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Uma mãe que devia ser filha

Uma mãe que devia ser filha

Contrariamente a outras meninas da sua faixa etária, Laurinda, uma adolescente de 15 anos, a viver no Bairro Maxaquene, em Maputo, tão cedo conhece a dura existência de dirigir uma família e velar por duas irmãs mais novas, uma provação que iniciou quando a mãe morreu.

Rosto triste, olhar penetrante e penoso são os traços mais notáveis em Laurinda, uma moça, que sobrevive à intempérie cuidando das irmãs. Tinha 11 anos quando o SIDA lhe tirou a mãe, o único ser com quem podia contar. Afinal, além de lhe trazer ao mundo foi sua mestra, seu escudo protector, sua companheira e amiga nos momentos difíceis. Com essa mulher que tão cedo partiu, Laurinda aprendeu a dar os seus primeiros passos. Foi ela quem lhe corrigia quando não sabia o que é certo.

Hoje sem mãe, apenas com as irmãzinhas, Mariana e Rute de 13 e oito anos, respectivamente, rala numa casa de zinco e caniço, sem janelas e casa de banho condigna, além das paredes cobertas por pedaços de cartão e retalhos de roupa velha. Desde que a mãe morreu, o pai nunca foi pai. Conta-se que raras vezes se fez presente e, quando aparecia, não era movido pela saudade das filhas, mas com o objectivo de partilhar o espaço onde sobrevivem as três. Algum tempo depois, desapareceu sem deixar rasto. Um grupo de membros da comunidade tentou localizálo, mas foi em vão.

Queriam que assumisse a responsabilidade de pai, acompanhando de perto o quotidiano das filhas. Neste momento tudo indica que o indivíduo sumiu não se sabendo nada sobre o seu paradeiro. Muitas vezes sem dinheiro, as três irmãs adquirem alimentos através da boa vontade dos vizinhos e de pequenos biscates que Laurinda faz. Embora órfãs e vulneráveis, não perdem a esperança, por isso clamam por ajuda. Todavia, em vão, a ponto de se fartarem de receber visitas, pois, além de promessas, somente ouvem palavras de conforto. Este ano, por ter uma idade avançada relativamente à permitida na escola, perdeu a vaga na oitava classe, tendo de estudar no período nocturno.

Por sorte, conseguiu uma vaga na Escola Comercial de Maputo, mas, devido à falta de material escolar e dinheiro para o transporte, foi forçada a desistir. No próximo ano, com o apoio de uma associação comunitária, será matriculada numa escola mais próxima onde vai estudar sem ter de despender elevadas somas para a sua condição. Em 2007, na companhia de outros petizes do bairro, ingressou na Associação Sociocultural Horizonte Azul.

Ali, passou a ajudar como pode, dando explicações em todas as disciplinas e promovendo debates sobre diversos temas. Actualmente, Mariana frequenta a sétima classe, e Rute, a mais nova, a terceira classe, na Escola Primária Unidade 24.

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