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Arte vale-se quando evita esteticídio!

Arte vale-se quando evita esteticídio!

A exposição colectiva de arte contemporânea patente no Espaço Cultural Kulungwane, em Maputo, não somente se vale pela diversidade de técnicas aplicadas, mas pela multiplicidade temática e, acima de tudo, pelas suas proporções (provocadoras) que incitam alguma reflexão sobre a condição ser humano!

Contrariamente ao que habitualmente tem acontecido, desta vez, o Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC) decidiu romper com a rotina e, instigou os professores de arte a – no lugar dos estudantes – expor o seu trabalho artístico.

É uma forma de “realizar esteticamente a vida”, comenta Filimone Meigos, o director da instituição recordando-se que “há quem diga que isso não se ensina (refiro-me a arte de viver e o de vidar da arte)”, o que para si, ainda que tenha algum fundo de verdade, verdade também é que “os saberes são transmitidos de geração em geração, de professores para estudantes, e, porque não, de estudantes para professores”.

Na verdade, a mostra associa sete criadores. Gemunce, Marcos Muthewuye, Raimundo Bila, Victor Sala, Ulisses, Maimuna Adam e Hélder Maquico. Cada um dos autores conta histórias complexas, algumas das quais objectivas, outras ainda simplesmente oníricas. Impressionámo-nos com o “entrelançar”, um vídeo com a duração de cinco minutos da autoria de Maimuna Adam.

Em tal obra, a artista parte de um acto muitas vezes considerado corriqueiro, trivial – talvez por ser habitual e quotidiano – que é o trançar a carapinha e, introduz uma complexidade de questões e provocações: até que ponto se pode, por exemplo, falar de identidade nacional, numa nação, com miscigenação de gente? Quem produz tal identidade? E, qual é nossa cumplicidade na mesma? Tem-se na tela, que na verdade é um ecrã, uma figura feminina que desencadeia o acto físico de fazer a trança. Tal acto é apenas um meiotermo. Tem-se na obra uma metáfora que nos convida a olhar nos vários processos sociais que nos entrelaçam uns aos outros.

“No meu caso particular, segui o exemplo da história da minha avó indiana que casara aos 14 anos e, cuja família veio a Moçambique. Este trabalho segue esta ideia da viagem, do deslocamento, do como é que criamos uma identidade? Como nós, de alguma forma, criamos raízes nessa identidade?”, comenta.

Muita manipulação à mistura

Esta ideia de seguir uma história específica – o da sua avó. A união que se estabelece no encontro entre pessoas diferentes, que podem prefigurar ser povos diferentes, as idiossincrasias que se operam nesse processo – que pode ser pacífi co como não – recorda-nos os encontros entre os habitantes da região da costa oriental africana, que actualmente se conhece pelo nome de Moçambique, com gentes vindas da Ásia, os árabes, bem como os portugueses e, agora, num âmbito global e globalizante, com o mundo.

Tudo isto é transparecido pelo encontro pelas ambiguidades da imagem que, por um lado, mostra-nos uma mulher – o símbolo isolado mas em que se integram muitos elementos, a água, o cuidado que ela possui com as raízes capilares, etc.

A criadora do Entrelaçar não se concentrou unicamente na figura feminina. Na sua busca permanente – talvez – pelos melhores padrões de beleza. Mas agregou igualmente no seu trabalho eventos históricos. “As ligações que a história de Moçambique tem com o mundo. O facto de termos muitas histórias que se vão misturando, a forma como esta realidade afecta a nossa identidade na actualidade”.

Consequências da miscigenação

Maimuna diz que, para si, o importante é antever que a questão da identidade e identidade nacional são um processo muito complexo. Afinal, sempre há algo adicional no tema. Não é tão inocente, sem manipulação, como podemos pensar/perceber. “Sinto que Moçambique é um país, onde temos muita miscigenação racial, o que nos enriquece”, diz.

Ora, se recordamos que esta artista é filha de pai indiano e mãe norueguesa, o que faz com que imediatamente ela seja mista, então o seu tema é (também) um problema muito pessoal. De qualquer forma, “este trabalho não é, essencialmente, uma resposta. Antes, pelo contrário, é uma provocação, na medida que busca suscitar várias perguntas”, clarifica.

Paixão pela video-arte Maimuna Adam que lecciona Desenho e Design trabalha essencialmente com vídeo para produzir arte. O seu ofício é assaz solitário. Ocorre num espaço privado, começando com manipulação de material, pinturas, desenhos. No entanto, a sua intervenção em tais objectos muitas vezes é efémera.

“Por causa desta natureza bastante efémera, transitória do meu trabalho – porque há vezes que a minha intervenção no material dura alguns segundos – então, nesse sentido, o vídeo acaba por ser a maneira de registar, de alguma forma, as acções que tenho feito”, congratulando-se pela diferença que marca entre os artistas.

Ora o uso da video-arte no contexto das artes contemporâneas moçambicanas ainda é inédito. Ainda que na realidade o cinema tenha sido inventado nos anos 60 do século passado. E nos dias actuais dá-nos muita possibilidade de criação artística, mas também de comunicação.

Uma metáfora da Vida

Todos os dias, as pessoas deslocam- se para diversos pontos. Para a escola, o trabalho, o cinema, o hospital, o mercado, enfim, seguem uma infinidade de caminhos. Naturalmente, interpretam os movimentos dos objectos, pessoas, com que se defrontam nos seus trilhos, sob pena de tropeçar ou mesmo fazer-se colidir. No entanto, um facto curioso é que, poucas vezes se dêem conta da importância do caminho.

É sobre esta metáfora da vida que Ulisses Gomes, este artista e professor de origem cubana a residir em Moçambique há mais de 20 anos, fala-nos em seu “A caminho”. A obra cuja mensagem só pode ser vislumbrada pela mente. Afi nal, é muito onírica, ainda que apresente alguns elementos físicos.Muito óleo e acrílico sobre a tela foram empregadas para a sua produção.

“A vida é um caminho para o futuro. Cada pessoa tem um futuro, o que importa é defi nir perfeitamente o caminho para o efeito. O caminho tem um leque de significados de que, muitas vezes, a gente não se dá conta”, afi rma o docente.

Ensinar arte

Comentando a pertinência do ser artista e professor, Maimuna Adam afi rma que o ensino, em si, é uma arte. “Sou um artista por isso ensino. Se eu não fizesse um trabalho prático, não teria algo a ensinar. Não teria experiências – que são problemas porque passamos e as suas soluções – por transmitir”. Por sua vez, o director do ISArC, Filimone Meigos, faz do “ensinar fazendo”, um valor peculiar dos professores da sua instituição.

“Isso é uma mais-valia para a nossa instituição. Mas, o mais interessante é a maneira como eles abordam – de ponto de vista de filosofia – as novas estéticas e formas. Para uma instituição nova, como o ISArC, isso é bom porque evita o esteticídio, ou seja matar outras estéticas”. Por esta razão, penso que é isso “que nos cabe fazer. Porque estamos diante de uma instituição nova que deve assumir uma função e papel novos. E, porque não, uma filosofia também nova”.

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