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Albergue “invadido” por endinheirados

Albergue “invadido” por endinheirados

O poeta Guita Jr. enviou-me recentemente uma mensagem de sabedoria e não citou o seu autor, o que me leva a associar aquela iluminação ao próprio poeta, quando libertei o meu escravo, fui com ele. Mas eu quero usar esta expressão sublime, de uma outra forma, quando morreram os anciãos acolhidos num albergue instalado nos arredores da cidade de Inhambane, o albergue morreu com eles. Já não existe. Ficaram as casas como prova disso, outras foram destruídas e, no seu lugar, construídas habitações modernas.

Este texto não pretende, de forma nenhuma, condenar seja o que for, ou julgar o que aconteceu com o albergue. A intenção é apenas contar uma história. Este lugar, composto por quarenta e duas casas, está instalado no bairro de Gihengeni, arredores da cidade de Inhambane. Foi sempre conhecido como “Casas Redondas”, pela configuração circular das habitações. E a sua vocação era albergar anciãos com dificuldades de subsistência e estava sob a alçada da Diocese de Inhambane.

Aos homens e mulheres da terceira idade ali acolhidos era-lhes proporcionado, para além de alojamento, uma alimentação diária condigna, em consideração aos direitos humanos dos cidadãos. Mas como o tempo não perdoa, quando chegou a independência, os “velhotes” foram desaparecendo um a um, ou demandando outros destinos à busca de sobrevivência, ou morrendo de morte natural devido à idade.

Partiram os homens e ficaram as casas. Foram-se os cidadãos para os quais tinham sido erguidas aquelas casas feitas de blocos de cimento e cobertas de colmo e ficou a história. Que teima em não morrer. Ainda se chama o local de “Casas Redondas”. E poucos o vão anunciar como “Albergue”, por desconhecimento.

A nossa Reportagem esteve no local há cerca de duas semanas. Procurou infrutiferamente por algum sobrevivente desse tempo para contar a história de viva voz. No seu traço original nenhuma das habitações tinha muro de vedação.

Era uma aldeia comunal especial, feita debaixo da “Mão de Deus”. Os habitantes desse tempo conviviam de forma salutar. Passavam as refeições no mesmo refeitório. As portas e as janelas não tinham grades. Porque também, lá dentro, não havia nada para roubar. Todos os que ali viviam conheciam-se pelos nomes. Não precisavam de se visitar porque se encontravam todos os dias, três vezes ao dia, no mesmo refeitório para o restauro.

Hoje é diferente. As casas, com o desaparecimento dos seus utentes originais, foram nacionalizadas pela Administração do Parque Imobiliário do Estado (APIE) e posteriormente vendidas aos novos inquilinos. Estes remodelaram tudo. Reinventaram o bairro. A primeira coisa que nos salta à vista são as cercas. Todas as casas, ou quase todas, estão cercadas por um quintal, maioritariamente construído com base em folhas de palmeira.

A privacidade é total. Os viventes do actual albergue estão distantes uns dos outros. Cada um tem os seus planos. Cada um pensa em si. Apenas em si. A privacidade, hoje por hoje, é o lema em quase todo o lado. Os que vivem no “Albergue”, neste momento, todos eles, têm renda. Há funcionários públicos a habitarem as casas. Outros são homens de negócio.

E não têm nada a ver com outros tempos. Mas é assim mesmo, conforme nos disse Zainabo Abubacar, secretária-adjunta de quarteirão. “Os tempos que vivemos são outros. Cada um, quando acorda, pensa em como ir buscar pão para a família. E, sendo assim, dificilmente sobre tempo para conversa”.

É normal os vizinhos não se conhecerem pelos nomes, mesmo aqui neste lugar muito pequeno. Para Zanaibo, isso não espanta a ninguém. “Estamos num tempo de egoísmo, onde quem conta somos nós. Mas não acontece só aqui. Em todo o lado perdemos a confraternização saudável que havia naqueles tempos em que nos tratávamos como irmãos.

Esta obra de arte, outrora, era o refeitório onde os anciãos passavam as suas refeições. Aqui funcionava uma espécie de alambique de amizades. É aqui onde se destilavam as confidências. Os desabafos. Os anseios de pessoas que, mesmo estando nos arredores do fim, acreditavam na invenção de um novo fim. Alguns desses homens e mulheres da terceira idade ensaiaram aqui namoriscos como se fossem pombos borrachos.

Aqui desenhavam-se sorrisos nas bocas desdentadas, que não podiam mastigar a carne quando nesse dia a refeição fosse com base naquele grande fornecedor de proteínas para o corpo humano. É aqui onde acontecia tudo isso. Mas os tempos são outros. O mundo está a reinventar-se. Como foi reinventada esta obra de arte. Dentro de poucos dias, conforme nos disseram, vai ser inaugurado um restaurante. Não para dar de comer e beber aos “velhos”, mas para novos comensais. É a vida!

No berço do “Albergue” estende-se uma grande cintura verde. Homens e mulheres trabalham a terra até à exaustão desde os primórdios. Vão-se rendendo de geração em geração. E a terra é a mesma. Os anciãos nunca a amanharam. Não era essa a sua vocação.

Quem a usava eram habitantes vindos de outros lugares, que iam para ali plantar a alface, a couve, o tomate e outras culturas. Para alimentar as bocas que sempre querem mais. A cintura verde mantém o seu ritmo antigo, dando esperança aos que acreditam. Aos que têm fé. De que amanhã o dia será melhor.

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