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1,63 milhão de turistas visitaram Moçambique, “no ano passado não houve esse número de turistas”

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Foto de Adérito CaldeiraO Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, revelou numa recente viagem à China que em 2015 o nosso País recebeu cerca de 1,63 milhão de turistas, que deixaram uma receita calculada em 193 milhões de dólares norte-americanos. “No ano passado não houve esse número de turistas em Moçambique, não temos dúvidas sobre isso. Está-se a falar de números que não reconhecemos no sector privado, não representam aquilo que é a verdade do turismo”, declarou ao @Verdade o secretário-geral da Associação de Agentes de Viagens e Operadores Turísticos de Moçambique (AVITUM), João das Neves, que foi secundado pelo presidente da agremiação, Noor Momade, que num encontro recente com o ministro Silva Dunduro afirmou que um dos grandes desafios é “(…) a produção de estatísticas credíveis sobre o sector do turismo para o melhor planeamento estratégico pois as actuais estatísticas não são fiáveis”.

“Não há nenhum dado fidedigno que sirva para trabalhar neles, o que nós dizemos é exactamente que é necessário investir-se nesta área da estatística porque não há planificação sem estatística. Então nós temos que ter acesso a informação bem organizada, precisamos de saber quais são os países de proveniência dos turistas (por género, idade, destinos de preferências e tudo mais) que permita quando se vai fazer uma reflexão para o plano estratégico ter informação fidedigna que neste momento não está disponível”, acrescentou João das Neves que explicou ao @Verdade que de acordo com esses dados do Instituto Nacional de Estatística(INE) a Swazilânida, o Zimbabwe e a Zambia contribuem com grande número de turistas. “Mas quando nós vamos a ver descobrimos que são aquelas pessoas que atravessam a fronteira várias vezes ao dia para ir comprar alguma mercadoria do outro lado, são pessoas que atravessam a fronteira mas que não representam turistas”.

“A restauração não tem a ver com turismo”

O @Verdade entrevistou Luís Sarmento, consultor de Turismo com décadas de experiência no nosso país, que clarificou primeiro o que é um turista de acordo com a organização mundial do sector. “O turista é toda aquela pessoa que se desloca para fora da sua área de residência por um período de mais de 24 horas e menos de um ano e que pernoita num determinado destino. As pessoas nesse destino vão a praia, vão ai restaurante, apanham táxis, fazem todo um conjunto de actividades que existe no chamado destino turístico”.

“Tirando o alojamento, a nível do destino, que é garantido por unidades de alojamento que prestam serviços, que vendem camas ao turistas, o resto dos serviços estabelecidos ao nível do destino são o conjunto de serviços que se prestam aos próprios residentes. O residente também sai da sua casa e vai almoçar a um restaurante, usam as mesmas redes de comunicação ou de transporte etc. Quando se fala de turismo já começa aqui uma grande confusão porque circunscrevem normalmente o restaurante a área do turismo enquanto isso não tem nada a ver com o turismo”, explicou Sarmento.

Das receitas que o turismo terá rendido em 2015, de acordo com o Chefe de Estado, somente cerca de 60,5 milhões de dólares norte-americanos correspondem às “receitas nos estabelecimentos hoteleiros e similares” de acordo com o INE.

Ainda de acordo com o Instituto Nacional de Estatística, nos seus indicadores de referência na área do turismo em 2015, os turistas que alegadamente visitaram o nosso país somente gastaram 6,9 por cento dos seus fundos com a sua acomodação. O quinhão maior foi gasto em compras, não especificadas, 38,4 por cento, e no transporte terrestre 31,5 por cento.

O experiente consultor clarificou ao @Verdade que a“restauração não tem a ver com turismo, é um serviço prestado em qualquer espaço aonde residem pessoas a quem lá reside ou as pessoas que venham visitar o local sejam turistas ou excursionistas. É importante entender um quem são os turistas? Dois o que é que os turistas precisam? Três o que é que se pode fazer para tirar partido da deslocação de turistas a um destino, para desenvolver os serviços prestados localmente para responder ao acréscimo de uma população que existe num determinado destino e que começa a dividir-se no conceito população residente e população visitante flutuante”.

“Turismo não é lazer, ficarmos numa praia a dormir, turismo é negócio”

Foto de Nuno TeixeiraLuís Sarmento disse ao @Verdade que em Moçambique “nós temos conceitos vagos em relação ao turismo que nos vai criar determinados tipos de dificuldades a nível daquilo que são os dados macro necessários para se planificar a actividade turística. Porque esta actividade a nível do destino tem que ser planificada, eu não posso pensar que tenho uma praia belíssima e que vou ter turismo ali só porque tenho a praia”.

“Se eu estou numa praia, está vazia, não tenho hotéis, não tenho nada então não há turismo, eu só posso ter turismo quando tiver os hotéis estabelecidos com as camas e, quando os hotéis estiverem estabelecidos, eu tenho que saber o que é que eu tenho além das camas que possa responder às necessidades dos tais turistas que querem ir à aquela praia. Eu tenho que ter condições para prestar serviços de alimentação, de diversões extra, de transporte e comunicações” adicionou o consultor que enfatizou “Turismo não é lazer, ficarmos numa praia a dormir, turismo é negócio e é fundamentalmente criar condições para que a nível do tal destino turístico as pessoas que estão estabelecidas (os empresários sejam grande, médios ou pequenos) possam desenvolver as suas actividades para vender o mais possível aos turistas para que o dinheiro seja retido o mais possível a nível do destino”.

Na visão de Sarmento o “turismo está tão globalizado que nós não podemos absorver tudo, temos que entender nessa cadeia de valor onde nós entramos para tirar partido” como país.

“Existem quatro cadastros dos empreendimentos turísticos e nenhum cruza com o outro”

Do 1.633.936 turistas que, segundo o INE, alegadamente visitaram Moçambique no ano passado os principais países de proveniência foram a África do Sul, com 1.045.322, e o Zimbabwe, com 102.539.

Na perspectiva de Luís Sarmento, “os sul-africanos brancos, e zimbabweanos, gostam de ir durante as férias para um sítio onde podem andar de pé descalço, estarem na areia e pescar numa praia bonita, coisa que eles não têm” e, como nós, “deixamos de planificar o turismo de uma forma correcta, técnica, cientificamente apurada, para nos deixarmos levar pelos acontecimentos porque quem realmente foi desenvolvendo o turismo foi quem tinha a demanda de visitar Moçambique”.

Foto de Nuno Teixeira“Isto é o tal fenómeno dos sul-africanos que vêm para aqui, abrem umas coisas quaisquer nas praias, umas operações que até são teleguiadas porque até são pagas na origem do mercado e eles vêm para cá com vouchers, não declaram muitas vezes as despesas a nível local, como resultado não há transferências para o nível nacional através dos impostos, não há transferências para o nível local através das compras locais, porque eles compram tudo lá fora, e acaba por se descontrolar inclusive o próprio movimento das pessoas que não é traduzido em números para nós podermos ter uma base de dados estatísticos que nos permita planificar os desenvolvimentos dos destinos”, lamentou Luís Sarmento.

É interessante notar que estes turistas sul-africanos e zimbabweanos parecem não ter dormido no nosso país afinal, de acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas, foram registadas somente 409.545 dormidas durante o ano de 2015, os restantes 738.316 não terão pernoitado num hotel ou unidade similar?

Segundo o experiente consultor e operador turístico, “é aqui onde nós temos falhas flagrantes que vão originar que todos esses números que se falam de turistas que visitam Moçambique: são falaciosos, são inventados para dar a ideia que nós estamos em 1,7 milhão de turistas é perfeitamente mentira. Basta calcularmos o número de camas que temos disponíveis, dividir pelo número de dias médio em que o tal turistas está aqui. O número de camas é extremamente vago porque o próprio cadastro não está correcto. Existem quatro cadastros dos empreendimentos turísticos e nenhum cruza com o outro”.

Outro dado estatístico interessante do INE refere-se à taxa de ocupação que foi maior na cidade de Maputo quando sabemos da apetência dos turistas sul-africanos e zimbabweanos pelas praias das províncias de Gaza e Inhambane.

Afinal quantos postos de trabalho gerou o Turismo?

Sarmento aponta o Ministério do Turismo, com a sua pretensão de obter muitos dados, como um dos responsáveis pelo caos existente nas estatísticas do sector. “(…)Ficam preocupados em saber quantas mesas é que existem em restaurantes, quantos trabalhadores existem nos restaurantes enquanto isso não tem nada a ver com turismo. Falam em mais de 40 mil trabalhadores mas incluem os que trabalham em barracas e não tem nada a ver com turistas, o que tem a ver com turismo são todos os serviços prestados à volta do alojamento”.

O Presidente Nyusi, fiando-se nas estatísticas oficiais disse que o sector do Turismo emprega directa ou indirectamente mais de 50 mil pessoas. Entretanto INE apurou que em 2014 apenas 4.513 pessoas trabalhavam em hotéis, pensões ou pousadas, e 1.133 estavam empregados em estabelecimentos de restauração.

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