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Um olhar aos resultados de ingresso à Universidade Eduardo Mondlane – por Dércio Tsandzana

Escrevo este texto na sequência dos resultados dos exames de admissão divulgados no dia 29 de Janeiro pela Universidade Eduardo Mondlane. Os exames de admissão decorreram de 6 a 11 de Janeiro de 2014 em todo o país para acesso às universidades Eduardo Mondlane, Unizambeze e Unilúrio.

Para os diferentes cursos leccionados nestas três universidades prestaram provas de admissão pouco mais de 32.000 candidatos, dos quais cerca de 26 465, ou seja 82%, concorrem para as 4.765 vagas que UEM ofereceu em 2014, contra as 4.100 de 2013. Cerca de 77% destes candidatos foram da província e cidade de Maputo (contra 62% do total de candidatos do ano de 2013), seguidos das províncias de Gaza e Inhambane, que contaram, cada uma, com cerca de 5% do total de candidatos.

Tal como em 2013, as províncias de Cabo Delgado, Niassa e Tete foram as que registaram o menor número de candidatos, cada uma delas com o equivalente a 1% do total de candidatos à UEM. Em relação a 2013, verificou- -se uma redução substancial do número de candidatos da província de Sofala, de 5% para apenas 2% entre os que concorrem à UEM em 2014.

A tendência de redução também se verificou nas províncias de Cabo Delgado, Niassa e Tete. Os 5 cursos mais concorridos da UEM – com cerca de 40 candidatos por vaga em média – foram a Administração Pública (Diurno) com 2.838 candidatos, Direito (Diurno) com 2.573 candidatos, Contabilidade e Finanças Diurno com 2.263 candidatos, Medicina com 2.223 candidatos e Gestão – 1.822 candidatos.

Os exames decorreram num ambiente que se pode considerar ordeiro e, tal como tem sucedido nos anos anteriores, a consulta dos resultados via SMS e pela Internet foi a prática habitual. O site que vela pelo acesso aos resultados da UEM é livre, bastando fazer uma busca pelo nome e ou número do candidato que concorreu.

Num rastreamento que fiz nesse site, pude verificar casos alarmantes de algumas admissões que sucederam com estudantes que tiveram duas notas muito baixas para o curso que concorriam. Casos frequentes registam-se nos cursos de antropologia, filosofia e nas diferentes engenharias no período pós-laboral e antropologia para o período laboral, onde alguns estudantes chegaram a admitir com notas inferiores a cinco valores.

A título de exemplo, no curso de física no período pós-laboral, há um estudante que obteve 4.2 e 1 valores nas provas de física e matemática, respectivamente, o que significa que este teve a média de 3.5 valores e foi admitido. Outros casos sucedem nos cursos de antropologia período laboral e pós-laboral, para os quais foram realizadas provas de filosofia e história, em que um estudante do laboral teve nota 7 no exame de filosofia e 5.9 no exame de história, o que corresponde a uma média de 6.55.

O mais agravante foi quando deparei com os resultados dos cursos de engenharia, do ramos de informática, electrónica, mecânica, civil e do ambiente, nos quais as bases eram as disciplinas de matemática e física, e num dos casos houve um estudante que obteve no curso de engenharia do ambiente notas iguais a 2.8 e 6 valores, respectivamente, o que equivale a dizer que este admitiu com a média de 4.65 e engenharia informática em que um estudante obteve 7.4 e 4 nas provas de física e matemática, respectivamente, o correspondente a uma média de 5.8 valores.

No curso de filosofia para o período pós-laboral, há estudantes que obtiveram notas abaixo de 6 valores, sendo que um deles admitiu com 4.55, o que significa que obteve 5.6 em história e 3 no exame de português. São casos que na sua maioria sucedem nos cursos pós- -laboral, pelo imperativo de serem cursos que exigem o pagamento de propinas.

Para admitir à UEM depende do número de inscritos para cada curso, da idade, e da sua média das notas dos exames, sendo a nota a principal condição de admissão. Não existe nota mínima, desde que seja maior que a do concorrente, mas as notas realmente são de lamentar.

A UEM introduziu já há algum tempo exames de múltipla escolha, pela agilidade na correcção, objectividade e redução de custos, porém, não se pode afirmar que este é de todo o melhor método de admissão à universidade. Do mesmo modo que é objectivo nas respostas, há casos em que reina a subjectividade, porque não abre espaço para ampliar o horizonte do pensamento nalgumas respostas para certos exames, e nem sempre a coerência do que se propõe como alternativa é a correcta.

Porém, o método múltipla escolha não é a única forma de avaliar as capacidades do candidato a uma vaga no ensino superior. Como alternativa, o teste vocacional é um exercício que se realiza para testar os interesses e aptidões a fim de indicar uma ou mais possíveis vocações ao avaliado ou ainda o exame psicotécnico que é um método de avaliação da personalidade que é capaz de definir o comportamento padrão de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, bem como definir diferenças entre indivíduos e as suas reacções diante das várias situações do dia-a-dia ou situações que fogem ao quotidiano.

Esse tipo de teste pode ser alternativa para as nossas universidades, tendo sempre em conta o número de candidatos, porque os exames de admissão múltipla escolha têm provado nos últimos anos que não são a melhor forma de avaliar os candidatos.

O dilema do ensino superior no nosso país é alimentado pelo facto de existirem poucas universidades públicas e, neste cenário, os candidatos escolhem cursos por emoção e desconhecimento, por indicação de um familiar, ou pelos benefícios económicos do curso, sem antes se preocupar em saber se ele tem ou não aptidão para tal. Mas, no fim, termina com diploma na mão e frustrado mentalmente pelo curso que fez.

É caso para dizer que é fácil ser estudante do ensino superior em Moçambique com esse tipo de notas. Mais não disse.

Dércio Tsandzana

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