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“Vejo as crianças como aquilo que vem à minha frente”

“Vejo as crianças como aquilo que vem à minha frente”

Para os adultos é a Filipa Casimiro, tem 31 anos, e trabalha em relações públicas. Para as crianças é Maria Boneca, tem seis anos, pestanas grandes, um coração pintado na boca e um rosto sardento. A propósito do Dia Mundial da Criança – 1 de Junho – @ Verdade falou com “elas”.

Filipa Casimiro tem 31 anos e Maria Boneca 6. Duas personagens, o mesmo corpo. “Sou licenciada em Relações Públicas e Publicidade e palhaça há cerca de 14 anos”, esclarece Filipa.

Em Portugal – o seu país de origem – foi professora de teatro, teve uma companhia itinerante em que juntava dança e teatro e paralelamente terminou o curso Relações Públicas e Publicidade. Há seis anos, ainda em Lisboa, vestiu a pele de Maria Boneca, e hoje, em Maputo, onde chegou há uma ano e meio, a maior parte da criançada só a conhece por esse nome.

“Sou apaixonada por bonecas de trapos e a Maria Boneca é como uma boneca de trapos que fala. Tudo partiu de uma história que tinha em casa”, explica Filipa. Outra razão da criação desta personagem prende-se com o facto de Maria Boneca não ser uma palhaça porque a maior parte das crianças tem medo dos palhaços.

“Assim fica muito mais fácil captar a atenção das crianças”, esclarece. Filipa atribui este receio ao rosto pintado do palhaço, às histórias que ouvem desde sempre e “muitas vezes são as próprias mães que têm fobia dos palhaços e incutem-lhes esse medo.”

Filipa utilizou uma táctica para dissipar o medo: “A partir do momento em que as fiz construir o palhaço deixei de ter esse problema.” No teatro o Dudu (Francisco, o companheiro de actuação) adormece e são as crianças que o pintam e o vestem.

“Um rapaz simples chamado Dudu transforma-se num palhaço. A partir daí é tudo mais fácil.” Já Maria Boneca, inspirada na Emília da série infantil brasileira Sítio do Picapau Amarelo, tem umas pestanas compridas como as bonecas normais, um pequeno coração na boca e umas sardas no rosto. “Nada que assuste as crianças.”

Este ano, no Dia Mundial da Criança (1 de Junho), Filipa irá actuar na Feira da Criança que terá lugar nos dias 4 e 5 de Junho na FEIMA, em Maputo.

“Vou voltar a ser a Maria Boneca e o Francisco o Dudu. Vamos ser os apresentadores de um circo. Fomos buscar a arte circense aqui dentro de Maputo. Poucos sabem da sua existência, mas ela existe. Temos uns cuspidores de fogo, cinco acrobatas da federação de ginástica, um mágico, bailarinos. Com tudo isto vamos fazer um pequeno circo para as crianças.”

O circo da vida

Filipa, quando resolveu ser palhaça e criar a sua personagem, assumiu “que a vida é um circo com um palco um bocadinho maior. Vejo as crianças como aquilo que vem à minha frente, esperando sempre um futuro melhor.” Ao encarnar a personagem circense pretendeu também mudar um pouco a imagem do palhaço.

“Elas (as crianças) ao construírem o palhaço têm consciência de que é uma pessoa que está ali pintada e mascarada, simplesmente para dizer umas piadas, fazer rir, cantar e dançar. Apaixonou o facto de ter, como todos nós acho, um bocadinho de criança dentro de mim. É uma forma de eu me divertir, divertir as crianças, e ao mesmo tempo passar-lhes algumas mensagens.”

E como se agarra uma assistência de crianças? “Elas gostam sempre de uma queda, a música é também muito importante, estabelece muita ligação. Deve-se ir buscar assuntos diários, situações que as crianças vivem no dia-a-dia, na escola, com os amigos, com os pais. Como eles se revêem na história, acabam por ficar presos.”

Embora haja sempre um fio condutor, o improviso está sempre presente quando se trabalha com crianças. E cada público é um público.

“A nossa linguagem ter de se adaptar ao público. Quando actuamos, por exemplo num orfanato ou para uma comunidade fazemo-lo de uma forma completamente diferente de quando actuamos numa festa de aniversário ou para os filhos dos funcionários de uma empresa. A grande diferença que noto é que os primeiros começaram a ser adultos muito cedo. Houve ali uma fase em que não gozaram a infância por isso divertem-se muito com todas as piadas, mesma que a graça seja, em princípio, para crianças mais novas.”

Maria Boneca viveu um momento particularmente agitado numa acção de solidariedade que foi fazer a uma escola. “Quando apareci de Maria Boneca correu tudo bem. Depois, quando me vesti de palhaço começaram-me a puxar por todos os lados, descoseram-me a roupa, quando tentei pintar-me magoaram-me, meteram-se todos em cima de mim. Mas atribuo isso mais à euforia do que a outra coisa.”

Mas, para Filipa, a maior satisfação nesta profissão “é não deixar de acreditar que todos os dias aprendo com as crianças. Isso ajuda-me a não levar tão a sério a vida.”

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