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Uma vida madrasta

Uma vida madrasta

A história do jovem Albashir equipara-se a de tantos outros moçambicanos espalhados pelo país. Desde que perdeu a sua mãe, a sua existência é marcada por episódios inesperados. Mas a enorme vontade de voltar a sentar-se no banco de uma escola e mudar a sua vida e a dos irmãos torna-o diferente.

Albashir Titos Buque, natural de Zavala, província de Inhambane, tem 19 anos de idade e vive em Maputo desde 2008. Sempre viveu com o seu pai e a madrasta, mas na semana passada a sua história ganhou um novo rumo: foi expulso de casa pela madrasta.

Dos três irmãos, ele é o mais velho. Foi na “terra de boa gente” que começou a estudar, tendo concluído a sétima classe. Porém, viria a interrompê- los quando transitou para a oitava. O seu pai, que já há muito tempo viera fixar residência algures na cidade de Maputo, deixou-o sozinho em Inhambane e veio viver maritalmente com outra mulher.

“Quando vim a Maputo, pensei que o meu pai pudesse matricular-me. Não o fez porque alegadamente não tinha dinheiro. Na verdade, eu acho que ele não quer que eu estude. Volvidos cinco anos, será que ainda não tem condições para me pôr na escola?”, questiona.

Órfão de mãe, Albashir vive literalmente um calvário que até aos dias de hoje teima em não passar. É neste momento que ele diz sentir a eterna falta da sua mãe, a qual deixou três filhos, agora entregues à sua sorte, embora estejam a viver com o pai.

Mas, por detrás do descaso pela educação dos filhos, o jovem não só culpa o progenitor como também a sua madrasta. “Ela não nos quer ver por perto desde que decidimos viver ao lado do nosso pai. Não nos vê com bons olhos, maltrata-nos constantemente”.

Ele conta que era privado de algumas refeições pela madrasta e para não morrer à fome, optou por fazer alguns biscates. “Eu fazia tudo, desde que fossem trabalhos honestos. Nunca gostei de roubar, muito menos ganhar dinheiro fazendo mal aos outros”, confessa.

Há sensivelmente dois anos que Albashir se dedica ao negócio de sucatas. Ele trabalha numa das oficinas espalhadas pela capital. Diariamente, o patrão aloca um determinado valor para servir de compra de sucatas nos bairros. Faz as suas incursões com a sua carrinha de mão, vulgo “txova”, e um megafone na mão.

Diga-se, em abono a verdade, que Albashir não consegue dizer e muito menos faz ideia de quantos quilómetros percorre por dia. Mas o que não escapa à sua memória é que todos os dias, excepto aos Domingos, tem de partir de Mahlazine para Muhalaze, empurrando o “tchova”.

“Saio do estaleiro com 400 meticais no bolso. Com este valor tenho de ir atrás das sucatas. Só não há trabalho nos dias de chuva. O sol, ainda que abrasador, não interrompe a jornada”, conta.

Jogar no escuro

O trabalho exercido por Albashir e tantos outros jovens é um tanto ou quanto inseguro do ponto de vista de remuneração. O salário não é mensal. O seu rendimento é em função do que produz. “Compro as sucatas a três meticais o quilo e revendo a mesma quantidade ao meu patrão por cinco meticais. Portanto, a diferença é que constitui o meu ganho”, explica.

Dos 400 meticais que leva por dia tem de subtrair 25 meticais para a alimentação. Não raras vezes, passa uma refeição por dia uma vez que a madrasta, segundo afirma, não lhe dá nada para comer. “Ela diz que quer castigar-me porque eu não sou filho dela e que para eu sobreviver tenho de me virar, pois já sou crescido. Já os meus dois irmãos mais novos não passam por esta situação porque ainda não podem desenrascar”, afirma.

Insensibilidade do pai (?)

Titos Buque é o pai de Albashir. Já há anos que parece não estar a tomar conta dos seus três filhos cuja mãe, Domingas Tivane, perdeu a vida em 2004. Embora seja trabalhador do Ministério do Interior, não os consegue manter na escola.

“A minha irmã, que frequentava o ensino primário (5ª classe), interrompeu os estudos por falta de cadernos e outros materiais escolares”, desabafa e reitera que “nestes cinco anos que estou nas mãos dele, ainda não consegui matricular-me para frequentar o ensino secundário. Já estou a ficar atrasado. Por isso, custe o que custar, tenho de voltar aos bancos da escola no próximo ano”.

Expulso pela madrasta

Na sexta-feira passada, dia 18, o jovem Albashir teve o azar de ser expulso de casa. Segundo conta, tudo começou quando o pai e a madrasta se desentenderam.

“O meu pai é doente já há anos, talvez seja por isso que facilmente foi dominado pela mulher e eu vendo que ele estava mal fui separá-los. Essa atitude foi suficiente para, no mesmo dia, ser expulso por ela. O meu pai ficou indiferente”.

Estas medidas da madrasta foram tomadas ao mesmo tempo que eram proferidas palavras injuriosas. Vendo que efectivamente não havia condições para permanecer naquele lar, no dia seguinte, procurou instalar-se em casa dos seus tios, no bairro Zona Verde, onde actualmente reside e o encontrámos.

O estado da casa (de caniço) em que ele se encontra é precário. “Não interessam as condições em que a casa se encontra, basta que eu esconda a minha cabeça e veja a noite passar. Não esperava que o meu sofrimento pudesse chegar a este ponto”, diz.

O dinheiro é que os tornava “amigos”

No entanto, no meio da sua azeda relação de familiaridade com a madrasta, havia momentos de alegria entre ambos. Para tal, segundo afirma, “bastava ter dinheiro no bolso, éramos grandes amigos. Conversávamos de tal maneira que ela disfarçava o quão era inimiga e minha adversária, embora eu desconheça as razões disso”.

Na semana passada, durante as suas caminhadas pela zona de Missão Roque, na cidade de Maputo, Albashir sofreu um ligeiro acidente. De repente, conta ele, uma mota foi embater na sua carrinha de mão e esta, por sua vez, feriu-lhe na mão direita.

“A pessoa que estava a conduzir a mota reconheceu a culpa e disse que ia responsabilizar-se. Só que, ao invés de ele me levar ao hospital ou a uma unidade sanitária mais próxima, disse que tínhamos de ir à farmácia. Chegados lá, os agentes disseram que ele tinha de me levar ao hospital. Mas tal não se efectivou alegadamente porque ele não tinha dinheiro”, diz.

Um sonho corroído

Albashir sonha em ser professor. “Tenho gosto pela transmissão de conhecimentos aos outros. Decidi seguir este ramo porque eu sei que posso relacionar-me bem com os alunos.

Um dia hei-de realizá-lo, apesar de estar atrasado. Ainda tenho muita vontade de aprender. Só ensina quem sabe alguma coisa e eu quero aprender para poder ensinar aos outros”, termina, visivelmente esperançado de que tal desiderato se concretize.

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