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Albino repelido pela família

Albino repelido pela família

Em alguns países os albinos são “caçados” como bichos, sofrem amputações de braços ou pernas para fins supersticiosos, sobretudo porque se acredita que o sangue deles ou o cabelo ajuda a acumular riqueza. Na pior das hipóteses, eles são mortos supostamente porque a sua presença numa família é presságio de grande azar. A sociedade continua a repelir violentamente as pessoas nessa condição de natureza genética.

Na província de Nampula, o @Verdade encontrou Espírito Costa Amisse, de 18 anos de idade, na rua, onde vive há anos por ter sido rejeitado pelos pais porque é albino. Ele é um jovem igual a tantos outros, porém, devido à ausência completa de pigmento na pele, várias pessoas o olham com desdém e acreditam que não morre, mas sim, desaparece.

Espírito sente-se um homem que não pertence a nenhuma raça e que é desprezado pelos outros indivíduos, desde que a mãe o renegou por causa do albinismo quando tinha apenas um ano de vida. “Estou sozinho e pensava que mais ninguém é como eu por ter sido rejeitado pela minha mãe”. Nessa altura, o nosso interlocutor vivia no distrito de Moma (Nampula), tendo mais tarde passado a residir no distrito de Alto Molocué, na província da Zambézia, até aos 10 anos de idade, com o pai.

Quando atingiu essa idade, o jovem, que frequentava a 3ª classe, disse aos avós que gostaria de conhecer a progenitora e pretendia morar com ela, em Moma. O seu pedido foi aceite. Contudo, chegado ao local, Espírito não pôde continuar a frequentar a escola e a sua vida mudou drasticamente porque os parentes da sua mãe o rejeitaram alegando que não podiam conviver com um albino dentro de casa. Aliás, para a família materna de Espírito quem convive com um indivíduo com falta de pigmentação na pele traz ao mundo um ser humano igual.

“Quando cheguei ao distrito de Moma, a minha mãe foi avisada de que não receberia nenhuma visita de familiares devido à minha presença”, disse o jovem que nos assegurou que durante os cinco meses em que viveu com a mãe não houve visitas, para além de que as crianças eram proibidas de brincar com um albino.

Contrariamente ao que acontece na Tanzânia, onde existem 170 mil albinos, Moçambique ainda não tem um levantamento estatístico sobre a incidência do albinismo na população e o preconceito prevalece. Há relatos de pais que vendem os seus filhos albinos. Entretanto, refere-se que em África a vida tem sido difícil para esse grupo de pessoas, principalmente na Tanzânia, onde as pessoas com falta de pigmentação na pele são em número 15 vezes maior que a média mundial.

Cientificamente, ainda não se sabe por que razão aquele país possui índices tão elevados de albinos. Todavia, acredita-se que a Tanzânia e a África Oriental podem ser o berço da mutação genética responsável pelo albinismo. Refira-se que ainda naquele país já houve uma demanda assustadora por albinos porque se acreditava que a ingestão dos seus órgãos genitais secos elimina a SIDA.

Por isso, esses cidadãos eram mortos e esquartejados supostamente para servirem de remédio. Lucas Mania, líder comunitário no bairro de Muatala, explicou que os albinos são pessoas diferentes de outras raças. Desde que reside em Nampula tem ouvido dizer que as pessoas com problema de pigmentação na pele nunca morrem, mas simplesmente desaparecem.

O líder crê que quando uma mulher dá à luz uma criança albina deve, ao sair da maternidade e antes de chegar à casa, ser submetido a um ritual tradicional para que não volte a ter filhos com a mesma “anomalia”. Antigamente, as mulheres que nasciam albinos eram mortas porque os seus filhos eram considerados obra de espíritos maus.

Os albinos são seres normais

Joselina Calavete, médica generalista no Hospital Central de Nampula (HCN), disse que a falta de pigmentação na pele é um problema genético sem “correcção” em Moçambique, mas não tem nada a ver com as interpretações que a sociedade tem feito.

Segundo a médica, o entendimento que as pessoas têm sobre os albinos traz constrangimentos sérios para aquele grupo social, uma vez que se sente discriminado e excluído. O recomendável é que um albino use sempre roupas que o protejam completamente do sol e aplique produtos com o mesmo efeito na pele o tempo todo, resguardando os olhos da radiação solar.

Refira-se que a agremiação que defende as causas e interesses dos albinos em Moçambique queixa-se do facto de nas províncias este grupo de pessoas continuar a aguardar meses a fio para ser observado por um médico especialista. Entretanto, na cidade de Maputo, o tempo de espera reduziu de dois a três meses para um dia a uma semana.

O desamparo

Quando se apercebeu de que era, cada vez mais, vítima de discriminação, preconceito, desprezo e afastado do convívio familiar, Espírito tentou recorrer ao comércio para sobreviver mas não teve sucesso. De Moma partiu para a cidade de Nampula à procura do irmão do pai mas, quando chegou ao destino, o tio já tinha passado a viver no distrito de Malema. Sem alternativa, o jovem sentiu-se desamparado e passou a viver na rua, enquanto procurava pela irmã que também reside naquela urbe. Ele levou um ano para localizar a casa da irmã no bairro de Muhala.

Outra vez rejeitado

A estadia de Espírito em Muhala durou somente dois dias. O cunhado convidou-o a abandonar o domicílio alegadamente por falta de espaço para acomodação. A opção foi viver na rua novamente.

Em 2007, o Infantário Provincial de Nampula acolheu o jovem e matriculou-o na 2ª classe, mas a sua permanência naquelas instalações durou seis meses. Antes de terminar o ano lectivo, o nosso interlocutor foi levado de volta para a casa da mãe, no distrito de Moma, sem o seu consentimento. A convivência não foi das melhores, tendo Espírito deixado a residência para passar a habitar na rua mais uma vez.

Espírito, deixado à sua sorte pelos parentes, disse que deseja voltar a estudar com vista a superar as dificuldades que enfrenta, algumas por causa do desleixo da sua família. Entretanto, ele está ciente de que na rua terá de batalhar bastante para conseguir concretizar os seus sonhos. O nosso entrevistado sobrevive da lavagem de carros na via pública, uma actividade que lhe rende entre 20 e 100 meticais por dia.

Detido por duas vezes

O jovem a que nos referimos já esteve preso por duas vezes na cidade Nampula. Na primeira ocasião foi indiciado de roubo de um telemóvel numa das viaturas que estavam sob sua vigilância, e na segunda Espírito foi igualmente acusado de roubo de telemóvel e dinheiro num lugar por ele escolhido para passar a noite.

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