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Zonas verdes, Combater a pobreza dos outros

Maputo é alimentado pela sua cintura verde. De uma forma geral, nunca faltam couves, alfaces, folha de abóbora, de feijãonhemba, enfim, aquele conjunto de verduras que fazem o básico da alimentação da nossa população. Por linha, também se associam outros produtos da terra que as zonas irrigadas oferecem, entre pimentos, cenouras, espinafres, beterrabas, beringelas. Decididamente, as zonas verdes conseguem alimentar a cidade de Maputo, não apenas de forma epocal, mas ao longo de todo o ano. Só que os produtores destes vegetais vegetam, porque o rendimento mal dá para enfrentarem a carestia da vida.

A vida dura destes camponeses do redor da cidade não encontra a devida compensação no resultado da sua produção, não em consequência de fraca produtividade ou adversidades climatéricas, mas porque os preços pelos quais o mercado absorve a sua produção mal cobrem os custos de produção. Portanto, actuam num ciclo produtivo ficcionado, cavam buracos para tapar buracos e vivem num défice financeiro que os chantageia para continuarem a trabalhar.

A expectativa de dias melhores nunca passa disto. Estamos a falar do sector familiar, numa actividade em que se pretende obter da terra o maior rendimento possível e onde consideramos que os custos não incluem salários. No contexto, visitámos uma destas machambas, na qual trabalha uma família numerosa, composta por cerca de doze membros, que se dedica inteiramente à agricultura.

Esperança Nhabinde dirige uma equipa composta pelos seus seis filhos e noras que estes lhe deram, encontrando o pão de cada dia na lavoura. Casada, cinquenta e sete anos, foi das primeiras a integrar o movimento cooperativo que surgiu no Vale do Infulene em finais da década de oitenta.

@verdade – D. Esperança, diga-nos como é a vida de lavoura e como vai governando o seu exército de filhos noras e netos. Como e o que conseguem com o vosso trabalho da enxada?

Esperança Nhabinde – Neste momento, devo dizer que não estamos bem a viver da agricultura. Simplesmente porque não conseguimos vender a um preço que nos permite recuperar o dinheiro gasto. Apenas por isso. Vejamos, por exemplo, a alface, que podemos tirar uma vez por mês e que nos poderia permitir prever um rendimento mais ou menos fixo. A um preço de oitenta meticais o canteiro, podemos obter oito mil meticais só em alface. Mas isso não acontece. Porquê? No princípio do ano o canteiro vende-se a cento e vinte meticais, mas, por estas alturas de Junho, por trinta meticais faz-se o que se pode considerar um bom negócio. Se o nosso salário é esta alface, como podemos sobreviver com uma descida de cento e vinte para trinta? Estes mesmos trinta meticais não conseguem compensar os gastos que temos com o canteiro. Portanto, saímos com prejuízo. O mesmo acontece com a couve, que baixa de cento e cinquenta para cinquenta meticais, quando falamos de pesticidas que vão de 450 a 1500 o litro, a hortaliça de abóbora e de feijão-nhemba, por aí adiante. Estamos a trabalhar para beneficiar os que vendem nos mercados. Pouco ou muito, esses têm lucro garantido.

@verdade – Mas vocês são uma cooperativa, ainda por cima agregados à UGC. Como é que não concertam as coisas de modo a defender os interesses do grupo em termos do preço a que deve ser entregue o vosso produto?

Esperança Nhabinde – É verdade, nós somos uma cooperativa. Sempre fazemos questão de decidir em colectivo os preços que devemos praticar em cada época, de acordo com as despesas a que temos de fazer face. Mas como cada um parece ter a sua própria fome, aquilo que considera as suas urgências, este acordo é quebrado facilmente. Esta atitude destrói qualquer modelo de protecção dos nossos interesses como camponeses. E os que compram a nossa produção têm sabido jogar com esta fragilidade que temos.

@verdade – Mas, D. Esperança, a senhora tem ido ao mercado e já reparou, com certeza, que os preços não baixaram na mesma medida em que vos obrigam a vender a vossa produção. Qual é, afinal, a questão de fundo?

Esperança Nhabinde – Quem quer saber qual é a questão de fundo sou eu. Quando as vendedeiras regateiam o preço ou nos impõem os valores que querem pagar, afirmam que não tem saída, que acaba por lhes secar nas bancas. Mas, no dia seguinte, voltam porque já venderam tudo. Se tentamos discutir pela lógica do que conhecemos, vão para outro lado e lá contam a história de que nós estamos a vender a metade do preço. A outra pessoa acredita e o produto baixa para muito menos. Quem pode controlar estas manobras? Ninguém, porque cada um está agachado no seu canteiro e nas suas dívidas. No fundo, na luta contra a pobreza absoluta, nós estamos a combater a pobreza das vendedeiras e não a nossa. Se olharmos bem para o que fazemos aqui, é fácil concluir que não é de financiamentos de bancos que precisamos, é que os nossos produtos saiam a um preço justo. Se o banco nos der dinheiro e continuarmos a vender tipo calamidade, vamos ser mais pobres do que já somos…

@verdade – Um beco sem saída este em que se está, portanto?

Esperança Nhabinde – Quando se trata de as pessoas não estarem habituadas a cumprir o que elas próprias decidem, então estamos num beco sem saída. Mas podemos passar esta responsabilidade ao Governo, no sentido de estabelecer um preço mínimo para cada produto à saída da machamba, de acordo com o que são os custos que temos de suportar. Como é que fazem com o açúcar, o arroz, o milho, o algodão, o peixe e o camarão? Nós precisamos deste tipo de leis, porque temos a responsabilidade de alimentar a cidade e nós garantimos que as coisas não tenham de vir da África do Sul.

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