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Ali Faque: A figura de superação

Ali Faque: A figura de superação

Em alguns países africanos os albinos vivem dias meramente difíceis. O terror que caracteriza o dia-a-dia desta gente é, supostamente, devido à influência da prática de magia negra com recurso aos órgãos de pessoas com falta de pigmentação. Para além de perseguições, mutilações e mortes a que são sujeitos, os albinos são igualmente rejeitados pelos seus pais. Ali Faque, um músico de mão-cheia, conhecido pela sua famosa obra intitulada “Kinachukuru”, passou pelos mesmos problemas, em virtude de ele e a sua mãe terem sido rejeitados pelo seu progenitor, pura e simplesmente por ter falta de pigmento na pele.

Acreditar em milagres da força divina – Deus – pode parecer um contra-senso a alguns ateus. “Graças a Deus tenho uma mãe que desde o primeiro dia da minha vida, embora albino, entendeu a minha situação”, disse Ali Faque, ao @Verdade, e admite a existência do Todo-Poderoso.

O nosso entrevistado disse que escapou à morte por ser albino e na altura em que foi rejeitado pelo pai sugeriu à sua mãe que lhe tirasse a vida, tendo a senhora manifestado a sua total oposição em relação ao pedido do seu filho. Ela preferiu perder o lar para proteger o menino. Devido a essa falta de harmonia familiar, para além da separação do casal, o músico cresceu longe do seu progenitor.

Apesar de ele e a sua mãe terem ficado longe do pai, as dificuldades relacionadas também com o estigma ainda acompanhavam a vida do músico. Este, quando frequentava a 4ª classe, ingressou na Escola de Música da Casa da Cultura, em Nampula, onde aprendeu a tocar guitarra e outros instrumentos.

“O que aprendi na escola de música foi fruto do meu esforço e, talvez, da esperança de um dia ser alguém. Acredito que seja mais uma obra de Deus”, afirmou o artista.

Devido aos obstáculos pelos quais tem passado, Ali Faque considera que a sua vida tem sido marcado por momentos difíceis mas nunca desesperou. “Quando eu ainda estudava música, fazia de tudo para ser o mais inteligente e esforçado da turma. Queria aprender mais e saber o verdadeiro sentido dos ritmos”.

O nosso interlocutor contou que depois de longos anos de aprendizagem na Escola de Música da Casa da Cultura em Nampula, ficou magoado em resultado de o estabelecimento de ensino ter encerrado as portas devido à falta de alunos. Nessa altura, numa província onde já não se ensinava música, Ali tinha o espinhoso desafio de ser autodidacta e quebrar as barreiras que se acentuavam na área em que pretendia prosperar.

“Depois de me aperceber de que a música me completava, fiz de tudo para continuar com o ofício. Na vida passei por quase todas as dificuldades… já fui vendedor de peixe seco, em Nampula”, contou o músico acrescentado que foi no comércio onde começou a batalhar pela sobrevivência até que um dia decidiu ser artista.

Nesse contexto, em 1988, Ali juntou-se a um agrupamento de música pertencente à Escola Militar em Nampula. Volvidos alguns anos, passou a fazer parte de um grupo formado por Rock Jamal, que se chamava “Por Amplitude”. A partir dessa altura, a sua carreira profissional começou a ser notável, aplaudida e, consequentemente, acompanhada por todos aqueles que se identificavam com a sua obra.

Em 1995, o músico viajou, pela primeira vez, para a cidade de Maputo, com o objectivo de aprimorar a sua forma de trabalhar a música e de ser e estar na sociedade. Na capital do país, o nosso entrevistado trabalhou com alguns conceituados músicos, tais como Zena Bacar, Stewart Sukuma e Mr. Arsen.

Em virtude dessa troca de experiência, em 1991, Ali publica a música “Kinachukuru”, um hino de louvor e gratidão ao Omnipotente. “Com essa melodia agradeço a Deus por me ter dado a mãe que tenho. Depois de ter sido abandonada pelo meu pai, ela deu-me carinho e, além do mais, preferiu perder o lar por minha causa”, reconheceu o artista.

“Kinachukuru” é uma obra de sucesso que se estende ao longo dos tempos. A mensagem contida na música, para além de ter uma biografia triste do intérprete a que nos referimos, leva-nos à luta contra a discriminação racial, em particular dos albinos.

“Quando ainda compunha a música “Kinachukuru”, coincidentemente, num dos dias a minha mãe veio visitar-me. Quando a toquei ela escutou com atenção e começou a deixar cair lágrimas”, recorda Ali.

As dificuldades em Maputo

O músico a que nos referimos é natural de Nampula, mas reside em Maputo desde a década de 1995. A saída da sua terra natal deve-se, segundo ele, à procura de melhores condições de vida.

“A base de todas as actividades artístico-culturais está na capital do país. Pensei que se eu continuasse na minha província ficaria distante dos empresários, jornalistas e de outros meios que nos fazem ter sucesso”.

Na verdade, para o nosso interlocutor, Maputo era um eldorado e a sua carreira podia prosperar sem dificuldades, o que não passou de utopia. Na capital do país, ele foi recebido com bastante carinho e admirado por muita gente, mas em pouco tempo veio o “esquecimento”. A partir de uma certa altura, a vida de Ali mergulhou novamente num mar de obstáculos.

“Por várias vezes fui burlado pelos promotores de eventos. Certos seres humanos avaliam os indivíduos pelo aspecto físico para lhes remunerar quando prestam determinados serviços”, disse o artista.

“Quando cheguei a Maputo, trabalhei com diversas firmas que usam a minha imagem. Depois de vários anos com esses empresários, como, por exemplo, a Gringo, mudei-me para a VIDISCO. Aqui vivi o maior martírio. Eu era uma das pessoas menos pagas na empresa. Com o andar do tempo, soube que alguns dos meus colegas auferiam 200 mil meticais e com algumas subvenções. A mim apenas pagavam cinco mil meticais e sem direito a mais nada”, desabafou o músico que considera que estava a ser discriminado e explorado.

Além das alegadas e constantes burlas que ele sofreu ao longo da sua carreira, em Maputo, Ali sente-se, agora, rejeitado pelo seu próprio país na medida em que através da música promoveu a imagem de Moçambique e do povo mas, hoje, a sua vida é crítica e ninguém lhe valoriza. Por exemplo, o artista contou que realizou campanhas políticas a favor do partido no poder, a Frelimo, mas continua miserável e não tem as recompensas que esperava receber.

De sorrisos à desgraça

Ali é um talento que se deve apreciar, pese embora as dificuldades em que está mergulhado. Para além de ser um artista bastante conhecido dentro e fora do país, é difícil falar da música moçambicana e tentar contornar o seu nome.

Segundo ele, é com essa arte (de cantar) que por longos anos alegrou os seus compatriotas e, hoje, mesmo sem fundos para continuar no ofício, luta para não ser dado como musicalmente falido. Ali percorre as artérias da cidade de Maputo a vender os CD’s produzidos durante a sua carreira.

Encontrámo-lo na Rua Joaquim Lapa, na zona baixa da urbe, com mais de uma dúzia de discos nas mãos. Quisemos saber dele a razão de comercializar pessoalmente a sua obra. A resposta, metafórica, foi: “Nós (os músicos moçambicanos) estamos como se estivéssemos a viver na água, onde não se afoga quem sabe nadar”.

Em Moçambique, o artista só serve para fazer publicidade, mas para espectáculos de grande envergadura sempre chamam os músicos estrangeiros, disse o nosso entrevistado, para quem “somos usados como papel higiénico que só usam para limpar a sua vergonha nas campanhas eleitorais e depois deitam-nos fora”.

Para manifestar ainda a sua indignação, Ali referiu que quando as crianças vivem na rua, às vezes, não é por falta de quem cuide deles, mas sim de paz e apoio, o que garante a estabilidade de uma criança. “E nós os músicos também somos como esses petizes que vivem nas ruas, mas não porque não temos uma casa, mas, sim, porque não temos condições.Aliás, eles (as autoridades) não nos dão condições”.

Contudo, para contornar o alarmante cenário de contrafacção discográfica, o músico pretende, nos próximos dias, criar uma página Web para, a partir dela, divulgar o seu trabalho. Segundo explicou, a referida plataforma não seria a melhor para combater a pirataria, mas “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”.

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