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Uma Banda (que resiste às peripécias do) Tempo!

Uma Banda (que resiste às peripécias do) Tempo!

Dedicam-se à música desde tenra idade, no entanto, devido às peripécias da vida (muitas das quais se fecundam na/pela indefinição do tempo), em defesa do progresso musical no país, correm contra o tempo. Na música, a sua utopia não se resume à melhoria da condição social da sua colectividade, mas à classe dos músicos. Chamam-se Banda Tempo…

Moçambique, África, mulher, vida social urbana, suburbana e rural (entre outros tópicos) são os seus temas de discussão. Ainda que se expressem predominantemente em Changana, o seu idioma vernáculo, não se consideram uma ilha isolada no mundo. Por essa razão, as línguas portuguesa e inglesa são outros falares por meio dos quais a sua mensagem é difundida.

Para si o nome Tempo representa o reencontro e a reintegração desde quando o Lingwenda, o mesmo que o píncaro do coqueiro mais alto no seio da espécie, como inicialmente se chamou a colectividade, açoitado pelo custo de vida, gorou as expectativas dos artistas consorciados.

“Ao optarmos pelo nome em alusão, o nosso objectivo era posicionar a colectividade artística num espaço cativo no cenário da música moçambicana. Tristemente, o referido desiderato não foi alcançado. Alguns membros, rendendo-se ao custo da vida no país, passaram a dedicar- -se a outras actividades económicas”, afirma Bento Paulo Matsinhe, o vocalista principal e guitarrista, em jeito de recordação.

Na verdade, a Banda Tempo surgiu no ano 2010, “o que não significa que nós só começámos a tocar a partir dessa data. Dedicamo- nos à música desde a infância, de tal sorte que tivemos vários projectos artísticos no ramo, muitos dos quais, ao longo do tempo, por diversos motivos, ruíram até que há dois anos decidimos reaparecer com o nome Tempo”.

Como tudo começou

De acordo com o agrupamento, explicar a origem do termo Tempo como denominação do referido conjunto pode gerar uma longa história. “O facto é que há muito tempo, altura em que éramos miúdos, vivíamos no mesmo bairro, na verdade, na mesma zona, de modo que não possuíamos muitas barreiras para nos encontrarmos para a prática da arte musical”, começam por dizer.

“(In)felizmente, com o passar dos anos, ficámos adultos, os nossos desafios que acompanharam tal processo evoluíram de modo proporcional, o que legou a cada um de nós novas responsabilidades como pessoas humanas. Passámos a viver em bairros diferentes. A cidade de Maputo evoluiu. Os problemas, mormente os ligados aos transportes e ao custo de vida, sofreram um impacto congruente”.

Que dificuldades

Considerar que “muitos entraves se instalaram no nosso caminho, de modo que os programas para conduzir a tarefa produção artística em diante, por várias vezes, foram subjugados” é, claramente, uma explicação pouco elucidativa para quem queira perceber o assunto com alguma profundidade, da mesma forma que realçar que “muitos obstáculos que caracterizam a vida de quem se dedica à música em Moçambique podem ser mencionados” não faz nenhuma diferença. Então, a que tipo de embaraços a Banda Tempo se refere?

Talvez, porque algumas pessoas acreditam que (apenas) falar sobre os problemas não garante a sua resolução, os Tempo nada mais dizem além do que foi no referido contexto que surgiu a designação da banda, como forma de promover o reencontro, a reintegração e a reformação do colectivo. Sabe-se, porém, que durante a infância, os artistas que compõem a Banda Tempo viviam no bairro suburbano da Polana Caniço, algures na cidade de Maputo.

Maldito transporte

Os Tempo não gostam de reclamar das penosas situações em que os profissionais da música passam no seu país.

Talvez seja por essa razão que, invariavelmente, se expressam como um conjunto de cidadãos moçambicanos que – sem nenhuma distinção em relação aos outros – se ressente da disfunção do sistema de transportes e comunicação urbana, do lamentável cenário dos serviços de saúde, do gigantesco fenómeno de corrupção que se glorifica no país, do acentuado índice de desemprego que fecunda o espírito de exploração da mão-de-obra por parte do patronato, da inoperância dos serviços municipais na recolha do lixo na cidade, da mendicidade que desacredita os lares do acolhimento da pessoa idosa desfavorecida, entre outras situações perante os quais, na capital do país, nenhuma campanha – por mais que tenha sido bem elaborada – os consegue escudar.

Se, efectivamente, reconhecermos este cenário como pura realidade, até que ponto valerá a pena abordar questões específicas de uma área?

O que se pretende afirmar é que “as dificuldades da banda são enormes: o transporte, por exemplo, refreia em excessivo grau o nosso trabalho porque presentemente vivemos em bairros diferentes (Khongolote, Magoanine, Polana Caniço, Alto-Maé), o que faz com que acreditemos que se tivéssemos melhores condições de locomoção quase que todos os dias realizaríamos encontros para garantir o incremento da nossa actividade. Em resultado disso, penso que a qualidade das nossas criações seria muito melhor ainda”, afirma Gentil, o guitarrista da banda.

Espólio musical

Refira-se que no ano 2008, altura em que ainda se identificavam como Banda Lingwenda, os Tempo participaram num certame cultural promovido pela Casa da Cultura do Alto- -Maé, em Maputo, de que tiveram uma classificação estimulante.

Ora, quando se considera que até à referida data o grupo já possuía um número assinalável de composições musicais, ao mesmo tempo que se se analisar que desde a referida época até os dias actuais passam cerca de cinco anos, é normal que se questione sobre quantos trabalhos discográficos o conjunto teria publicado caso, no país em que vivem, as condições estabelecidas não instigassem os fazedores de arte a abdicar da mesma actividade.

Uma vez formulada a questão, Lithos, o baixista do grupo, engendrou uma resposta peremptória para afirmar que seriam discos.

No entanto, no seio do grupo, outros membros preferem realçar que numericamente a colectividade deve possuir mais de 100 composições musicais no seu espólio, o que significa que cinco álbuns podem ser uma quantidade reduzida. Porque não são registadas, algumas composições musicais do colectivo perdem-se no roldão da memória humana.

A banda tem muitas obras para apresentar e expor perante os consumidores, mas as dificuldades que se lhes impõem – escassez de concertos, desatenção e indiferença dos mecenas culturais com destaque para as editoras, por exemplo – são sufocantes.

De qualquer modo, a fé dos Tempo não se abala: “o caminho é para frente”. Até porque “as dificuldades são reais, existem e afectam várias pessoas, em diversas áreas, por isso o tempo é que se encarregará da realização dos nossos projectos” reitera Gentil Fernando Conge.

Enquanto as oportunidades para a realização do primeiro registo discográfico não surgirem, os Tempo não param de criar novas composições musicais. É a par disso que vale a pena acrescentar que eles exploram quase todos os estilos de música tradicional moçambicana.

Trata-se de “um campo artístico-musical bastante rico de modo que dificilmente saberíamos especificar os nomes dos géneros musicais: se Marrabenta ou Muthimba, por exemplo”, afirma Bento.

Isso não está a funcionar Perante os artistas, o nosso repórter sociocultural engendrou uma questão no sentido de perceber a expectativa da Banda Tempo em relação ao Regulamento de Espectáculos, a caminho de ser aprovado pelo Parlamento moçambicano, bem como a forma como eles, como músicos que são, podem e/ou pretendem explorar as vantagens e inovações que daí derivam.

Em face da nossa preocupação, os artistas arquitectaram uma resposta categórica: “estas coisas não estão a funcionar e, pior ainda, em nenhum momento funcionarão”.

Ou seja, “eu, como músico, e falando em relação à área da música, acredito que não tenho nenhuma expectativa em relação ao Regulamento de Espectáculos. Não há expectações que nos possam assegurar de que o referido dispositivo lei irá funcionar”, considera outro membro.

Lithos explica que a sua afirmação não deve ser confundida com algum tipo de cepticismo, afinal, conforme afirma, “estou consciente para considerar que as acções comerciais do Ministério da Cultural são exacta e simplesmente mercantis”. Ou seja, trata-se de “um assunto sobre o qual eu acho que nem devíamos falar, sem, com isso, pretender pejorar o elenco do Ministério da Cultura”.

Num outro desenvolvimento, o nosso interlocutor defende que “tantos documentos (para a gestão da vida cultural e artística no país) foram elaborados, outros ainda serão, no entanto, as suas orientações jamais serão levadas a cabo no país”.

O que falta

Diante dos desdobramentos sociais que a ineficácia da lei manifesta, nada melhor se nos impõe que reformular uma pergunta: “como resolver ou suavizar os problemas que marcam negativamente o sector das artes e cultura no país?”

A verdade “é que precisamos de que os artistas tenham alguma defesa. É necessário que haja alguém que possa suportar e respeitar o nosso trabalho – algo que em Moçambique não existe”, considera Lithos, para num outro desenvolvimento acrescentar que “não pretendo dizer que se deve colocar no pelouro da Cultura um ministro músico, mas defendo a opinião de acordo com a qual devem existir departamentos (ao nível da referida instituição) equipados com um pessoal competente para cada um dos ramos da actividade cultural”.

Além do mais “um escritor é um escritor. Um músico é um músico. Um artista plástico é um artista plástico. Todas estas pessoas são artistas, mas todas elas, sublinho, em áreas diferentes.

Não sendo possível ter-se um ministro para cada uma dessas áreas, porque não se criar departamentos para os respectivos ramos de modo que funcionem sob a assistência do ministro? O ministro da Cultura é um escritor. Por essa razão, provavelmente, deve estar mais abalizado sobre os problemas da literatura. No entanto, penso que o mesmo já não acontece em relação à música, às artes plásticas, ao teatro, por exemplo”.

Não há feedback

Refira-se então que, com a excepção de um elemento que se dedica unicamente à música, todos os membros da Banda Tempo realizam uma actividade económica adicional a partir da qual conseguem sustentar as despesas da música.

Entretanto, quando convidados a analisar o desempenho do pelouro da cultura, os artistas não engendram um comentário animador: “como músicos não podemos fazer nenhuma análise acerca do desempenho do Ministério da Cultura porque desde que foi isolado da Educação, afinal ainda não tivemos nenhum feedback do mesmo. Como tal, não temos como analisar a referida instituição para afirmar que a sua existência nos confere alguma vantagem”.

Projectos

Neste campo, os artistas consorciados na Banda Tempo consideram que “ao invés de tentarmos engenhar planos, desejos e/ou projectos para incrementar o nosso grupo, é muito mais importante e produtivo que nós, os músicos moçambicanos, comecemos a criar um plano geral para que haja maior consideração e assistência à nossa classe através da Associação do Músicos Moçambicanos”.

Ou seja, “não vamos falar dos sonhos da banda Tempo, porque todos nós somos artistas, mas em áreas diferentes. Por exemplo, um pintor não pode responder pelas dificuldades enfrentadas por um cantor.

Em nenhum momento um músico irá pensar na necessidade de se comprar pincéis, paletas de cores, tintas, cartolinas, etc., da mesma forma que o pintor não se preocupará com as cordas da guitarra, com os batuques, as teclas, o saxofone. Por isso, é importante que se separem os departamentos de cada especialidade artística”.

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