Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

A culpa de ser seropositiva

A culpa de ser seropositiva

Contava o ano de 2009 quando Ernesto Muteto abandonou a sua esposa Celina Zitha e dois fi lhos, fruto da sua relação “amorosa”. O motivo que o fez desertar da sua família, presume- se que tenha sido o facto de, naquele ano, a sua parceira ter contraído a tuberculose e o HIV/SIDA.

São 15 horas, quinta-feira 13, o sol escaldante vai raiando fortemente, Celina Feliciano Zitha por baixo de uma árvore vai preparando a refeição que servirá de jantar, enquanto vai inalando o fumo da combustão lenhosa, os seus dois filhos, Neto e José, movidos pela infantilidade e inocência vão correndo de um lado para o outro, a espera que a comida esteja pronta.

Há sensivelmente quatro anos que Celina goza de uma saúde debilitada, mas foi em 2009 que ela decidiu ir ao hospital para saber do seu real estado clínico.

No Centro de Saúde de Ndlhavela foi-lhe diagnosticada a tuberculose, mas porque um mal sempre se faz acompanhar do outro, Celina fez, volvidos perto de quatro meses, o teste de HIV/SIDA, e o resultado não foi uma surpresa, aliás quase que não surpreendeu a ninguém era seropositiva.

Quando ela foi fazer o teste, o seu marido Ernesto estava na vizinhança a fazer alguns biscates (entenda- -se trabalho informal), aliás ele era um desempregado, sendo que a sua vida laboral se resumia a pequenos trabalhos aqui ou acolá. Celina não quis pautar pelo silêncio, fazendo jus ao apelo com o qual somos sempre bombardeados “é preciso quebrar o silêncio”, informou ao seu marido com quem decidira fazer a vida, o resultado que trouxe do hospital, e sem papas na língua, debilitada e cansada de sofrer, disse: “ o resultado do exame de HIV/SIDA que fi z hoje, foi positivo ”.

“O quê?”, perguntou Ernesto. “Estou a dizer que tenho SIDA”, conta para depois acrescentar que o marido quase que a espancava até a morte. Proferiu uma série de palavrões e insultos, e ainda desferiu pontapés sobre as suas nádegas esfarrapadas pela ira das duas doenças de que padecia.

Na verdade Celina diz estar bastante arrependida por ter quebrado o silêncio e dizer o seu estado serológico ao marido e igualmente pai dos seus dois fi lhos de seis e oito anos de idade. A troco da sua honestidade foi alvo de sevícias.

“Talvez se eu não lhe tivesse dito nada, não seria violentada fisicamente e nem seríamos abandonados. Contra tudo o que eu esperava, após ter-lhe informado da minha situação clínica, só se seguiu uma série de violência. Aqui em casa só vivíamos de barulho. No lugar de ele consolar-me, aconselhar-me e traçarmos a nossa vida futura com os nossos filhos, aumentava as dores, ralhando para mim”, conta ajuntando que o marido gostava muito de proferir impropérios contra ela.

Ernesto Muteto com pouco menos de 40 anos de idade foi alguém que na sua vida conjugal podia ouvir tudo menos que a sua esposa é seropositiva. Mas porque sempre foi fácil saber que fulano ou sicrano está infectado pelo vírus que causa a SIDA e difícil saber da origem ou proveniência da doença, Celina fez a sua parte e também incentivou ao seu marido para que seguisse o seu exemplo, isto é, ir fazer o teste numa unidade sanitária que dista escassos quilómetros de casa, mas debalde.

“Ele dizia que não podia fazer o teste de HIV porque estava aparentemente bem de saúde. Dizia com toda a certeza que eu sabia onde teria apanhado o vírus, dando a entender que eu tinha trazido a doença para casa”, lamenta para depois acrescentar que o seu marido não era alérgico às saias, “ele tinha muitas amantes e até fazia questão de trazê-las aqui para casa, numa clara atitude de que eu já não era nada para ele. Quando eu lhe perguntasse a razão desse comportamento, ele dizia que tinha que me calar porque de contrário receberia porrada”, ajunta.

“Eu não tinha brincadeiras, não andava fora e nunca isso me passara pela cabeça. Sempre procurei ser fi el a ele, pois era a pessoa com quem eu tinha decidido fazer a vida. Não tenho dúvidas de que o meu marido foi quem me contaminou com o vírus do HIV/SIDA. Talvez fosse por isso mesmo que ele não aceitava ir fazer o teste comigo”, conta acrescentando que os médicos por saberem que ela era casada e vivia com o seu marido, pediram-na para convidar o seu parceiro a fazer o teste, no entanto, a arrogância, a violência e a ignorância revelaram-se maiores que os apelos nesse sentido, ou seja, Ernesto podia fazer tudo menos o teste de HIV/ SIDA, e os reais motivos para a recusa só ele sabe.

Pai que abandona esposa e filhos não registados

Desde que o Muteto decidiu abandonar a sua esposa e dois fi lhos nomeadamente, Neto e Jose, de 6 e 8 anos de idade, respectivamente, até hoje estas duas crianças não vão à escola, mesmo com idade para ingressar no sistema de ensino no país, e, pior ainda, não foram registados. “Quando ele saiu de casa, pegou na sua maleta de roupas e disse que o seu destino era a África do Sul. Ele foi peremptório em afi rmar que nunca mais voltaria, nem para ver os fi lhos”, comenta com as rugas precoces rasgando o seu rosto.

Efectivamente já passam dois anos sem que o Ernesto Muteto tenha alguma vez aparecido, pelo menos para se inteirar das condições de vida dos seus dois rebentos, estes que inocentemente vão, dia após dia, cavando um calvário sem fi m à vista. À Celina só cabe assegurar o fardo que lhe fora confi ado pelo ex-marido, este que enquanto vai, na terra do rand, desfrutando pelos worses e pão integral, os seus filhos menores juntamente com a mãe vão vivendo ao Deus dará. É normal passar uma semana sem que a panela pouse no fogo por não haver nada para cozinhar. “Porque os vizinhos já tomaram conhecimento da minha triste situação, uns e outros dão-me qualquer coisa para comer. A comida que resta não deitam fora e trazem para mim”, conta numa clara alusão ao ditado que diz, ‘na falta do melhor o pior serve’ e como se ela fosse o receptáculo de comida cuja podridão está iminente.

“Enquanto eu estava na Manhiça, ele fazia das suas aqui em casa com…”

Em 2008 porque Muteto via as condições de vida a defi nharem, e porque fazia parte da extensa fi leira dos desempregados aqui em Moçambique, decidiu enviar a sua esposa à Manhiça , sua zona de origem. Nessa altura, a saúde da Celina era débil. Mesmo assim, ela não fez ouvidos de mercador, pegou nas suas xidjumbas (montão de roupas) e na companhia dele foram até à terminal dos transportes rodoviários interprovinciais, vulgo Junta, e de lá tomou a viagem rumo à terra natal do seu marido. “Fui ficar na casa que ele construiu na Manhiça, só que em menos de 2 meses, os problemas de saúde agravaram- -se e pedi-lhe para que eu voltasse a Maputo. Felizmente aceitou”, conta para depois acrescentar que a casa que antes deixara com o marido ficou diferente, havia roupa e chinelos de outras mulheres espalhadas por entre as quatro paredes do quarto. Quando eu lhe perguntasse a quem pertenciam aquelas peças de vestuário, ele friamente dizia que era das mulheres com quem ele achava que podia viver”, recorda com as lágrimas percorrendo o seu rosto.

Muteto porque alegadamente já sabia da doença que assolava a sua mulher, fez tudo que pudesse para dela se separar. A ideia de mandá-la para fi car na Manhiça fracassou, o que fê-lo traçar outra estratégia, que era sair de casa e deixar a sua pacata família engolida pela miséria.

Viver em apuros

António Feliciano Zitha, com pouco mais de 34 anos de idade, e irmão da Celina, reconhece e sem rodeios que a relação da sua irmã com o seu ex-marido Ernesto, nunca foi boa, “eles sempre viviam em problemas, de tal maneira que nós os familiares e vizinhos já nem nos metíamos nas intrigas dele. Não passava uma semana sem discutirem”, conta para depois acrescentar que a situação ficou azeda quando a Celina começou a adoecer.

No entanto, antes eles viviam sem problemas, com os seus dois filhos. Foi naqueles tempos em que parecia existir amor, e eles viam o mundo como se de um mar de rosas se tratasse, mas o tempo mostrou o avesso da realidade por que a humanidade passa. Este jovem conta ainda que quando o seu cunhado enviou a esposa à Manhiça alegadamente por não ter condições, ele era o dono da terra, “fazia e desfazia a seu bel-prazer, trocava de mulher quando e como quisesse.

No lugar de se preocupar em cuidar da sua esposa que não gozava de boa saúde, fazia passeatas noite adentro, saindo de casa num dia e voltando no dia seguinte ou dias depois. Isso não era problema”, lamenta visivelmente agastado pela triste situação por que passa(va) a sua irmã.

Tomar anti-retrovirais sem comer nada

Celina tem que, por um lado, tomar a doze de comprimidos relacionados com a tuberculose e, por outro, os anti-retrovirais. Estes medicamentos são administrados diariamente. Porém, a falta de alimentação tem sido um grande problema. “Às vezes não tomo os medicamentos,e isso acontece quando não tenho o que comer. Aqueles medicamentos são muito fortes, a tal ponto que me provocam tonturas”, conta para depois acrescentar que os vizinhos não fazem vista grossa à sua situação, e dão alguma coisa para ela comer. Mas porque os dias não são os mesmos, ”há vezes que os vizinhos não me dão nada, e eu e os meus dois fi lhos dormimos sem comer nada”.

Esta seropositiva não se conforma quando fi ca sem tomar os medicamentos, principalmente os anti- -retrovirais. Ela procura a todo custo respeitar a dosagem dos fármacos, sob o risco de ver a sua situação clínica a defi nhar-se cada vez mais.

Caminhar grandes distâncias a pé e débil

Actualmente Celina reside no bairro Khongolote, algures no município da Matola. O hospital no qual ela faz o controlo dista sensivelmente 15 quilómetros da sua casa, e por falta de dinheiro ela faz este percurso caminhando a pé. Dado o seu estado de saúde defi nhado, para fazer esta distância leva pouco mais de três horas,e aos passos de camaleão ela chega ao seu destino. “Porque a minha mãe vive perto do hospital, quando vou ao controlo, não volto à minha casa no mesmo dia, durmo em casa dela”, conta para depois acrescentar que os seus irmãos pediram para que ela e os dois fi lhos fossem viver com eles mas não aceitou porque segundo conta, quer estar por entre as quatro paredes do seu minúsculo cubículo, sofrendo como não.

Uma casa que quando o marido se foi estava ainda em construção e não estava coberta, os vizinhos é que se prontifi caram a conceder algumas chapas de zinco, ainda que já usadas para improvisar um tecto. Até à “fuga” do seu marido, eles dormiam numa casa de construção precária, esta que pouco tempo depois desabou. Para não fi car sem lugar para dormir, pegou nos seus dois rebentos para a obra, na qual inicialmente não tinha cobertura e, quando chovesse, pedia abrigo numa casa vizinha.

Share on facebook
Facebook
Share on google
Google+
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts

error: Content is protected !!