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A luta de Langa

A luta de Langa

Existem pessoas que, apesar das difi culdades, levam tudo para a frente e não desanimam. Uma experiência triste obrigou Teles Langa a mudar de vida. De estofador com boas perspectivas na vizinha África do Sul, Langa, de 68 anos de idade, largou tudo e voltou para a sua terra para cuidar da esposa que começou por ter problemas mentais, tendo contraído a cegueira.

Já passa das 11 da manhã e o intenso movimento de viaturas na avenida de Moçambique, está cada vez mais reduzido. Como é habitual quando chove em Maputo, devido à falta de um sistema eficaz de escoamento das águas pluviais, na segunda- feira 28, a chuva ensopara os bairros, inundando as estradas e transformando valas e riachos em torrentes caudalosas.

No interior do bairro Benfica, a trinta minutos do centro a cidade, Teles Langa partilha uma barraca de chapas de zinco de dois quartos e uma sala com a esposa, que sofre de perturbações mentais e é cega, um fi lho adulto doentio e duas netas. No pequeno quintal, existe uma casa de tijolo queimado, que o minúsculo orçamento familiar não deixou concluir. “Se ainda estivesse a trabalhar na África do Sul já teria terminado esta obra, mas tudo parou quando regressei”, conta Langa com a tristeza vincada no rosto enrugado.

A humidade e o cheiro fétido no interior da barraca denunciam sinais de uma noite mal passada. Sentado num banquinho de madeira, a falar num tom de voz baixo, Langa desfi a o seu rosário: “De ontem para hoje dormimos em pé. É sempre assim quando chove. As chapas que cobrem a nossa casa deixam entrar muita água. Estão velhas e precisam de ser substituídas, mas não há dinheiro”.

Sucede que, em 2007, dois filhos adultos do casal morreram. Ambos, com maior gravidade para a mulher, não conseguiram superar a perda. “Foi assim que ela começou a sentir dores e nos hospitais disseram que tinha hipertensão arterial. No princípio, para se acalmar ia à machamba capinar, mas, com o tempo, o problema foi aumentando”, explica para depois acrescentar que o auge da doença deu-se em Maio do ano passado, quando a mulher teve um acesso de crises mentais que, posteriormente, evoluíram para a cegueira.

Langa viu-se na contingência de largar o emprego na África do Sul e voltar às raízes para cuidar da companheira com quem vive há mais de trinta anos. Desde o ano passado, a vida da família prossegue graças aos pequenos biscates, que aparecem a conta-gotas. Langa é um estofador profi ssional desde o tempo colonial, quando trabalhou em duas empresas que operavam nesse ramo. “Conheço perfeitamente esse trabalho. Já ando nisso há mais de trinta anos e o meu sonho é ter a minha própria ofi cina”, diz. Todavia, se antes (no tempo colonial) e depois (na África do Sul), a actividade dava o suficiente para alimentar a família e proporcionar uma boa educação aos fi lhos, o mesmo não se pode dizer agora, em que, por exemplo, substituir uma napa ou um pano num jogo de sofás composto por três cadeiras, custa entre dois e três mil meticais, de acordo com a qualidade da mobília.

Os preços variam também segundo os moldes em que o estofador trabalha. Se o material pertencer a Langa, obviamente que cobra um valor mais elevado pelo trabalho, mas quando a matéria-prima é do cliente, este só paga a quantia referente à mão-de-obra e é, geralmente, assim que Langa trabalha, num processo que acontece uma ou duas vezes por mês.

O dilema de trabalhar e cuidar da mulher

Entre trabalhar e cuidar da mulher, com certeza que Langa prefere a última opção. Segundo notámos, deixar a companheira sozinha, em casa, é algo que lhe “tira o chão”. “Não tenho como, mas não há alternativas. Há que garantir o sustento familiar. Se tivesse alguém para ficar com ela, as coisas melhorariam. Apesar das dificuldades da idade, sinto-me com forças para trabalhar, porém fico fraco quando me lembro de que tenho uma mulher nessas condições a precisar de mim o tempo inteiro”.

Teles Langa é natural de Inhambane, e tem 68 anos. Já bem adulto, mas com vigor, ainda Langa serviu as Forças Armadas de Defesa de Moçambique e, nesse período, contraiu uma lesão que o deixou coxo. Embora com defeito numa das pernas, Langa não se verga diante das dificuldade. O filho, de 35 anos idade, também trabalha e ajuda no parco orçamento familiar. Logo nas primeiras horas da manhã, Langa acorda, põe água para a mulher tomar banho, prepara o mata-bicho, dá de comer à esposa e sai para mais uma jornada laboral, um exercício que se repete todos os dias. A partir do meio-dia, o mais tardar às duas da tarde, Langa regressa a casa.

No passado

Isabel era uma mulher trabalhadora. Para os vizinhos, com a doença, não só se perdeu uma boa pessoa, mas também uma óptima companheira, mãe incansável e uma mulher de armas. Constância Jorge, conterrânea e vizinha, diz que conheceu Isabel há mais de 20 anos. “Sempre foi uma mulher calma e sem problemas”, conta.

Quando o marido estava na África do Sul, Isabel mudou-se do local onde actualmente vive e foi para Boquisso, nas bandas da Matola, onde viveu até o dia em que começou a sentir-se mal. Em Boquisso, tinha uma machamba onde cultivava a terra.

Do que é que ela sofre?

Face à complexidade do problema que começou por ser uma hipertensão arterial, segundo o diagnóstico médico, depois uma doença mental que culminou na cegueira, o povo acredita que se está diante de uma obra da superstição. Isabel não é agressiva, conversa com as pessoas e está sempre a movimentar a boca como se estivesse a mastigar algo. Não é obesa, não fuma, nunca bebeu e não sofre de diabetes. “Isso é obra do feitiço e devem ser os vizinhos de Boquisso que tinham inveja dela, sobretudo pela vontade que tinha para trabalhar a terra e produzir alimentos”, presumem.

“Nunca ouvimos falar que hipertensão arterial provoca doenças mentais e até cegueira”. De facto, a avaliar pela explicação de alguns entendidos na matéria, a doença de Isabel é, no mínimo, estranha e não há uma relação directa entre ela e a hipertensão arterial, pois esta afecta frequentemente os órgãos ligados ao coração e, raras vezes, senão nenhuma, vai até ao cérebro e causa cegueira. Se for o caso, é acompanhada por outra doença qualquer.

O assassino silencioso

A hipertensão arterial é, geralmente, uma afecção sem sintomas na qual a elevação anormal da pressão dentro das artérias aumenta o risco de perturbações, como a ruptura de um aneurisma, uma insufi ciência cardíaca, um enfarte do miocárdio e lesões do rim. A palavra “hipertensão” sugere uma tensão excessiva, nervosismo ou stress. No entanto, em termos médicos, a hipertensão refere-se a um quadro de pressão arterial elevada, independentemente da causa. Chamam-lhe também o “o assassino silencioso” porque, geralmente, não causa sintomas durante muitos anos (até que lesiona um órgão vital).

A hipertensão arterial afecta milhões de pessoas com uma diferença notória conforme a origem étnica. Por exemplo, nalguns países, onde afecta mais de 50 milhões de pessoas, 38 % dos adultos negros sofrem de hipertensão, em comparação com 29 % de brancos. Perante um nível determinado de pressão arterial, as consequências da hipertensão são mais graves nas pessoas de raça negra.

Quando se mede a pressão arterial, registam-se dois valores. O mais elevado produz-se quando o coração se contrai (sístole); o mais baixo corresponde à relaxação entre um batimento e outro (diástole). A pressão arterial transcreve-se como a pressão sistólica seguida de uma barra e, em seguida, a pressão diastólica; por exemplo, 120/80 mmHg (milímetros de mercúrio). Esta medição seria lida como “cento e vinte, oitenta”.

Tratamento

Para cerca de 90 % das pessoas com pressão arterial elevada, a causa é desconhecida. A hipertensão essencial não tem cura, mas o tratamento previne as complicações. Devido ao facto de a pressão arterial em si mesma não produzir sintomas, o médico procura evitar tratamentos incómodos, trabalhosos ou que interfi ram com os hábitos de vida. Antes de prescrever a administração de fármacos, é recomendável aplicar medidas alternativas.

No caso de excesso de peso e de pressão arterial elevada, aconselha- se a redução do peso até ao seu nível ideal. Deste modo, são importantes as alterações na dieta em pessoas com diabetes, que são obesas ou que têm valores de colesterol altos, para manter um bom estado de saúde cardiovascular em geral. Com a redução do consumo de sódio para menos de 2,3 g ou de cloreto de sódio (sal) para menos de 6 g por dia (mantendo um consumo adequado de cálcio, de magnésio e de potássio) e o consumo diário de álcool para menos de 750 ml de cerveja, 250 ml de vinho ou 65 ml de whisky, pode não ser necessário o tratamento farmacológico. É também muito útil fazer exercícios aeróbicos moderados.

As pessoas com hipertensão essencial não têm de restringir as suas actividades se têm a sua pressão arterial controlada. Por último, os fumadores deveriam abandonar o hábito. É aconselhável que as pessoas com pressão arterial elevada controlem a sua pressão na sua própria casa. Esses indivíduos, provavelmente, estarão mais dispostas a seguir as recomendações do médico em relação ao tratamento.

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