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‘@ Verdade Solta – Um dia de cão

Era um dia igual a qualquer outro. Aliás, diga-se em abono da verdade, não tão idêntico como pretendo fazer crer. Tem-se dito que “cada dia é um dia”, embora não concorde muito com essa afirmação.

Às vezes, temos que concordar com certas coisas só para nos sentirmos vivos.Este é o meu caso e, certamente, de muitos. Rogo não desviar a atenção dos seus afazeres com esta missiva. Os digníssimos leitores têm sido pacientes em ler as minhas histórias descabidas durante muito tempo e naturalmente estou muito grato pela paciência. Se calhar porque também se revêem nas situações insólitas que me sucedem. O que vos tem valido é o vosso domínio da arte de viver no mundo individual.

Já devem estar a perguntarse: “Aonde é que este tipo pretende chegar com todos estes salamaleques?”. Coincidência, milagre ou não, já ia direito ao assunto. Dizia, foi num desses dias úteis de semana em que temos que cumprir com os nossos compromissos laborais. Fazendo jus ao dito popular segundo o qual “saco vazio não fica em pé”, fui à cozinha do local onde trabalho, com o fito exclusivo de tomar chá.

Quando preparava o chá, fui interpelado por um exército de recordações dos meus dias áureos, época em que eu era um petiz irrequieto. Lembrava- me do pai da minha vizinha, pela qual eu andava febricitante, queixando-se aos meus pais, dizendo que eu desencaminhava a sua filhinha. O que o pai da vizinha não imagina é que nas nossas brincadeiras de “papá e mamã”, eu era a vítima.

O meu pai, como bom autor desses profissionais de Hollywood que recebem prémios todos os anos pelo seu desempenho, zangava-se comigo em frente do vizinho, mas quando este fosse embora dizia: “Este é realmente meu filho! Inteligente como o pai. Continua, ouviste? O vizinho que cuide da filha dele.”

E quando tinha problemas na escola, relacionados com o excesso de faltas e notas negativas, ele dizia à minha querida mãezinha: “Tu não sabes educar o teu filho… olha só para ele, não gosta de escola, puxou à tua família”. A minha mãe aproximava-se de mim e dizia: “ Se fosse possível devolver-te aos testículos do teu pai, já o teria feito há anos atrás…” Enquanto navegava nas lembranças, caminhei sorrateiramente até à sala onde funciona a Redacção do jornal.

Inconscientemente, peguei na chávena de chá, na verdade era uma caneca, que na minha terra apelidaram de “vai-te embora”, onde cabe nela quase um litro de qualquer líquido. Longe de pensar que o chá havia atingido o ponto de ebulição, quis-me certificar da quantidade do açúcar, e, para minha infelicidade, queimei a língua. Atordoado e rude, enchi a minha perna de raiva e ódio, e estiquei um pontapé na mesa onde jaz o computador. A mesa chiou como que dizendo:

“Seu parvalhão, que culpa tenho eu de o chá estar quente?”. Olhei para o chão, estava lá o teclado e o mouse do computador em pedacinhos. Triste, decidi ir para casa descansar porque a minha perna estava dorida. Sentia uma dor intensa, na verdade o que mais me doía não era o pé, embora estivesse inchado. Mas sim o facto de ter de pagar um teclado novo para substituir o quebrado que já estava obsoleto. No teclado mal se via qual era a tecla “A” ou “B”, tinha de usar búzios que herdei do meu tataravô para identificar as teclas e as respectivas letras.

A caminho de casa manquejando, fui abordado por um jovem. Vendo o meu rosto deprimido, ofereceu-me um folheto e convidou-me para a sua sinagoga garantindo que os meus problemas seriam resolvidos num ápice, até os mais cabeludos. Olhei para ele desdenhosamente, deume vontade de lhe dizer que, naquele preciso momento, eu estava de relações cortadas com os deuses ou qualquer outra espécie de milagreiro que por aí pulula. Fui-me embora sem lhe dar uma resposta.

 Cheguei à casa, pus-me a ler a história que me propus estudar sobre Abraham Lincoln. Assim o dia foi-se, a noite caiu e, pressentindo mau agoiro, decidi ir-me deitar antes que me acontecesse mais uma desgraça.

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