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Festival da Marrabenta 2011: a festa em Marracuene

Festival da Marrabenta 2011: a festa em Marracuene

O quarto dia do Festival da Marrabenta não podia ser igual ao dos dias anteriores: a marrabenta esteve sempre presente em cada instante da festividade como nunca antes a sentimos.

No dia 2 de Fevereiro, a festa começou com uma viagem de comboio à mítica vila de Marracuene. Minutos antes – na tarde do dia 2 -, a ansiedade e um misto de desânimo era visível no rosto de um pouco mais de uma centena de pessoas desejosas (entre eles músicos, jornalistas, apreciadores da marrabenta e alguns aventureiros) de uma viagem pouco comum e sem precedentes ao ritmo da marrabenta. O motivo era único: o comboio com destino à Marracuene demorava a partir.

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Na estação dos Caminhos-de-ferro de Maputo, a expectativa era enorme e o relógio que assinalava a passagem do tempo parecia ser lento: a transição de um minuto para outro dava, em alguns momentos, a sensação de uma eternidade. Resultado: algumas pessoas desistiram da viagem.

Enquanto a locomotiva não saia, os passageiros perdiam-se em conversas em torno da marrabenta. “A marrabenta não é fruto de um indivíduo, é um processo que envolve todos os músicos que fazem este ritmo”, disse António Marcos. Segundo o artista, o Festival da Marrabenta será sempre bem-vindo, uma vez que “é a exaltação da nossa cultura, daquilo que é nosso e daquilo que é do povo moçambicano”.

Para o músico Tinito, a questão não é encontrar-se o “pai da marrabenta”, mas “transmitir a experiência e os valores às camadas mais jovens” de modo a “imortalizar-se” a marrabenta. “Não estou preocupado se o fulano é rei ou não da marrabenta. Aliás, até porque todos os somos, visto que dedicamos a nossa vida a esta música”.

Já eram precisamente 13h50, quando o famoso “Comboio da Marrabenta” partiu da estação de Maputo, levando consigo alguns dos grandes nomes da música ligeira moçambicana e apreciadores da marrabenta para a festa do Gwaza Muthini e do Festival da Marrabenta.

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António Marcos, Ximanganine e Victor Bernardo eram alguns dos músicos escolhidos para abrilhantar a jornada. Sentados rigidamente e empunhando as guitarras, os artistas começaram a soltar as primeiras notas profundas de marrabenta e o público aproximou-se para ouvir e ver de perto aqueles grandes nomes da música nacional, porque o som não estava amplificado para o gáudio de todos que se encontrava nas carruagens.

Os viajantes abandonaram os seus lugares e colocaram-se em pé no corredor e, num piscar de olho, a carruagem na qual estavam os artistas revelou-se pequena. Improvisou-se uma ronda de dança.

Uma horda de jovens, com os espíritos de marrabenta em ebulição, tomou a conta da festa ofuscando o som das guitarras e dos músicos. Os jovens ditavam as músicas e mostraram que as conheciam e, volvidos alguns momentos, deixou-se de ouvir os artistas e os passageiros continuaram com a festa. Vinte minutos depois, o cansaço tomou conta de todos e nunca mais voltou-se a ouvir marrabenta.

Quem estava à espera de uma viagem ao som da marrabenta, ‘pagou’ caro – importa regista que a viagem de comboio foi gratuita -, pois um grupo de cidadãos cubanos fez a festa até ao destino cantando músicas latino-americanas.

Na estação dos Caminhos-de-ferro de Marracuene sobressaía uma enorme multidão que aguardava pela chegada do “Comboio da Marrabenta”.

Festa rija

Em Marracuene, a festa começou muito antes do concerto musical programado para aquele dia. O local escolhido para as festividades foi o monumento dos heróis da resistência. Entre os eucaliptos e uma vista para o rio Incomáti que serpenteia a vila, diversas barracas e churrasqueiras sobressaíam aos olhos, além de exposições de produtos agrícolas e alguns objectos de artesanato.

O acesso ao local do espectáculo era (quase) impossível devido à enorme moldura humana que celebrava mais um aniversário do Gwaza Muthini. A festa transformou-se em uma oportunidade para ganhar dinheiro. Os vendedores tomaram de assalto as ruas. Não se viu hipopótamo nenhum e o canhú era comercializado.

Ao som da marrabenta, centenas de jovens bebiam exageradamente o canhú, para alegria da dona Mafalda que conseguiu naquele dia vender os seus 65 litros. E não faltou o esperado: confusões; jovens a andarem trôpegos, esbarrando em tudo que lhes vinha à frente; e gente, vencida pelo álcool, estirada no chão.

O espectáculo

O concerto musical não poderia ser melhor. Aliás, quando os grandes fazedores da marrabenta se juntam no mesmo palco, o resultado é sempre grandioso embora haja choque de egos.

Para abrir o espectáculo, nada melhor que os músicos emergentes da casa. Subiram ao palco uma série de jovens músicos de Marracuene que procuram espaço no mercado da música nacional e receberam o aplauso do público, ainda que não de forma eufórica.

Empunhado um saxofone e vestindo trajes tradicionais, Narciso Macuácua animou os espectadores. Do seu instrumento musical saiu sons honestos da marrabenta. Ilda Fumo apresentou um repertório ajustado para o ambiente, mas foi Alberto Mutcheka que pôs o público em agitação com os seus invulgares passos de marrabenta.

A Orquestra Djambo apresentou-se como sempre de forma grandiosa. O público deixou-se embalar na beleza das suas músicas, nos passos de dança dos bailarinos e mostrou que conhecia os temas deste grupo.

Subiu ao palco Albino Nguenha que deu uma das mais entusiasmantes actuações da noite, imortalizando o trabalho do seu falecido irmão Jeremias Nguenha. Seguiu-se Joana Coana que revelou toda a sua sabedoria quando o assunto é marrabenta, depois veio a actuação de Victor Bernardo. Já músico Tinito, ostentando uma batina preta, deu um verdadeiro espectáculo mostrando o seu espírito da marrabenta.

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António Marcos igual a si mesmo mostrou-se comunicativo. Com as suas luvas brancas e boina, o autor de “Maegane” mostrou a potência da sua voz e o público cantou todos os seus sucessos na ponta da língua. Seguiu-se Xidiminguana que praticamente não falou com o público, aliás, apenas conversou com a sua guitarra, o que lhe valeu aplausos e assobios da plateia. Para fechar o concerto, a responsabilidade coube ao filho da casa, Dilon Djindji. E, diga-se, fê-lo com chave de ouro e foi ovacionado.

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O público de Marracuene mostrou que conhecia muito bem as músicas, vibrando em cada momento em que os artistas deram o seu melhor.

Depois da festa do Gwaza Muthini, o Festival da Marrabenta rumou para a terra do mestre Malangatana, Matalane, no dia 3, onde foi apresentado um concerto acústico denominado “Cantar Nguenha”, em homenagem à memória daquele que é considerado o ícone das artes plásticas.

Chibuto

A caravana da quarta edição do Festival da Marrabenta não se limitou apenas a cidade e província de Maputo, prosseguiu a viagem com destino à província de Gaza. No sexto dia, 4 de Fevereiro, o município de Chibuto testemunhou um espectáculo de marrabenta sem precedentes.

A praça Ngungunhana – o local escolhido para o concerto musical com jovens bandas, bailarinos profissionais e amadores e conceituados músicos de marrabenta – começou por estar vazia. Mas, depressa, as pessoas foram invadindo o lugar para ver actuar alguns grandes nomes da música ligeira moçambicana.

O menu não foi diferente do de outros locais por onde passou a presente edição do festival. A Orquestra Djambo, Dilon Djindji e Alberto Mutcheka foram as atracções da noite. E musicalmente não apresentaram nada de novo, aliás, o repertório foi o mesmo mas as suas actuações não deixaram o público de Chibuto indiferente.

Os espectadores aplaudiram cada momento de lucidez, quando os músicos mostraram beleza no palco, até porque são raros espectáculos do género naquele ponto do país.

Chókwè

O município de Chokwé foi o lugar escolhido para dizer “adeus” a quarta edição do Festival da Marrabenta. Milhares de pessoas inundaram o espaço da Estação dos Caminhos-de-ferro de Chokwé para uma viagem com destino ao “reino da marrabenta”.

O publico vibrou com os maiores sucessos de Dilon Djindji e Xidiminguana. Animou-se com os passos de dança à modaskavalu que só a Orquestra Djambo sabe fazer. Dançou com o som da guitarra de Alberto Mutcheka. E entusiasmou-se com os ritmos agitados do jovem músico Rei Dragão.

Os artistas serviram as músicas numa temperatura artisticamente quente e os espectadores responderam positivamente, cantando quase todo o tempo em coro. Foram quase quatro horas de espectáculos e os músicos despediram-se “até breve”.

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