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Abandonado pelo Estado

Abandonado pelo Estado

Atingido por uma bala – no dia 1 de Setembro de 2010 – ao regressar da escola, Quito viu os seus sonhos ruírem que nem um baralho de cartas. Primeiro ficou com uma “cratera” na perna e depois, por conta de uma “falha de procedimento” médico, amputaram-lhe duas vezes a perna direita. Actualmente, ele e a família batalham na vã esperança de que o Estado intervenha para reparar os danos.

O drama desenrola-se nas entranhas do bairro Maxaquene, próximo à Praça dos Heróis Moçambicanos em Maputo, onde Joaquim Manganhela (Quito), de 18 anos de idade, tenta readaptar-se a uma nova realidade para sobreviver ao calvário no qual a sua vida se tornou. Encontrámo-lo numa casa pequena de blocos e chapas de zinco.

Uma residência em nada diferente das outras casas daquele bairro. Quito é último filho de uma mãe que também faz o papel de pai dele e de mais quatro irmãos.

Uma bala que mudou a vida de todos

Antes da tragédia de 1 de Setembro, a progenitora ia frequentemente à vizinha África do Sul com o fi to de comprar produtos, os quais revendia em Moçambique. Uma actividade que tinha os seus contratempos, mas que garantia o sustento do agregado familiar e dava para guardar algum dinheiro para pequenas eventualidades. O negócio, diga-se, corria de feição, até se dar a tragédia.

Assim, Maria do Carmo trocou o país vizinho, símbolo máximo da prosperidade familiar, pelo papel de enfermeira do filho que o Estado abandonou. O novo negócio Impossibilitada de se deslocar à África do Sul, Maria do Carmo teve de se desenvencilhar no bairro do Maxaquene para aumentar o minúsculo orçamento familiar. Passou a vender pão num local mais próximo de casa para não abandonar o fiho.

“Este país inferniza a vida dos seus cidadãos”, diz do Carmo visivelmente amargurada. “Foi uma desgraça tremenda. O miúdo já fazia os seus próprios biscates, mas logo virou um dependente total”, afi rma o jovem que localizou a família no Domingo passado.

Não fossem as marcas profundas, o primeiro dia de Setembro de 2010 seria uma data para esquecer. Com a notícia do incidente, o mundo dos Manganhelas quase desabou. Do Carmo, qual mãe sem útero, andou desnorteado pelos hospitais de Mavalane e Xipamanine e só ficou a saber do filho às 12 horas na Ortopedia 2 do HCM, onde foi atendida às 16h30.

“Andei assustada. Havia muitos cadáveres nos hospitais”, lembra. No entanto, saber que Quito não tinha morrido, diz, foi o mesmo que sentir que lhe devolviam o útero.

O que diz Quito

De acordo com as palavras de Quito, no carro onde se faziam transportar, vários feridos foram torturados pela polícia. Alguns agentes pisavam as suas feridas, alegando que se tratava de marginais.

Os dois meses no HCM

Logo que a mãe avistou o médico no HCM, tratou de ouvir o diagnóstico sobre o fi lho. O especialista garantiu que o problema não era complicado. Mas, uma semana depois, outra sentença veio a terreiro: a perna de Quito devia ser amputada. O sangue já não circulava de cima para baixo.

“Implorei, mas o doutor mostrou-se irredutível, sublinhando que outra solução seria impossível”, conta. Do Carmo acredita que se tivesse meios, o filho receberia outro tratamento. Como o doutor no princípio, várias outras pessoas que acompanharam a situação observaram que o caso não era tão grave ao ponto de se cortar o membro inferior.

Afinal, Quito foi baleado num lugar entre o pé e o joelho, o tiro não atingiu a veia principal, para além de que o projéctil não ficou alojado no seu corpo.

Durante dois meses e três dias consecutivos no HCM, Maria do Carmo levava uma vida resumida entre a casa e o hospital. Numa sexta-feira, o fi lho começou a ter convulsões. Procurou o terapeuta e só o encontrou na segunda-feira.

“O médico disse que a perna seria amputada na quinta-feira e eu discordei, pois o garoto estava com convulsões há três dias. O especialista disse que não sabia e decidiram eliminar a perna na mesma segunda-feira, corria o dia 15 de Setembro”, conta.

Nos primeiros dias depois da operação, o rapaz aparentava estar bem. Recebeu sete unidades de sangue. A perna foi amputada na zona do joelho, exactamente na parte da articulação. Mas depois detectou-se uma falha. Em Outubro resolveram cortar de novo. Desta vez um pouco acima do joelho.

“Foi a parte mais dolorosa. O miúdo não dormia, passava o tempo a chorar e mal conseguia comer”, conta a mãe indignada por ver os sonhos do filho ruírem, de forma prematura, tal como aconteceu com a própria perna. No dia 3 de Novembro recebeu alta.

Antes, a mãe falou com o médico para saber se o hospital ofereceria muletas. A resposta veio pronta: “Não”, conta. A mulher pagou uma taxa de 700 meticais referente à cama que o filho ocupava quando estava internado. O tratamento foi gratuito.

Em casa: o calvário continua Os poucos haveres que do Carmo juntou durante os tempos em que frequentou a vizinha África do Sul não passam de uma ventoinha, um congelador e um televisor guardados num espaço apertado onde vivem oito pessoas, a maior parte das quais a dormir na sala. Antes do incidente, Quito repousava numa esteira, mas hoje porque não é capaz, partilha a mesma cama com a mãe.

Além do que aconteceu, do Carmo viu o drama piorar quando alguns dias depois perdeu o fi lho mais velho, vítima de doença. “Foi uma sucessão de acontecimentos que quase acabaram comigo”, conta.

Com a morte do primogénito veiolhe a responsabilidade de zelar pelos três netos. Assim, com um filho doente e os netos por cuidar, do Carmo divide o dia entre a casa e um local onde vende pão, a cinquenta metros da casa. “De hora em hora tenho de voltar para saber como o miúdo está”.

Quanto valem 50 meticais

Depois da alta, o hospital deu uma guia de marcha para que Quito passasse a receber tratamentos num centro mais próximo. Mas o jovem não consegue fazer longas distâncias. As muletas que usa são curtas, além do facto de estar num processo de recuperação. A mãe decidiu arranjar um enfermeiro para tratar do filho em casa. O homem cobrava cinquenta meticais por dia, mas o orçamento familiar é insufi ciente para cobrir o tratamento.

A mulher passou a cuidar pessoalmente do filho. Dá banho, lava a ferida e faz o curativo, um processo que está a tornarse penoso.

“No princípio fazia o penso diariamente, agora optei por fazê-lo um dia sim e outro não para poupar os remédios. As pessoas que me forneciam as ligaduras e adesivos desistiram e os preços praticados nas farmácias são caros demais para as minhas capacidades”, conta para depois acrescentar que ultimamente lava a ferida com água morna, mesmo sabendo do quanto o lho sofre. “Sempre que o faço ele queixa-se de dores, mas não há alternativas. O produto para lavar feridas que tínhamos acabou”.

Quando saíram do HCM, o médico disse que vão ser necessários oito meses para a ferida sarar. Depois desse tempo, Quito vai receber uma prótese, mas a mãe duvida que tal aconteça.

Da escola onde frequentava a nona classe, a mãe recebeu o conselho de que tinha de anular a matrícula, mas antes devia inscrevê-lo por 350 meticais. “Soube da situação por que o seu filho passou, mas só poderá anular a matrícula se pagar o valor”, disse o director.

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