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A “eterna” crise de água

O acesso à água continua um luxo no país, mesmo no meio urbano onde a cobertura é de 60 porcento. A qualidade não é das melhores e o esforço desencadeado para ter um bidão deixa muitas famílias de rastos. Em Lichinga, por exemplo, só à noite jorra água nas torneiras. Em Nampula o cenário não é diferente. No resto do país, com excepção da parte de cimento da capital, a diferença é igual: o caminho de acesso ao precioso líquido é um martírio.

Pouco antes de o sol nascer, já existe uma fila enorme de pessoas à procura de água em casa de João Chaúque. Os rapazes carregam dois bidões de 20 litros, um em cada braço. As mulheres transportam um balde na cabeça. O cenário neste pedaço de Maputo, Luís Cabral, é um retrato da escassez de água em Moçambique. Cerca de 40 porcento da população urbana não tem acesso à água.

Aqui os moradores aprenderam a conjugar o verbo sofrimento devido ao sistema deficitário de distribuição. O problema de abastecimento daquele precioso líquido, um direito fundamental, transformou radicalmente a vida dos residentes daquele pedaço do país. As torneiras, as poucas que há, deixaram de jorrar água faz tempo. As ligações clandestinas tornaram o fornecimento incipiente. Nem todos podem pagar aos operadores privados que cobram 45 meticais por metro cúbico.

“Com tanta louça para lavar e sem um pingo de água nas torneiras, nem dá para pensar em cozinhar”, esclarece a dona de casa Tchamaita Mula que não sabe que hoje (22 de Março) o país e o Mundo celebram o Dia Mundial da Água. “Lavar roupa, então, nem pensar. A única água que temos é a que guardamos no balde e no tanque”, relatou Clara Chipera que vive de um pequeno biscate de venda de produtos de primeira necessidade que ajudam a engordar o salário de Ernesto, o esposo que trabalha como segurança numa loja na baixa da cidade de Maputo.

Nos tempos de crise tomar banho é outra tarefa difícil para os cerca de oito mil moradores de Luís Cabral. A saída, segundo os vizinhos, é adquirir bidões de água no bairro do Jardim onde o fornecimento de água é regular. Em Mateque, onde muitos residentes de Maputo procuram espaços para fixar residência, a situação é ainda pior.

No plano do Governo, o nível mínimo de serviço é uma fonte equipada com bomba manual para 500 pessoas com um consumo de 20 litros/pessoa/dia. Isso equivale a apenas um balde cheio. Em novos bairros como Mateque, não há água dos canais formais de distribuição, e cada fornecedor privado impõe o preço que quer.

Rute reside lá com o esposo que sai antes das 5 horas e só regressa depois das 22. “Carrego sete bidões por dia para a família”, diz rindo ao ser questionada sobre o peso. “Não sei se as dores são disso ou não, já nasci no Luís Cabral a carregar água. Aos 23 anos de idade, Rute tem três filhos. A mais velha, de 6 anos, já tem funções de adulta.

É assim em toda a periferia da capital do país. O exercício para ter água, para o grosso das famílias, é extremamente degradante. Paradoxalmente, o acesso ao preciso líquido é uma das prioridades do Governo. A meta é que em 2015 todos tenham água, algo que não poderá ser cumprido. Ainda é preciso levar água para 70 porcento da população rural.

A média de acesso no país é de 60 porcento. Porém, há áreas onde a cobertura não chega aos 30. Em cada 10 pessoas que não têm acesso ao recurso no mundo, oito residem no campo — tendência que é seguida por Moçambique.

No meio urbano, o acesso é maior. Contudo, as dificuldades para aceder ao precioso líquido tiram o sono a qualquer cidadão. “Depender da torneira do vizinho é complicado. No mês passado morreu uma criança em casa do João e nós ficámos dois dias sem água. Quem teve forças foi até ao Jardim”, denuncia Clara.

Falta de água: um problema nacional

A falta de água ou a distribuição incipiente que assola o país não é exclusiva da capital do país. Em Nampula, mulheres andam de um lado a outro com uma das mãos a segurar baldes na cabeça e outra nas capulanas que prendem os bebés ao corpo. Em Lichinga, capital de Niassa, por volta das 21 horas, a rua fica mais vazia. O motivo é a população corre para casa, porque a água começa a sair na torneira. É preciso encher os baldes.

Morar no bairro de Muatala, na cidade de Nampula, nunca foi fácil para centenas de pessoas, pois a constante crise de água que assola aquela zona residencial deixa as famílias sem opção. Sem o amparo das autoridades locais, os moradores são obrigados a percorrer longas distâncias para obter o precioso líquido. À semelhança de outros bairros, em Muatala o problema de falta de água potável é recorrente, pois o sistema de abastecimento ainda é deficitário.

Para ter acesso à água potável, Ancha Wazir, residente do bairro de Muatala, tem de acordar à meia-noite – o único período do dia que a água jorra das torneiras – e fazer um percurso de pelo menos dois quilómetros até à fonte mais próxima. Tem sido assim quase todos os dias.

“Durante o dia, as torneiras ficam completamente secas e, não tendo outra alternativa, somos obrigados a ficar toda a noite no encalço da água, e nem sempre sai. Algumas famílias têm de percorrer longas distâncias na calada da noite sob todos os riscos daí decorrentes”, afirmou.

Regra geral, na cidade de Nampula, centenas de famílias ainda continuam a percorrer mais de cinco quilómetros à procura de água para o consumo, como consequência de algumas restrições no seu fornecimento. A situação é mais crítica nas zonas em expansão da urbe, com destaque para Muatala, Mutauanha, Muahivire-Expansão, Namiepe, Cossore, entre outros, onde a sua falta é a principal dor de cabeça dos seus residentes.

Como alternativa, alguns populares recorrem aos furos tradicionais e alguns riachos que atravessam os bairros. Cossore, uma das zonas em expansão da cidade de Nampula, também não escapa aos problemas de falta de água. Grande parte da população consome a do poço e riachos.

Os residentes recorrem aos bairros vizinhos, nomeadamente Muatala e Mutauanha, percorrendo pouco mais de seis quilómetros. Nestes locais os moradores são obrigados a pagar cinco meticais por cada bidão de 20 litros.

Melita João, residente em Cossore, disse que desde que se mudou para aquele bairro há mais de seis anos nunca viu água a jorrar das torneiras, uma vez que este tipo de infra-estruturas não existe na região. “Quase todas as famílias consomem água do poço. No mês de Setembro a situação agrava-se, porque os poços secam. Já solicitámos a expansão da rede de água, mas as autoridades locais dizem que ainda não fomos contemplados por vivermos numa zona não urbanizada”, explicou agastada.

No bairro de Namiepe a situação é idêntica. A população continua a consumir água imprópria obtida em fontes tradicionais com uma profundidade não superior a cinco metros para satisfazer as suas necessidades diárias. Embora não seja água ideal para o consumo humano, os moradores daquela zona residencial consideram que não têm alternativa porque no seu dia-a-dia necessitam dela para garantir a higiene no seio das suas famílias. Tratando-se de uma zona ainda em processo de expansão, o acesso à água potável é deficitário ou mesmo inexistente.

Embora não haja fontes de abastecimento condignas, os residentes de Namiepe não percorrem longas distâncias para chegar às fontes tradicionais porque a zona se encontra localizada no meio de um rio, designado Namicopo, e existe uma represa. Dentre os mais de mil habitantes, nenhum deles dispõe de uma torneira no seu quintal.

Apurámos que algumas pessoas de carácter oportunista não aceitam que a vizinhança utilize água dos seus poços a não ser mediante o pagamento de um valor monetário. Cada vasilhame de apenas 20 litros custa um metical e 100 meticais é quanto se cobra por um consumo mensal.

Em Namiepe não existem mais de 10 fontes de água, mesmo os da rede pública. A situação relacionada com a falta de água torna-se mais complicada quando chega o período seco, em que as chuvas não se fazem sentir com muita frequência. Angelina da Conceição afirmou que nesta altura as famílias dependem da represa que se situa nas imediações das casas.

O sofrimento originado pela falta de água torna-se reduzido no tempo chuvoso em que a chuva diminui a grande procura, pois algumas famílias aramazenam água nas suas residências através da construção de caleiras.

Na cidade de Quelimane, os moradores dos bairros de Floresta, Torrone-Velho e Micajuene não se lembram da última vez que viram água jorrar das suas torneiras. O drama por que passam não é de hoje. Há mais de dois anos, as pessoas são obrigadas a percorrer três a quatro quilómetros para encontrar uma fonte de água. E, como se não bastasse, vivem na promessa de que a situação há-de mudar.

Mulheres e crianças com bidões e baldes na cabeça é um cenário comum naquele ponto do país. Decorridos 69 anos após a elevação à categoria de cidade, apenas 5.3 porcento da população de Quelimane têm acesso à água canalizada no seu domicílio, 14 fora dele, 10 consomem água do poço, enquanto cerca de 66 têm acesso a um fontenário. Ou seja, de um total de 41.804 agregados familiares existentes na cidade, apenas uma menor parte respira de alívio ao ver o preciso líquido a jorrar das torneiras.

No munícipio de Cuamba, na maioria dos bairros, o acesso à água potável ainda é um problema sério que afecta directamente pouco mais de 43 mil agregados familiares. Os dados existentes dão conta de que, dum total de 43,290 agregados familiares de que o distrito dispõe, somente 0.6 porcento tem água canalizada em casa, aproximadamente nove têm fora desta, quase 34 porcento recorrem aos poços (a céu aberto) e 31 socorrem- se dos rios. Em cada bairro, um furo de água serve mais de mil moradores.

FIPAG tem a palavra

As autoridades do FIPAG em Nampula, entidade responsável pela canalização de água potável, afirmam que as actividades de canalização de água são executadas de acordo com as políticas de urbanização desenhadas pela edilidade.

Tembo João Tembo, o director da FIPAG a nível da cidade de Nampula, afirmou que o fornecimento de água potável à cidade de Nampula atravessou os seus tempos difíceis, tendo-os ultrapassado a partir do dia 13 de Dezembro do ano passado, com a transformação da albufeira na estação principal de abastecimento de água, o que permitiu elevar os níveis de fornecimento das anteriores 8 horas para 10 diárias.

Para Tembo, o problema de abastecimento de água passará para a história a partir de 30 de Junho próximo, com a conclusão das obras em curso que têm em vista a o incremento da capacidade do seu funcionamento, com destaque para os bairros de Muhala e Muhivire-Expansão, Muatala, entre outros, que vão passar a receber água com regularidade.

“Estes bairros estão distantes do centro de distribuição”, sublinhou Tembo, precisando, por outro lado, que se vai igualmente elevar a capacidade de reserva de água dos 18 mil milímetros cúbicos para 26 mil cúbicos, o que garantirá um abastecimento a cerca de 250 mil habitantes.

“Devido às actuais condições técnicas, não é possível dar água potável a todos, daí que fornecemos de forma faseada para que todos os bairros da cidade beneficiem deste líquido vital, sendo que das 14 horas às 22, fornecemo- la à zona industrial, Marrere-Expansão, Muatala, Murrapania, entre outros, mas por várias razões tivemos que deslocar o nosso horário, sendo que outras zonas passaram a receber água no período entre as 22 horas e as 10 do dia seguinte. Temos que interromper em certos períodos para permitir a sua reposição”, disse Tembo.

O nosso entrevistado referiu ainda que ao longo do primeiro trimestre a cidade de Nampula teve 310 novas ligações, de um total de duas mil planificadas até o final de ano, e conta com 453 fontenários públicos. Aliás, aquele ponto do país dispõe de 460 quilómetros de rede de abastecimento de água, e, num futuro não distante, prevê-se expandir o fornecimento a mais 60 quilómetros de rede. Em termos de ligações, o FIPAG em Nampula conta com 27 mil clientes activos.

Num outro desenvolvimento, Tembo João Tembo disse que o volume de obras em curso naquele ponto do país tem condicionado sobremaneira o fornecimento de água à cidade de Nampula, o que tem provocado muitas fugas, estimando-se em 30 por cento de perdas.

Refira-se que na cidade de Nampula os níveis de abastecimento de água à população situam-se em 47 porcento, estando projectado que até finais de ano venham a atingir a fasquia de 50 porcento.

Dados da UNICEF

O cenário vivido no nosso país não é isolado. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), perto de 2.000 crianças menores de cinco anos de idade morrem diariamente devido a doenças diarreicas e cerca de 1.800 dessas mortes estão ligadas à água, ao saneamento e à higiene precários.

“Às vezes, concentramo-nos tanto em grandes números, que deixamos de ver as tragédias humanas que estão por trás de cada estatística”, diz Sanjay Wijesekera, chefe global do programa do UNICEF de água, saneamento e higiene, num comunicado veiculado pela Imprensa.

“Se 90 autocarros escolares cheios de crianças tivessem que sofrer acidentes a cada dia, sem nenhum sobrevivente, o mundo havia de notar o acontecimento. Todavia, é precisamente isso o que acontece todos os dias devido à água, ao saneamento e à higiene que são deficientes”, acrescentou a fonte.

Relativamente à mortalidade infantil, os dados do UNICEF mostram que cerca de metade dos casos de mortes entre os menores de cinco anos ocorre em cinco países: Índia, Nigéria, República Democrática do Congo, Paquistão e China. Dois países – Índia (24 porcento) e Nigéria (11 por- cento) – representam juntos, mais de um terço de todas as mortes de menores de cinco anos. Esses mesmos países também têm populações significativas sem acesso à água e ao saneamento melhorados.

Dos 783 milhões de pessoas no mundo sem acesso a água potável, 119 milhões vivem na China; 97 milhões vivem na Índia, 66 milhões na Nigéria; 36 milhões na República Democrática do Congo, e 15 milhões no Paquistão.

Os dados relativos ao saneamento são ainda mais desoladores. As pessoas sem saneamento básico nesses países são representadas pelos seguintes números: Índia 814 milhões; China 477 milhões, Nigéria 109 milhões; Paquistão 91 milhões, e República Democrática do Congo 50 milhões.

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