pintura. As irmãs ilustram as, supostas, máscaras das mulheres.

Em conversa com o @Verdade, Falcão diz que o título dos trabalhos “é uma ideia colectiva com a qual se pretende mostrar o outro lado do ser humano. Trata-se de uma iniciativa idealizada por mim e por Vilanculos. No principio tínhamos a pretensão de viajar para as províncias do centro e sul de Moçambique para investigarmos as danças tradicionais, pois queríamos, através da pintura e da escultura, ilustrar estes bailados”.

De todos os modos, a grave situação da falta de patrocínio na área das artes no país dificultou o avanço dos criadores. E justifica: “O projecto ainda não foi esquecido. Faltam-nos meios para que possamos viajar de um lado para o outro a explorar o que se tem de autêntico nas comunidades”.

Embora, sobre esse assunto, já se tenha, há longos anos, discutido bastante, ainda não se sabe por que motivo não se investe na cultura, afinal, “a riqueza de um país vê-se através das manifestações culturais”. Com os seus argumentos, até certo ponto válidos, Falcão diz: “Eu acho uma merda o país em que a gente está a viver. Não sou perfeito, mas também não sou hipócrita”. Falcão tem fé em que, independentemente do que der e vier, as suas mensagens cravadas na madeira morta podem salvar milhares de vidas.

A verdade é que, perante ao olhar mórbido dos que exploram as pessoas (neste caso os que, segundo ele, nos deveriam proteger), o artista age como se fosse defensor das causas sociais. Contudo, é dentro desse contexto que se explicam os “rostos postiços” dos artistas: “Quando nos reunimos, eu, Butcheca e as gémeas Nelsa e Nelly, conversámos com vista a organizarmos uma exposição colectiva. Então, como forma de concretizar o meu desejo, sugeri o nome de Masque, ou mesmo Máscaras”. Conheça a seguir a história que marca o percurso de Falcão.

@Verdade: Como é que a sua relação com a arte começa?

Falcão: Prefiro falar da escultura que é a minha técnica predilecta. Para esculpir há sempre um ritual a ser seguido. Quando entrei aqui, no Núcleo de Arte, conheci Titos Mabote. Na altura, ele pintava, esculpia, aliás, fazia tudo o que tinha a ver com arte. Gostei do seu trabalho, de tal sorte que me tornei seu assistente pessoal. Gastava horas e horas a aprender com ele.

Então, num certo dia, ele levou-me à casa do finado mestre Alberto Chissano, no bairro do Fomento. Ele deixou-me no quintal da residência enquanto conversava com a esposa do falecido. Entretanto, enquanto conversava, descobri a palhota do Chissano; entrei, deparei com as obras, e, logo, tive calafrios. Fiquei enfeitiçado por aquelas estátuas de cabeças redondas e magras. E, em virtude desta inexplicável paixão, quando Titos saiu da casa, onde se encontrava a conversar com a viúva do escultor, pedi para que me mostrasse todas as obras de Alberto.

A partir daí passei a gostar da escultura. @Verdade: Há quanto tempo Falcão crava a madeira? Falcão: Trabalho a arte há aproximadamente 20 anos, dos quais 10 escupindo a madeira. Comecei as actividades artístico- -culturais pintando, mas quando descobri a escultura identifiquei- -me mais com ela em detrimento do pincel e da tinta. A verdade é que não deixei de pintar. Pratico sempre que posso.

@Verdade: Que lições dá à sociedade com as esculturas de Máscaras?

Falcão: Na verdade, este é o meu primeiro trabalho que integra somente obras de escultura. Aqui exponho exactamente o que já tinha projectado. Ilustro, através da madeira, as máscaras usadas nas diferentes danças tradicionais do nosso país, como é o caso do nyau e do mapiko. Então apelo à valorização destas duas manifestações culturais (não só elas) e dos seus respectivos dançarinos.

@Verdade: São quatro artistas que exploram, cada um à sua maneira, as máscaras. Conte-nos como é que foi o processo da escolha das técnicas.

Falcão: Primeiro, enfrentei dificuldades relacionadas com a elaboração de ideias que estejam de acordo com o tema escolhido – Máscaras. Foi complicado ter que usar a madeira para representar uma dança, por exemplo. No entanto, como é sabido por, quase, todos a escultura tem várias etapas, que se resumem à fase da cravação da madeira, do desenho, do alisamento da obra e à parte final dos detalhes.

E eu não sabia como representar a máscara do mapiko. Outra dificuldade tem a ver com a forma como queria ilustrar esses disfarces. Por exemplo, no mapiko não queria mostrar a respectiva caraça tal como é, mas sim como eu a via. O mesmo aconteceu com a obra do nyau. Normalmente as pessoas usam rostos brancos para dançar este baile, mas, diferentemente deles, usei o pau-preto que simboliza o inverso da referida cor.

@Verdade: Que traços didáticos leva a sua temática?

Falcão: Sinceramente, o que me preocupa nesta vida é o sofrimento da sociedade. São assuntos relacionados com o país, com o continente e com o mundo. Eu acho que há muita merda a acontecer por aí. Então, a minha missão é reverter a situação e mudar o cenário triste que se vive. Portanto, a sociedade inspira-me. Por exemplo, o trabalho que estou neste momento a fazer relaciona-se com o grave problema de transporte. O Governo devia demitir todos os que tutelam as pastas de transporte no país, pois é inconcebível que um problema básico esteja a desgastar a população.

@Verdade: Na sua opinião, o que falta para que haja uma maior ligação entre os artistas, no geral, pintores e escultores, em particular, e o público?

Falcão: Não quero falar mal do Governo, mas também não vou continuar calado como se nada estivesse a acontecer. Mas o sistema do nosso país é de merda e não vale nada. Por essa razão, é difícil que haja contacto público-artista, sobretudo para a valorização das artes, se os ditos defensores nada fazem. O artista é um gajo frustrado e, hoje em dia, só produz para o sustento da sua família.

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