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‘@ Verdade Solta – O muro da desgraça

Quatro horas da manhã. O sol levantou-se mais cedo. O dia já se sente agastado. O vento sopra. Os pássaros espreguiçam-se. Casas com cobertura de palha e outras sem cobertura. Móveis de barro. Portas de zinco. Panelas esfomeadas.

Aparelhos de TV e áudio danificados. Roupas penduradas nas mangueiras. Veículos sem roda. Odor insuportável. Ruas camufladas de sangue. Palco de suicídio. Tristeza no sorriso dos homens. Aversão à sabedoria. Atitudes nefastas. Pactos com a droga. Palavras intoxicantes. Corações estilhaçados. Fé incógnita. Deus omniausente. Tossir da arma. Habitat da desgraça.

Periferia de uma dessas cidades capitais que surge num desses séculos por vir e quando o mundo deixar de ser mundo. – Socorro..! Grito aterrorizante e anónimo. Corações insensíveis. Almas insatisfeitas e inundadas por lágrimas que saltam dos olhos tristes. Sangue dicromático. Ouvidos entupidos pela injustiça. Silêncio incompreensível. – Ouviste? – O quê? – Barulho de uma arma seguido de um grito triste. Silêncio ofegante. Mentes obscurecidas. Raciocínio estagnado. Percepção obstruída.

O alvorecer do dia. O céu pardacento torna-se brejeiro. As nuvens estonteiam-se. Ouvem-se súplicas abarrotadas de mau augúrio. Prenúncio de desgraça. Nada de novo: o dia levantou-se como uma trovoada trazendo consigo nuvens escuras carregadas de fadiga e soltando aroma nocivo. O muro que separa a periferia e a cidade manchado de sangue fresco. Corpo estatelado no capim invadido pela cacimba maligna das noites frias indesejadas. A multidão aproxima-se. – Mais um que se foi! Murmúrios. Lágrimas secas. Olhares apreensivos. A multidão olha para o corpo devorado pelas balas conscientes.

Do outro lado do muro, a polícia acaricia as armas empanturradas de balas, vigiando a longa avenida e o muro que separa os nobres dos pés descalços derretidos pelo sol sem brilho dos dias de sofrimento. – Muindemba, veja aquilo. – O que é que se passa? – Está ali uma multidão de gente aglomerada perto do muro. – Já bem te disse antes, que é mais um que se foi. – Tu falas com tanta naturalidade… – Olha Kaputsa, aqui neste bairro morre-se todos os dias. As pessoas saltam o muro à procura de comida. Aqui não é como a zona onde vivias em que, felizmente, vocês tinham uma lixeira em que os supermercados depositam produtos fora do prazo ou estragados.

Não se tratava de muro de opressão e tão-pouco de lamentações, mas o muro da desgraça que conscientemente separava os subúrbios da cidade. Era interdita a entrada dos indivíduos dos subúrbios na cidade. Os que lá se faziam não passavam de meros indigentes responsáveis pela limpeza de toda a sujeira e outros trabalhos escravos. Silêncio. A multidão dispersa. Murmúrios, desta vez altissonantes.

Muindemba aproxima-se da janela, lança um olhar para a rua e sacode a cabeça. As lágrimas invadem os seus olhos cansados de ver vítimas da hipocrisia humana. Num tom triste e inconformado, diz: – Com certeza, é mais um que tentava entrar na cidade à procura de alimento. Se ficares aqui o dia todo verás quantos se vão. Afinal, estes episódios repetem-se todos os dias.

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