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Ancha: Uma vida abreviada

Ancha: Uma vida abreviada

Ancha, uma menina de seis anos de idade, foi violada sexualmente até à morte, na noite de domingo (28 de Agosto), por um indivíduo desconhecido e ainda a monte. A menor apresentava ferimentos nos órgãos genitais e no crânio.

O dia 28 de Agosto último, na casa dos Mungoi, no bairro da Machava Km 15, no município da Matola, o ambiente era de festa: dezenas de pessoas animadas, crianças a correrem de um lado para outro e música em som alto. Celebrava-se a união matrimonial de um dos membros da família.

Naquela noite de domingo, a pequena Ancha Fabião Mungoi brincava com outras da sua idade no quintal da sua casa. A menina, de pais separados, vivia com o seu progenitor, Fabião Mungoi, e a sua madrasta.

Entusiasmados por um dos momentos mais importantes da vida, ninguém se preocupava com o movimento desusado registado naquele dia, até porque (quase) todos os convidados eram pessoas conhecidas.

Instantes depois, na lógica da sabedoria ancestral segundo a qual “alegria de pobre dura pouco”, o que deveria ser um dia de festa transformou-se num pesadelo. A menina de seis anos de idade desaparecera. “Onde está a Ancha?”, esta era a pergunta que mais se ouvia. A preocupação da família crescia à mesma velocidade da passagem do tempo.

Quando o relógio marcava 20h00, o desespero abalou a família. O pai da menina, os convidados da festa e os vizinhos começaram a encetar marchas e contactos para localizá-la. Todos os esforços fracassaram e os ânimos do casamento fi caram todos resfriados.

“Onde está a Ancha?”, uma pergunta que ninguém era capaz de responder. A única coisa que se sabia, segundo as amigas da miúda, é: por volta das 18h00, um jovem aparentemente vendedor ambulante de CD’s e DVD’s aproximou-se de um grupo de crianças e pediu para que lhe indicassem a casa de uma senhora de nome Isabel.

Na sua gentileza de menina, Ancha prontificou-se, longe de imaginar quão trágico seria o seu fim. Mas não foi sozinha. Outros petizes seguiram-na. Depois de percorridos 100 metros, o raptor mandou voltar as outras menores, e estas, sem questionarem e tão-pouco desconfiarem das intenções do jovem, obedeceram.

Durante aquela noite de domingo, os mais optimistas chegavam a avançar que a rapariga teria saído a bordo de uma das viaturas pertencentes a um dos familiares, que se encontravam na rua. Apesar dessa hipótese, a aflição continuava em lume brando.

A cada minuto intensificava-se a apreensão. A polícia e as autoridades do bairro receberam a sinistra notícia. Os dias seguintes da família Mungoi não foram os mesmos de outrora. Durante a noite, ninguém conseguia conciliar o sono.

Na segunda-feira (29), as incursões e contactos continuavam a ser efectuados, mas sem grandes novidades. Sem esperança, o pai de Ancha, Fabião Mungoi, decidiu comunicar à mãe da criança o seu desaparecimento. De nome Teresa, a mãe da pequena perdeu o chão e caiu em pranto. Nada a consolava. “Quero a minha filha”, berrava.

Naquela segunda-feira, Fabião não foi ao trabalho. Até porque não havia condições para tal. O dia terminou sem um vestígio sobre o paradeiro da menina. No dia seguinte, terça-feira, foi descoberto o corpo da criança sem vida (com ferimentos nos órgãos genitais e no crânio) numa das casas em construção na vizinhança, no quarteirão 4, a sensivelmente 200 metros da casa da família Mungoi. Ninguém conseguiu conter as lágrimas. E outros não acreditavam no que viam. Mas não havia dúvida: era a pequena Ancha, agora sem vida.

Pedreiro descobre o corpo

O corpo já sem vida foi descoberto pelo jovem pedreiro Gervásio Chissaque. O facto deu-se quando se preparava para mais uma jornada laboral na obra onde supostamente a menor foi violada até a morte. “Eu cheguei na obra por volta das 8h00, quando entrei vi na zona frontal umas pegadas. Contudo, prossegui.

Entrei pelos compartimentos da obra e, num dos quartos, vi estatelado um corpo de uma criança que não trazia roupa, apenas um bloco de tamanho 12 (material de construção) estava por cima, tapando a zona genital”, conta.

Quando o jovem pedreiro retirou o objecto, percebeu que a rapariga foi vítima de abuso sexual e agressões físicas. “Depois de ter visto o corpo, alertei a vizinhança que imediatamente veio ver a situação. Todos estavam preocupados, mas foram poucas as pessoas que tiveram a coragem de ver o corpo da menor sem vida”, diz.

Uma polícia incapaz

Mal foi descoberto o corpo, as autoridades policiais e do bairro foram informados da situação. A polícia da esquadra local contactou os agentes da Polícia de Investigação Criminal no Comando Provincial da PRM. E verificou-se o esperado: a brigada policial não podia deslocar-se ao local do assassinato para fazer as diligências por falta de viatura para o efeito.

“Tivemos de levar o nosso carro particular para ir buscar a brigada da PIC. Chegados lá, não os encontrámos porque se tinham deslocado à esquadra da Machava à procura de uma viatura. Saímos do Comando Provincial e fomos atrás deles”, contam os familiares da vítima.

O corpo foi descoberto às 8h00, mas só foi levado à morgue por volta das 15h00. A demora deveu-se sobretudo à morosidade da brigada da PIC.

Autoridades locais preocupadas com a criminalidade

O chefe das 10 casas do quarteirão 4, onde está localizada a obra que foi palco de estupro, Rogério Alberto Uamba disse que ficou bastante surpreendido quando um dos vizinhos lhe contactou telefonicamente a comunicar o sucedido.

“Este é o primeiro caso do género a acontecer neste bairro. Os crimes que se registam com frequência nesta zona estão relacionados com assaltos e invasões a residências, assaltos na via pública, na calada da noite, sobretudo a partir das 22 horas”, afirmou.

Uamba disse que há poucos meses havia um grupo denominado sete catanas que aterrorizava os moradores. “Éramos obrigados a recolher muito cedo e andar à noite representava um grande perigo neste bairro. Para contornar a situação, pedimos apoio às autoridades policiais para fazerem patrulhas.

Felizmente, o nosso pedido foi aceite, mas para nossa infelicidade os agentes que garantem ou que pelo menos deviam garantir a ordem e tranquilidade pública, desapareceram sem deixar rasto”, disse.

Dormir de olhos abertos

Aurélio Langa, morador no quarteirão 4, disse que nos últimos dias tem vindo a reduzir o índice de criminalidade no bairro Machava Km 15.

“Há dois meses, era um grande risco circular à calada da noite, pois esse período era preferido pelos malfeitores para protagonizarem os seus actos criminais. Nós não conseguíamos apanhar sono, à noite ouvíamos sempre gritos de pessoas interpeladas pelos larápios que levavam tudo e mais alguma coisa, aliás, se a vítima tentasse resistir era motivo para espancamentos”, conta e acrescenta:

“há um mês, indivíduos desconhecidos irromperam por uma casa à noite e violaram sexualmente a uma senhora e as suas duas filhas. Este acto leva a crer que a violação sexual tem sido o modus operandi dos malfeitores, que é praticada sem dó nem piedade”.

Para Fernando Cuambe, do quarteirão 3, a situação criminal é um dos grandes problemas que os moradores do Km 15 enfrentam.

“Quando vimos que a criminalidade estava a tomar de assalto o nosso bairro, pedimos apoio às autoridades policiais, de facto eles vieram patrulhar nas noites, mas como foi para ‘enganar o inglês’, depois sumiram, os motivos ainda são desconhecidos, mas uma coisa é verdade, a criminalidade está à solta no bairro”, desabafa.

Os moradores contam que há poucos meses havia um grupo de malfeitores que, empunhando catanas, ameaçava a população e impunha uma espécie de recolher obrigatório, onde a partir das 22h00 ninguém podia circular sob o risco de ser interceptado pelos malfeitores.

Naquele quarteirão, há duas semanas, larápios introduziram-se em plena noite numa casa vizinha e apoderaram-se de diversos bens materiais. A falta de iluminação pública nas ruas tem sido um dos factores que abre espaço de manobras para os criminosos que se socorrem da escuridão para lograr os seus intentos maliciosos.

“A minha casa ficou um mau vestígio”

Milagre Agostinho é o dono da obra onde a menor foi violada sexualmente até à morte. A casa em construção já tem um mau vestígio, o que pode sobremaneira não deixar sossegada a família que a qualquer altura estará a viver na mesma.

“É de facto um pesadelo. Na verdade, a minha casa ficou com um mau vestígio, a vida perdida num dos apartamentos da obra poderá provocar traumas não só à minha família, como aos familiares da malograda e até a tantos outros”, diz para depois acrescentar que o que mais o espanta é a coragem que o tal indivíduo teve para violar sexualmente uma criança de seis anos de idade até à morte.

“Uma pessoa consciente não pode fazer isso, sinto muito. Não tenho muitas palavras a dizer, a verdade é que o mundo em que vivemos hoje é injusto e está virado de pernas para o ar”, lamenta.

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