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Wikileaks: encarregado de negócios ludibriou Washington

O “Wikileaks” publicou no seu portal da Internet, na semana corrente, um telegrama da Embaixada dos EUA em Maputo, alegando que o presidente moçambicano, Armando Guebuza, recebeu uma comissão de cerca de 50 milhões de dólares no processo de reversão da Hidroeléctrica de Cabora Bassa (HCB) para Moçambique, que a antiga primeira ministra Luísa Diogo recebe subornos para o partido FRELIMO dos quais se beneficia de uma percentagem, que o parlamentar da Frelimo Manuel Tome “recebe subornos abertamente”, entre outras acusações.

 

 

Segundo Todd Chapman, autor dos referidos telegramas e que na altura desempenhava as funções de encarregado de negócios da Embaixada dos EUA, estas alegações ter-lhe-iam sido passadas durante uma conversa mantida com um empresário não identificado que, nos telegramas do Wikileaks, é citado apenas como “a fonte”.

Contudo, é fácil apurar a referida fonte, pois a mesma era proprietária de uma fábrica de processamento de leite, a única existente em Maputo.

A AIM abordou hoje (sexta feira) a referida fonte de Chapman, que recusou categoricamente não ter dito absolutamente nada a Chapman, a excepção dos problemas que a sua fábrica enfrentava em 2009.

A fonte, que falou na condição de anonimato, disse a AIM que, de facto, a fábrica de leite havia enfrentado uma concorrência desleal de importações de leite e derivados da Ásia e que estavam a arruinar a sua empresa.

Entre os seus concorrentes consta o Grupo MBS, propriedade de Mohamed Bachir Sulemane (que nos meados do corrente ano foi designado de barão de droga pelo presidente norte-americano, Barack Obama), que vendia leite barato importado da Tailândia e Singapura.

O referido empresário protestou junto ao Ministério da Indústria e Comércio, ao director das Alfandegas, tendo também se deslocado ao Grupo MBS “para lhes dizer para desistirem” Contudo, a referida empresa foi salva graças a um acordo rubricado com o Grupo MBS, no qual o MBS tornou-se no único distribuidor, a troco de uma comissão de agente distribuidor de 10 por cento.

A fonte considera essa decisão como tendo sido um bom negócio, e que teve o condão de salvar a sua empresa, mas acabou por vendê-la ao Grupo MBS em 2010.

Ele faz referência a um encontro com Chapman numa recepção nos finais de 2009, e quando o diplomata lhe questionou sobre os problemas da sua empresa, ele acabou por contar.

Na ocasião, Chapman fez uma série de outras questões, “a maioria das quais apenas lhe disse que não sabia. Apenas sabia aquilo que li nos jornais”.

Por isso, a fonte de Chapman ficou estupefacta quando leu o telegrama que Chapman enviou a Washington no início de Janeiro de 2010. Ele ficou muito agastado pelos insultos contra Guebuza e que foram colocados na sua boca.

Chapman cita a fonte como dento descrito Guebuza como “um escorpião violento que poderá vai picá-lo”. “Isso magoou-me muito”, disse a fonte a AIM.

“Eu nunca seria capaz de insultar o presidente. Tenho muito boas relações com o presidente. Ele sempre comportou-se comigo como um cavalheiro”.

O mesmo sucede com as alegações de que ele teria dito a Chapman que Luísa Diogo “estava altamente envolvida em aceitar subornos para a Frelimo, dos quais ela tirava uma percentagem”.

A fonte refuta, afirmando nunca ter dito nada do género a Chapman. Antes pelo contrário, ele nutre uma grande admiração por Diogo. Ele referiu que “se houve uma pessoa que ajudou a salvar a nossa empresa, foi Luísa Diogo, quando ela era ministra das finanças” (na altura quando a fábrica de leite enfrentava sérios problemas devido ao elevado preço de açúcar).

Prosseguindo, o telegrama de Chapman refere que “a fonte disse que ele, pessoalmente, havia visto Manuel Tome, antigo secretário-geral da FRELIMO, membro sénior da Assembleia da Republica e familiar do Presidente Chissano, nos escritórios do MBS a receber pagamentos abertamente”.

Porém, a fonte refuta categoricamente ter feito tais acusações contra Manuel Tomé. “Nunca, nunca vi Manuel Tome nos escritórios do MBS”, disse a fonte, para de seguida acrescentar “porque razão o MBS haveria de me chamar para um encontro no qual Tomé estaria a receber subornos?”.

O próprio Tomé disse a AIM que quando leu os telegramas sentiu uma grande vontade de rir por causa de tais absurdas alegações. “Eu não faço coisas do género”, disse ele. “Eu não recebo comissões ou subornos”, acrescentou.

Sobre a suposta relação existente entre Tomé e Chissano, apenas revela a ignorância de Chapman da geografia de Moçambique. Chissano nasceu na província de Gaza, no sul de Moçambique. Tomé, por seu turno, pertence a um grupo étnico totalmente diferente, na província central de Manica.

Os telegramas de Chapman incluem uma lista de empresas que alegadamente pertencem a Guebuza. A fonte disse nunca ter fornecido a referida lista a Chapman, e que não faz nenhuma ideia das empresas pertencentes a Guebuza.

A lista também inclui uma grande asneira, quando alega que “Guebuza também possui acções na Iniciativa Logística do Corredor de Maputo (MCLI) que controla a Estrada Nacional número 4, (EN4), que liga Maputo a Africa do Sul”. Contudo, Guebuza não pode ter “acções” na MCLI pelo facto de não ser uma empresa.

A MCLI é uma organização sem fins lucrativos, que congrega empresas sulafricanas, moçambicanas e investidores numa tentativa de aumentar o uso das ligações rodoviárias e ferroviárias existentes entre o porto de Maputo e a vizinha Africa do Sul. Ademais, esta organização não controla a portagem.

No caso vertente, Chapman terá feito uma confusão com a Trans-African Concessions (TRAC), uma empresa sul-africana que realmente está a fazer a gestão da EN4.

Talvez a acusação mais grave que Chapman coloca na boca da fonte é quando alega que no processo de reversão da HCB de Portugal para o governo moçambicano, Guebuza teria recebido “uma comissão estimada entre 35 a 50 milhões de dólares”.

Estas alegações deixaram a fonte surpreendida. “Como é que eu poderia saber isso”, questionou a fonte. “Onde é que eu haveria de obter tal informação?”, acrescentou.

De facto, é difícil entender como é que o proprietário de uma fábrica de processamento de leite estaria a par das negociações sobre o futuro da maior barragem do país. O telegrama de Chapman não revela quem teria pago a alegada comissão.

O Estado moçambicano adquiriu 85 por cento das acções da HCB, da companhia concessionária da barragem, através de um empréstimo no valor de 700 milhões de dólares de um consórcio de bancos franceses e portugueses.

O telegrama de Chapman refere que o empréstimo foi negociado através de “um intermediário de Guebuza”. Mas nenhum tal intermediário esteve evolvido.

Na verdade, o governo moçambicano lançou um concurso internacional no início de 2007 para seleccionar o banco ou bancos que haveriam de financiar a aquisição da HCB, tendo posteriormente contratado uma companhia internacional de auditoria para analisar as propostas.

Apareceram cinco concorrentes, tendo sido apurada a proposta mais favorável feita por um consórcio formado entre o banco francês CA Lyon e o Banco Português de Investimentos (BPI).

As complexas negociações para a reversão de Cabora Bassa levaram vários anos. As mesmas envolveram dois governos estrangeiros, nomeadamente Portugal e Africa do Sul, e os bancos que financiaram o acordo.

Qual destes intervenientes poderia dispor de 50 milhões de dólares como suborno para Guebuza? E se tiver havido esse suborno, porque razão nenhuma pessoa passou essa informação a imprensa portuguesa ou sul-africana?

“Sinto que fui usado. Tudo isso não passa de uma agenda pessoal de Todd Chapman. Obviamente, que ele pensou que eu nunca haveria de ler aquilo que ele escreveu”, disse a fonte de Chapman.

O diplomata americano simplesmente aproveitou-se das tribulações da fábrica de leite da fonte e depois ele incluiu todos os outros rumores que ele ouviu em Maputo.

Chapman mentiu a Hilary Clinton e os seus superiores no Departamento do Estado, colocando as alegações mais absurdas na boca de um empresário honesto. Esta foi a jogada de Chapman, espetar uma faca no governo e partido no poder que ele detestava abertamente.

Ele sabia que haveria de deixar Maputo num futuro próximo (actualmente encontra-se na Embaixada dos EUA no Afeganistão) e, por isso, enviou uma compilação de meias-verdades, rumores e ficções a Washington.

Certamente, que Chapman nunca imaginou que o público haveria de ler as suas obras de ficção. Ele não contava com a Wikileaks, que acabou por mostrar ao mundo a face ociosa e falsa daquilo que passa por diplomacia americana.

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