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A ntyiso wa wansatititi – O Toiro pelos Cornos

Se afinal de contas ainda me casar contigo, não vou largar esta vida de marialva, copos e toiros, garraiadas e bailaricos, o pó das estradas de terra batida a levantar-se em nuvens de delírio ao som do chiar dos pneus em acrobacias fáceis de meninos mimados, peões sem fim alavancados a travão de mão com o pé no acelerador como o meu pai me ensinou há vinte anos, no seu Mini preto e vermelho com o capot branco.

Percebi que ias ser a minha mulher hám uitos verões atrás, no Baile da Chitas em S. Martinho do Porto onde a gente das lezírias se cobre de casacos à noite para passear na Rua dos Cafés. Estavas vestida de amarelo, enrolada em metros generosos de pano listado, toda tu eras um motivo de festa dos pés à cabeça, o turbante iludia a tua idade, parecias ao mesmo tempo uma criança e uma mãe de família a comandar um rancho de cinco galfarros, pelo menos foi isso que eu vi em ti e foi assim que te escolhi para o lugar da legítima, eu que toda a vida andei atrás das saias das raparigas da terra e namorisquei todas as filhas de todos os caseiros da quinta.

 

Tinha 12 anos quando a Idalina me veio visitar ao quarto a meio da noite para me iniciar nos prazeres interditos. Já fizera o mesmo com o Luís Miguel e o Fernando José, o morgadio e seu imediato, como a minha mãe costumava dizer, deixando-me para o lugar da medalha de bronze ou do último da fila, o mais pequeno, o mais franzino e o mais matreiro, o único que se meteu em brios para ser engenheiro agrónomo e se mudou para o andar do Lumiar aos 18 anos, mais interessado nas miúdas das escolas de línguas e nas pândegas do fim de semana do que nos compêndios vetustos que me obrigavam a decorar os nomes finos dos tubérculos e outros seres que germinam debaixo da terra.

Não sei porque te escolhi para mãe dos meus filhos, deve ser porque vinhas de amarelo e quando era pequeno me perdia pelas lezírias e me imaginava pequeno e escuro como um grilo, perdido entre girassóis e espigas de trigo. Já nessa idade tinha esta mania dos toiros, ia para as corridas com o meu pai e os manos, via os amigos deles a pegar o bicho enquanto o meu pai explicava, estás a ver o primeiro e o segundo ajuda? O trabalho mais difícil é o deles, não é de quem pega o toiro pelos cornos, porque esse encaixa-se na cabeça do bicho, os outros é que levam a pancada mais forte.

Foi a única coisa que se me ocorreu quando me vieram dizer que te viram às sete da manhã, na padaria de Alfeizarão a comprar pão quente chouriço como o meu primo António Maria no fim-de-semana de Agosto em que tive de vir a Lisboa tratar da papelada da venda do andar no Lumiar para pagar as contas da quinta. Disseme o Fernando José, que está com uma barriga de sete meses de cerveja e se casou com a Carminho, uma beata de perna curta, cabelo ralo e cu gigante que já lhe deu quatro galfarros, todos com cara de tubérculo fino como ela. Se calhar ele tem razão quando diz que nãoé s para a gente, que as mulheres da cidade não sabem o que honra nem respeito e que se deitam com todos os que as levam a jantar fora.

Mas eu não quero acreditar que logo, tu, com o teu ar de anjo e a tua voz de canário eras capaz de me meter os cornos com o meu primo António Maria, que corta o cabelo em cabeleireiros de senhoras e que a minha mãe diz que é paneleiro desde pequeno. Se ainda me casar contigo, fecho-te em casa, encho-te de trabalhos e de filhos e vais ver se não te achandras, ponho-te um GPS na anilha que é para saber onde é que andas enquanto vou para os bailes de Samora Correia ver as raparigas do campo vestidas à cidade com trapos coloridos e justos comprados no Euromarché, convencidas que são actrizes de novela e que um dia vão ser famosas.

Do que vocês precisam é de um tipo que lhes faça peso em cima e as meta na ordem, mas juro pela minha saúde que se me faltarem forças para te perguntar o que é que andavas a fazer em Alfeizarão às sete da manhã com o paneleiro do meu primo, pego no Luís Miguel e no Fernando José e dou-lhe uma sova que o ponho a ganir. E depois vamos ver que é que o gajo tem para primeiro e segundo ajuda, quando o chão ficar vermelho de sangue e semeado de dentes.

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