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A ntyiso wa wansati – Essa Coisa do Amor

Porque será que os escritores nunca se cansam de escrever sobre o amor? Talvez seja porque os humanos também nunca se cansam de falar sobre amor, de o desejar na sua vida, de o sonhar nos seus dias, como um alimento para a alma, porque a alma existe, tem músculos, nervos, células, vida própria, e por isso precisa de energia para se alimentar.

Mas o amor não é igual para as mulheres e para os homens. O escritor Francisco José Viegas, que, tal como José Eduardo Agualusa, sabe escrever de forma subtil e profunda sobre o amor, comentava há pouco tempo num conversa comigo que essa coisa do amor é nova para nós, os homens, que sempre andámos na guerra e na caça, nunca tivemos tempo para pensar e sentir o amor como as mulheres. Mesmo assim, acredito que o amor está lá, antes e depois da caça e da guerra.

Acredito que vive no sangue de cada homem, mesmo que ele nunca o sinta, ou o verbalize, mesmo que nem o próprio acredite nele. Prefi ro pensar que é assim do que aceitar que o amor é um assunto de mulheres e que, tal como algumas doenças hereditárias, só se transmite de mães para fi lhas. As mulheres têm mais sorte, sempre viveram do amor e para o amor. O seu maior professor chama-se maternidade e o seu maior aliado é essa capacidade instintiva de proteger e cuidar daqueles que amamos sem sequer pensar muito nisso. Sem amor ninguém pode ser feliz, mesmo que tenha realizado todos os seus sonhos materiais e conquistado todos os seus objectivos.

A guerra manda no coração dos homens tal como o amor manda no coração das mulheres. Mas o amor também manda no coração dos homens, pelo menos daqueles que têm coração. Ou alma, como lhe quisermos chamar, porque coração temos todos, ou não estaríamos vivos. Mas essa coisa do amor não é para todos nem em todos os momentos da vida. Há quem passe uma vida inteira sem nunca ter sido verdadeiramente amado e há quem tenha amado tanto na solidão que se tenha esgotado nesse amor e fechado o coração para sempre. Há quem continue a acreditar no amor e quem tenha desistido dele.

E depois há aqueles, como eu, que querem acreditar que a vida é generosa e grata, que nos vai trazendo o que mais precisamos, quase nunca o que queremos, ou que pensamos querer, porque, como dizia Santa Teresa d’Ávila, são derramadas mais lágrimas por súplicas atendidas do que pelas não atendidas. Há sonhos que, quando alcançados, se tornam verdadeiros pesadelos. Essa força misteriosa e esmagadora que nos rouba horas de sono e nos faz atravessar o mundo como quem cruza uma estrada, que nos faz chorar durante meses ou sonhar durante anos, que nos ensina a conjugar os verbos esperar, aceitar, compreender e perdoar, não é afi nal mais do que uma reacção química do nosso organismo acima do instinto animal, mas muito próximo dele.

Quando alimentamos e protegemos aqueles que amamos, quando os deixamos seguir o seu caminho para que descubram qual o seu lugar no mundo, estamos a seguir o instinto. Quando desejamos que nos amem como nós amamos e exigimos a retribuição do que sentimos, estamos a ir atrás do amor. Ou dessa coisa chamada amor que é a soma anárquica e inconsciente de instinto, desejo, paixão, devoção, admiração e medo da perda, músculos, nervos, células, uma vida própria, uma matéria indefi nível, misteriosa e irresistível, à qual gostamos de chamar amor.

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