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Uma profissão que exige coragem

Uma profissão que exige coragem

Debaixo da cortina de betão do cemitério há uma profissão que exige coragem. O salário é magro e as condições de trabalho desrespeitam os homens que dão a vida pelos mortos dos “outros”. À chegada, o cemitério de Lhanguene esconde a história de vida de Benjamim Dias – que trocou o mundo do crime pelo sepultamento de mortos – e de Costa Guambe que afirma que a sua profissão “é para homens verdadeiramente corajosos”. Quando há guerras, dizem, o volume de trabalho aumenta. Há coveiros efectivos e biscateiros e pelos rosário das vidas dedicadas à morte, Lhanguene parece o fiel depositário de uma história que merece ser contada…

Costa Guambe, de 56 anos de idade, gaba-se de conhecer na plenitude a geografia do maior cemitério da capital do país. Com 27 anos dedicados unicamente a enterrar os restos mortais do seus semelhantes parece saber tudo sobre a morte. Ora com a pá na mão, ora nas costas, Guambe, apesar do avançar da idade e do tronco curvado – como se quisesse abraçar as campas – ainda tem forças para enterrar os que perecem. “É tudo uma questão de hábito, meu filho. Não há, no sepultamento, nada que envolva o além. O que é necessário é coragem para certas situações”, conta.

Efectivamente, a relação com a morte, através do sepultamento, começou em 1987 quando acabava de chegar a capital do país ido do distrito de Inharrime, na província de Inhambane. Afirma, sem muita certeza, que contava 29 primaveras. Nunca, porém, lhe passou pela cabeça dedicar-se ao acto de garantir uma morada aos mortos. “Nem pensar”, dizia convicto quando um conterrâneo lhe disse que o Conselho Municipal de Maputo estava a admitir pedreiros.

A natureza, no entanto, tece os fios do destino de uma forma fora do alcance da compreensão dos mortais e Guambe foi apanhado pelo estômago. Sem economias para sobreviver numa cidade grande, teve de escolher entre deixar a fome e engolir o preconceito ou ignorar a possibilidade de emprego e arrastar-se pelas ruas da urbe como um mendigo. A escolha, conta, foi imediata apesar de considerar que, na altura, “ser coveiro era visto como um trabalho para gente anormal”.

Por isso, diga-se, “não foi uma decisão tomada de ânimo leve”, mas pesou “a ideia de que na vida, tudo é uma questão de mentalidade”. Sem contudo, contar que “sem estudos não tinha grandes alternativas”;por isso “aceitei o desafio”. Nos primeiros dias, conta, teve inúmeras dificuldades. Tudo lhe parecia pertencente a um mundo estranho e misterioso. “Tinha medo e em casa sonhava,tinha pesadelos ligados aos mortos que enterrava”. Nessa altura, com alguns dias de trabalho, pensou em desistir. “Aquilo não era vida para mim”, pensava.

O teste de fogo

Uma semana depois de ter optado pela profissão “tive um exame que me vacinou definitivamente contra o medo”. Um grupo de pessoas levou uma das nossas equipas para o Hospital Central de Maputo. “Pensávamos, na ocasião, que se tratava de uma coisa que estivesse ligada à burocracia. Qual não foi o meu espanto quando nos foi revelada a missão”, conta.

Na teoria, diz, pode parecer simples. Contudo, Guambe e mais cinco colegas recém-admitidos tinham de levar restos mortais que não foram reclamados por ninguém e colocá-los em sacos plásticos.

“Os corpos estavam num avançado estado de decomposição e tivemos de os levar ao cemitério para enterrá-los na vala comum”, refere. Apesar dos anos de experiência, este episódio que Guambe designa de “vacina contra o medo” não lhe sai da cabeça. “Foram 30 corpos e só tínhamos uma semana de trabalho”, afirma para justificar o facto de o sucedido se ter colado à memória. “A partir daquele dia, nunca mais tive medo do que quer que fosse”.

O trabalho indigno

O ritual de levar os corpos não identificados do hospital para a vala comum acontece até hoje e Guambe sabe que, pelo menos três vezes por semana, terá de lidar com o mesmo. “É o trabalho mais indigno e corajoso que um coveiro enfrenta () os corpos são, em regra, os que estão em mau estado de conservação,” afirmou para depois problematizar: “depois de um trabalho desses, um coveiro precisa de tomar leite fresco, mas actualmente já não nos dão e nem a máscaras temos direito.” Nas duas décadas e meias que o nosso interlocutor dedicou à profissão de coveiro constatou que os acidentes e a guerra dão mais trabalho porque ceifam mais vidas humanas.

Guambe afirma que qualquer coveiro sabe que um acidente de grandes proporções significa uma enorme carga de trabalho. Aponta, como exemplo, o acidente de 25 de Maio de 2002, em Tenga, no qual um comboio descarrilou e ceifou 200 vidas e fez outros 150 feridos. “Tivemos que fazer várias covas ao mesmo tempo, trabalhámos como escravos. Os Caminhos-de-Ferro de Moçambique reservaram um enorme espaço para sepultar as vítimas mortais do acidente”, diz.

“As guerras também dão um enorme trabalho: há vários corpos não reconhecidos ou não identificados que precisam de ir à vala comum. Muitos desses corpos aparecem dilacerados, mutilados e até carbonizados”, refere para dar a entender que durante a guerra civil teve “muito trabalho”. “Consegues ter a ideia de como fica o corpo de um soldado carbonizado e putrefacto?”, questionou para depois acrescentar: “foi preciso carregar centenas de corpos de militares e civis e simplesmente depositá-los para a vala comum”.

O orgulho

As dificuldades da profissão de Costa Guambe permanecem debaixo de uma cortina de lágrimas e escondidas pelos grandes muros do cemitério do Lhanguene. No entanto, as adversidades não impedem o coveiro mais antigo daquele cemitério – agora transferido para o novo cemitério em Michafutene – de se orgulhar da profissão que abraçou. Trata-se, contudo, de um amor que se foi construindo ao longo do tempo. “É uma profissão para homens verdadeiramente corajosos e dispostos a servir a maioria,” explica.

Casa própria

Graças à profissão, tem casa própria, no bairro da Zona Verde, na periferia da cidade da Matola. Guambe é pai de seis filhos, mas só conseguiu contrair o desejado matrimónio no ano passado, apadrinhado programa municipal de casamentos colectivos. “Lembre-se de que tudo na vida precisa de alguém para fazer. Todas as profissões são dignas… e alguém precisa de ser sacrificado para beneficiar a maioria se. Pare e pense e diga como seria um mundo sem coveiros”, alertou.

Uma dor de cabeça

Exumar corpos é uma das grandes dores de cabeça para um coveiro. Quem assim afirma é António Araújo, de 43 anos de idade, que trabalha naquele cemitério há 10 anos. “É duro desfazer com apenas uma pá um sepulcro até encontrar os restos mortais. Se o terreno for muito húmido, às vezes encontramos ossos molhados e isso é um pouco assustador,” explica para depois esclarecer: “o cemitério de Lhanguene está oficialmente encerrado. Neste momento só as famílias que têm reservas podem enterrar os seus entes”.

Na verdade, as famílias que já tiverem enterrado alguém podem usar o mesmo espaço desde que tenham passados seis anos. O processo consiste em tirar os restos mortais que estavam no lugar e guardar numa caixinha com por cima do caixão do novo cadáver.

António Araújo conta que além de atirar corpos na vala comum exumar é um trabalho para poucos. “Muitos já desistiram”, diz ao mesmo tempo que reclama de salário que alega ser exíguo. Com 10 anos de carreira afirma ter 2.000,00 meticais como vencimento mensal. Mas os problemas não param por aí para quem olha para o passado com algum saudosismo: “antes davam sabão para lavar o uniforme, mas hoje em dia isso já não acontece”.

Eles sempre levam algum para casa

Na prática, os coveiros ganham mais do que o salário mensal. O vencimento mensal é apenas para os efectivos, pois o coveiro ganha diariamente por cada cova que faz. Ou seja, as famílias enlutadas desembolsam 200,00 meticais para o coveiro que for solicitado. Existem também os não efectivos, vulgarmente conhecidos como biscateiros.

Benjamim Dias é um desses coveiros, o qual trocou o mundo do crime pelo acto de dar morada aos mortos. A sua história, no entanto, tem mais sentido na primeira pessoa: “Estou aqui há 9 meses como biscateiro, tenho 37 anos, e sou natural de Quelimane. Um primo convidou-me porque, por falta de ocupação e para garantir a sobrevivência,dedicava-me aos assaltos.”

Dias afirma que foi fácil deixar o mundo do crime porque abraçou uma profissão que não acarreta riscos. “Eu saio de casa e volto inteiro e sem prejudicar o próximo”, reflecte. Nem sequer o número elevado de biscateiros efectivos é capaz de demover Dias do caminho da honestidade. “Há dias que chego a amealhar 1.000,00 meticais”, diz.

Nem tudo termina nas covas

Para além de fazer covas há outros negócios, tais como a venda de água e o tratamento de alguns túmulos. Cinco litros de água, por exemplo, custam 10,00 meticais. Para fazer um sepulcro ou túmulo são cobrados entre 800,00 meticais e 1.800,00, dependendo do tamanho, material e desenhos a serem feitos.

Benjamim Dias sente-se grato por poder ganhar a vida honestamente. Afirma ter tido dificuldades no início para se adaptar ao trabalho. Conta que a sua mente era povoada por imagens de mortos e não conseguia dormir. Com o tempo as imagens assustadoras esfumaram-se e hoje nada teme. “ Sinto-me feliz, porque a vida que estava a levar não era legal nem aquela que desejava. É preferível trabalhar duro e ganhar honestamente. A minha meta é tornar-me um efectivo do cemitério. Preciso que depositem confiança em mim,” afirma.

As normas

Todas as profissões têm as suas próprias regras e a do coveiro não foge a esse desiderato. As covas que acolhem os mortos têm medidas padronizadas. Ou seja, não são feitas ao sabor do acaso ou do livre arbítrio. Efectivamente, uma sepultura para um adulto mede 2,20 metros de comprimento, 0,80 de largura e 1,70 metros de profundidade. Para crianças maiores de 7 anos de idade temos: 1,70 metros de comprimento, 0,60 de largura e 1,15 de profundidade. Para os menores de 7 anos: 1,30 metros de comprimento, 0,50 metros de largura, e 1,50 metros de profundidade.

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