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Xïkwembo – Do futebol

Quando as pessoas estão a ver futebol eu acho que elas torcem pelo equipamento. Sim! Porque vejamos, determinado jogador, que aplaudem quando joga para num clube, apupam e insultam quando joga para outro. Os treinadores como outro exemplo, mudam de acordo com os contratos, o orçamento e outras coisas pouco ou nada relacionadas com a prática de um desporto.

Ora se alguém torce sempre pelo Benfica ou pelo Ferroviário de Maputo, no fundo torce por um equipamento, porque essa é a única constante! Ok, eu confesso – não sou adepta de nenhum clube de futebol. Não vibro com a proximidade de um jogo, não vou procurar o lugar com o maior ecrã, não faço programa com os amigos nem contra-programa com as amigas. Nem penso nisso. Há um jogo, ok, nice, e então? Porquê tanto entusiasmo?

Não tenho nada contra o desporto, ou este jogo em particular, contra as tácticas, as regras ou a bola (ou esférico como gostam de dizer os comentadores). Nem sou contra as declarações dos jogadores sobre os prognósticos no fim do jogo, os bodes respiratórios, a decisão acertada de perante o abismo dar o passo em frente… É verdade que acho escandalosos os ordenados milionários que o desporto envolve, num mundo onde temos tantos problemas básicos para resolver, mas enfim, não é nada disso que me incomoda.

Apenas… não me toca. Não impeço ninguém de ver o jogo nem tentaria convencer – comprando um maior plasma, instalando TV cabo e recheando a geleira de Laurentina – o namorado a ver em casa. E até posso sair para ver um jogo – no estádio, de preferência – nada contra. Mesmo. Só estranho o fenómeno apenas porque a mim, na verdade, parece-me que as pessoas não gostam do jogo. Mas entusiasmam- se por tudo o resto! As intrigas entre os clubes. Os valores dos contractos milionários, as vidas privadas e médicas dos jogadores, as claques, as vuvuzelas.

O futebol para mim faz parte dos mistérios religiosos – sim, porque é misteriosa a maneira como as pessoas se vestem todas de uma cor, seja ela qual for; usam um cachecol, esteja o clima que estiver; gritam, seja qual for o espaço onde estão, mesmo que seja a sala de estar; sofrem ou rejubilam, qualquer que seja a sua vida emocional… as pessoas praguejam com televisores, insultam relatos de rádio, amaldiçoam feedback nos celulares. As pessoas vivem o futebol. Com plenitude, fervor, fé. Pelo futebol as pessoas deslocam- se, despendem de dinheiro, aguardam horas em filas, suspendem trabalho e abandonam salas de parto. Começou o Mundial. Todos sabemos.

E graças a isso podemos ver grupos de homens barulhentos misteriosamente vestidos de bandeiras a encherem as cidades, os autocarros, os bares. Graças a isso todos sofrem muitas pessoas de ataques repentinos de nacionalismo e a bandeira passa a ser um acessório imprescindível. Porquê? Quem é que em qualquer outra situação acharia normal que se vendessem bandeiras na rua? Eu gosto de desporto e adoro a sua característica performativa – depende de um momento e do talento de várias artes em constante improviso, entregues ao acaso.

Gosto de ver um bom jogo, e entusiasmo-me com os golos, ora até aqui é pacífica a minha companhia a assistir, o problema parece ser que eu me entusiasme com todos os golos… Porque quando me perguntam por quem estou a torcer eu digo que estou pelo que ganhar. Ou seja, eu tanto estou pelo México, como pela África do Sul; pela Alemanha como pela Austrália… estou literalmente por quem jogar melhor. Um bom golo é um bom golo, ou não é?

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