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50 anos sofridos

No momento em que escrevo estas linhas – quarta-feira à noite, dia 30 de Junho – o terceiro maior país de África, a República Democrática do Congo (RDC), assinala os seus 50 anos como país independente. Em dimensão só o Sudão e a Argélia batem este colosso país que se estende por toda a África Central. Pela imprensa fico a saber que teve lugar um desfile militar que durou horas, com artilharia pesada e ligeira, infantaria, aviões e helicópteros, numa clara demonstração de força que hoje só as ditaduras se atrevem a exibir.

E enquanto o jovem presidente Joseph Kabila apelava na cerimónia de Kinshasa a uma “revolução moral” como forma de reprimir “atentados à dignidade humana”, associando-o ao despertar da nação congolesa, o comissário europeu Karel De Gucht reiterava as suas críticas à gigantesca corrupção e à má governação que grassa no país. Pelo meio, a assistir a tudo mudo e quedo e com instruções para não sobressair em relação aos demais chefes de Estado presentes nas cerimónias de Kinshasa, esteve o rei Alberto II de Bélgica, cujos avós foram donos do território que já se chamou Zaire.

Efectivamente, a colonização da actual RDC teve duas particularidades em relação ao resto do continente: foi a única colónia belga e a que era pertença pessoal do seu soberano. Deste modo, o Congo não pertencia à Bélgica mas sim ao rei dos belgas, neste caso a Leopoldo II. Imaginem o que é alguém a milhares de quilómetros possuir uma propriedade 76 vezes superior em área ao seu próprio país! Isto aconteceu com a Bélgica e com o Congo durante anos. Mas se Joseph Kabila comemorou, com pompa e circunstância, o cinquentenário da independência, o povo da RDC não tem razões para grandes festejos. E de facto assim foi.

Olhando para este meio século como nação independente o estado de saúde deste colosso africano, extraordinariamente rico sob o ponto de vista agrícola e de minérios – possui cobre, estanho, zinco, ouro, diamantes, cobalto e urânio -, inspira bastante cuidado. Nos índices de desenvolvimento humano a RDC ocupa os lugares de fundo da tabela em vários pontos como resultado, em grande medida, da instabilidade político-militar que viveu desde 1960, altura em que o país se tornou independente. Efectivamente só muito a espaços o ex-Zaire conheceu alguma acalmia.

Logo após a independência, proclamada por Patrice Lumumba, a província sulista do Katanga declara a secessão sob o comando de Moisés Tshombé. A guerra civil é violentíssima e a ONU envia tropas para restabelecer a ordem. A guerra só irá terminar em 1963. Milhares de mercenários europeus invadem o território para lutar ao lado de Tshombé. Lumumba é preso e posteriormente assassinado pelas forças de Tshombé com a cumplicidade dos EUA e da Bélgica. Em Novembro de 1965 Mobutu, através de um sangrento golpe de Estado, toma o poder e instaura um regime de partido único. Em 1977, dá-se uma nova tentativa de secessão no Katanga que agora se chama Shaba.

Em 1978, eclode a segunda guerra de Shaba. Em Maio de 1990, cerca de 500 estudantes perdem a vida em manifestações anti- Mobutu. Depois disso vieram as pilhagens e violências étnicas que fizeram milhares de mortos. Em 1995, foi a vez de a epidemia do ébola fazer 244 mortos. A partir de 1996 há um envolvimento do exército congolês na guerra civil ruandesa. A17 Maio de 1997, as tropas de Laurent- Désiré Kabila entram em Kinshasa. Mobutu refugia-se em Marrocos. O conflito toma proporções regionais na zona do Kivu. Angola e o Zimbabwe apoiam o regime de Kinshasa.

A 16 de Janeiro de 2001, Laurent-Désiré Kabila é assassinado por um dos seus guarda-costas. Sucede-lhe o seu filho Joseph Kabila que em 2004 irá sobreviver a duas tentativas de golpe de Estado. Como se pode ver, com este rol de desgraças, era difícil conseguir melhor.

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