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Xïkwembo – Policial moçambicano

Viajo de Marracuene a Maputo, estou atrasada e numa ultrapassagem mais apressada piso o traço contínuo, a polícia manda-me parar. Documentos, ameaça de multa, conversa, conversa… – Então me acompanhe – saio do carro e sigo a autoridade até uma cabana de caniço. – Então? Onde está patrão? – Patrão?

– Sim, marido, ficou na terra? – Não tenho marido. – Então vemos assim, dá-me lá teu contacto e te convido para sair um dia. – … Chefe, quanto era a multa mesmo? Atravesso a cidade pela Avenida 24 de Julho, sou parada pela lanterninha de polícia: – Boa noite. – Documentos? – Hum… parece que está tudo bem. Se senhora puder só me ajudar com qualquer coisa senhora depois pode seguir. E dois dias depois: – Ah, boa noite, é senhora, eu nem vou ver, tudo deve estar legal.

– Sim, está tudo. – Aqui então tudo bem. Só frio só, não pode me ajudar para uma sopa, eu nem jantei, eu… – Tenho só assim, chefe. – Obrigada e… senhora, és bonita, dá-me lá teu contacto. – Ah pai! Refresco e contacto também não, né? E depois das duas da manhã: – Senhora boa noite. Vai sozinha? – Sim. – Posso entrar aí? E de tarde, acompanhada: – Vem a abraçar mão? Assim na via pública? Não sabe fazer isso lá na sua casa? Assim ainda vai provocar acidente a alguém! – Mas chefe, abraçar mão tem hora? – Hum… documentos! Bom, cunhada Fartaria, então dá lá beijo a mano que lhe acompanha! – Chefe tá a dar ordem? – Dá lá! Hehehe. Ok, tá aqui documentos, podem ir. – Chefe, sabe que este foi nosso primeiro beijo? Com rasta a dirigir carro: – Boa noite, peço documentos. – Aqui está.

– Está tudo bem, obrigada. Rasta man sabe que esse é meu sonho? Eu desde criança que sonho deixar fazer rasta, mas aqui neste serviço imagina, né? Não me permitem nada. Mesmo meus colegas quando vêm rasta a dirigir carro ou na rua logo querem lhe perseguir a procurar drogas e lhe criar problemas, se soubessem toda a beleza que é ser rasta, se soubessem como eu sonho! Meu filho há-de ser rasta! Vão em paz irmãos. Boa noite. Amigos estrangeiros dirigem carro alugado: – A esta hora o senhor se não mentir diz já que bebeu! – Sim, bebi duas cervejas. – Ainda por cima admite.

Tem multa já! – Não, mas isso não funciona assim, tem de fazer teste. – Mas senhor admitiu, paga multa! Visitantes a Maputo, que vêm trabalhar, que vêm passear, que talvez ainda olhem África com os olhos da Europa, exaltam-se com a corrupção, a extorsão, o incomodar dos turistas, o assédio… Longe de mim defender aqui a atitude desresponsabilizada, muitas vezes abusadora das autoridades, mas também é bom ver que polícia também é pessoa, que tem de muitos tipos e também que como se diz no teatro: “Polícia não tem salário, tem mesada!”

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