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Pandza: A faca e o queijo

Não era um bairro distante do centro urbano daquela província, mas era muito longe pelas dificuldades de acesso. Tão difícil era o acesso que até o sol demorava a lá chegar e a chuva se distraia de chover por ali. A luz eléctrica era da lua e a água era canalizada do rio, em latas sobre a cabeça. É perto dali, dizem, que o vento faz a curva quando vai descansar.

Com o rosto pincelado de ranho, a pele cor da poeira, o miúdo quase sem idade brincava de solidão, no areal que atapetava aquele chão. Olhou para o horizonte, chamado pelos instintos ainda crus, e estranhou uma nuvem de poeira que subia por entre os flocos verdes da vegetação, manchando o céu. Não fosse a pouca idade facilmente descodifi caria aqueles sinais: eram viaturas, muitas pela dimensão da nuvem, que percorriam a quase estrada que dava acesso ao bairro.

Entre árvores e paisagem, a estrada parecia um risco sinuoso e o comboio de viaturas aproximava-se, aos olhos do miúdo, como uma serpente. Na entrada do bairro, parou para prepararem uma entrada triunfal. Começaram a gritar e cantar slogans eleitorais. O lugar era de tão difícil acesso quão importante para votos por amealhar.

As viaturas, raras àquele lugar, chegaram com a mesma raridade que chegavam as naus dos tempos das descobertas. Ondulando no esburacado da via, como embarcações balançando a música das ondas, hasteavam bandeiras de campanha eleitoral que se enchiam de vento parecendo longos mastros com velas imponentes. O candidato, empoleirou-se na bagageira do carro da frente, autêntico Vasco da Gama da situação, e armou-se de camisetes e panfletos, como se armavam, os descobridores, de missangas e panos para as trocas desiguais.

O ronco monstruoso dos motores fazia fundo às vozes e assustava o miúdo. Não conhecia aquelas máquinas. Ainda não tinha nascido quando máquinas idênticas, objectos não voadores identifi cados, passaram por ali nas eleições anteriores.

Acharam estranho, os visitantes, que por mais que gritassem e espalhassem panfl etos, o que era suposto atrair gente como mosca, ninguém aparecia. Parecia ter-se decretado um domingo profundo naquele bairro e os casebres, inclinados ao peso da miséria, pareciam adormecidos numa babalaza colectiva. Os seus gritos pareciam incomodar o sono daquele silêncio, por isso o candidato deu ordens para se calarem.

– Hey, miúdo, onde estão as pessoas? Onde está a mamã? – perguntaram na língua local.

Sobressaltou-se, com os olhos a luzirem mais do que o ranho, levantou o braço magro sobre o balão da barriga cheio de vazio, e apontou para o fundo da rua, na direcção do rio.

Perto do rio, à sombra duma árvore que pelo diâmetro do tronco parecia ter passado por todas as idades, estavam as pessoas, aglomeradas num quase comício. Outro candidato? Haveria uma colisão de rotas eleitorais? Não parecia.

– O que se passa aqui? – perguntaram.

– Halakavuma! Viemos ver halakavuma – respondeu baixinho um dos presentes, não fosse interromper o sono sagrado do animal, enrolado de forma sinistra nas suas escamas.

Halakavuma é pangolim, como se designa na língua importada, e que os espíritos não entendem, explicou. É um animal muito raro. Quando aparece trás recados de ancestrais, muitas vezes relacionados com azares como a falta ou excesso de chuva. Um grande ritual deve ser realizado, para que se possa desvendar as suas mensagens.

Um homem que pela idade e protagonismo parecia saber a língua dos espíritos, falava com o bicho:

– Que azar nos trazes?

O animal desenrolou-se, olhou para o velho, tacteou o ar com a língua viscosa, virou- -se lentamente, e desapareceu mato adentro. O rosto do velho ficou pesado, escuro como um céu muito nublado. As pessoas dispersaram-se. O velho, tremelicando mais as pernas que a bengala, sentou-se entre o tronco e a enorme raiz da árvore secular, pensativo. Retirou um canivete do bolso e pôs-se a aparar o pau que lhe servia de bengala, como se descascasse o nervosismo.

O candidato aproveitou e aproximou-se com diplomacia, agachou-se, em sinal de respeito. Pousou num dos braços da raiz uma camisete, um boné e um panfl eto com imagem do candidato e logotipos partidários. O velho continuava com o olhar distante. Olhando para o futuro, no céu.

– Então são vocês, o azar que o halakavuma vinha anunciar – perguntou sem olhar, o velho.

– Não madala, nós trazemos sorte, futuro para este bairro. Com a sua infl uência ajude- me a conquistar os votos e melhorar a vida deste povo.

– Vida? Que sabem vocês jovens da vida. Não existe vida antes da morte – as raspas do pau da bengala espalhavam-se pelo chão.

– Empreste-me a sua faca – pediu o candidato.

O velho olhou de esguelha, desconfi ado. Estendeu o braço trémulo e a faca sentiu a diferença entre as mãos calejadas do velho e a palma de pele macia do candidato. Este tirou de um saco, embrulhado num guardanapo de pano, um pedaço de queijo. A lâmina deslizou pelo alimento delicado, ofereceu a fatia ao velhote, numa metáfora óbvia.

– Vês, madala, tu tens a faca e eu tenho o queijo, podes ter muito mais queijo se me ajudares. Entendes?

Trémulo, o madala levantou-se e, na lentidão de movimentos seculares foi-se embora, depois de lhe responder:

– Sabe, nem sempre é a barriga que tem fome. Olha à tua volta. Antes da faca e do queijo, é preciso haver pão, entendes?

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