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Xïkwembo – African Time

relação com o tempo é… particular. Todos sabemos e todos dizemos: “o tempo é o que fazemos dele”. Sim, mas poucos o sentimos, a verdade é que para a maioria o tempo é ditador, no relógio, no despertador, na rádio, no djob, em casa… Estou em África, sentada à porta do gabinete do oficial Swahili.

Está calor, estamos na estação das chuvas curtas, chove e faz sol, todos os dias, várias vezes. Eu estou aqui, sentada neste banco de pau, e espero, à chuva e ao sol. Molho-me e seco-me. Espero. Para mim o oficial está atrasado, muito. Mas isso só existe na minha cabeça. Está atrasado duas horas e para mim isto não se faz, não é profissional, é falta de respeito, etc, etc, etc. Mas isso é para mim, alheia ainda aos valores do momento. Passaram uma hora, duas horas, quase três horas de tempo… horas “de tempo”… hum… eu pergunto-me de que poderiam ser feitas as horas senão de tempo… eu impaciento-me.

Não consigo fazer nada. Porquê? Porque espero. Finalmente ele aparece, vestido na sua túnica africana, eu levanto-me de imediato, estou furiosa e preparo-me para o descarregar no culpado. Mas esta não é a verdade, agora sei, o culpado não é ele, sou eu. Ele pára à entrada e conversa com o guarda, pergunta sobre o dia, a chuva, a família, as frutas da época.

Não me olha, encosta- se por um momento na parede, descalça os sapatos, volta a calçar-se, avança, eu avanço de mão esticada, ele não me cumprimenta: – Já viu estas flores aqui, como estão bonitas? – esta apanhame de surpresa, – …Flores? – Sim, estas flores são muito raras e só aparecem nesta altura do ano… – a verdade é que nem oiço, – Sim. Senhor Makwakwa eu estou aqui porque precisávamos de falar sobre… – Hum… é estranho normalmente nestes dias eu gosto de ficar a olhá-las… – Sim, ok. Bom, a situação é que… – não me deixa continuar, – Como esteve aqui todo este tempo pensei que tivesse aproveitado para contemplar – e enquanto abre a porta do gabinete completa – é muito importante o tempo para a contemplação sabe?

Eu sigo-o para dentro do escritório, ele senta-se atrás da secretária, entra uma mulher com uma criança pequena que ele toma no colo, fala com ela em língua local que eu não conheço, e só depois olha para mim: – Sabe, Dona?… – Joana. – Mulher de…? – Não sou casada. – Mãe de…? – Não tenho filhos. – Lamento muito. Mas Ok… Joana. Então, sabe que… – acende uma cigarrilha – eu gosto de contar uma piada engraçada, é só uma piada percebe? Gosta de piadas? – Sim, mas eu vim aqui… – Quando deus criou o homem branco deu-lhe um relógio, quando criou o homem negro deu-lhe tempo…

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