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EDITORIAL: Um Governo Pai Natal

Diz um milenar ditado chinês, e nisto os chineses são exímios e sábios, que não se deve dar peixe a um pobre mas antes ensiná-lo a pescar, pois assim poderá apanhar muitos peixes e nunca mais terá fome.

Pois o nosso Governo, que ultimamente tem abraçado tanto as directivas chinesas, bem podia seguir este ensinamento com séculos, direi mesmo milénios, de confi rmação de bons resultados, ou não estivesse no conhecimento a grande riqueza dos povos. Se não fosse essa constante vontade de aprender o Japão, só para dar um exemplo, não seria o país que hoje é: a terceira maior economia do mundo e um dos países mais ricos deste mesmo mundo apesar de não possuir qualquer riqueza natural, que outros possuem e tanto desperdiçam.

 

Vem isto tudo a propósito da introdução, nos próximos tempos – fala-se em Junho – da tal cesta básica – cabaz composto por pão, açúcar, peixe de 2ª categoria, óleo alimentar e feijão – que deverá abranger perto de 1,8 milhão de pessoas em todo o país.

Ouço isto e pasmo, especialmente depois de ler em grandes parangonas na imprensa o ministro da Planifi cação e Desenvolvimento, Aiuba Cuereneia, defender que o país não pode mais viver de subsídios, numa referência clara à subvenção às gasolineiras e às panifi cadoras a que nos últimos tempos temos assistido.

Talvez seja eu que esteja a ver mal as coisas mas esta esmola em forma de cabaz de primeira necessidade não vai criar 1,8 milhão de dependentes? Parece-me bem que sim. Dá-se de um lado para se tirar do outro, tapando-se, uma vez mais, o sol com a peneira.

O grande argumento para a tomada desta medida é que o Governo andava a sustentar, tanto no combustível como no pão, indiscriminadamente ricos e pobres, colocando-os no mesmo patamar. Ou seja: pagava o justo (pobre) pelo pecador (rico). Muitos ricos compravam pão e enchiam o depósito de gasolina para ir gingar para a Marginal com o dinheiro do Governo. E isso, aos olhos do Governo, era uma tremenda e inqualifi cável injustiça, como se toda a vida tivéssemos sido súbditos do rei Salomão.

Igualmente, os critérios de atribuição da cesta, se não são falaciosos logo à partida, são-no na prática. Supostamente as cestas irão ser atribuídas a quem possui um vencimento mensal igual ou inferior a 2 mil meticais. Vejamos: quem, neste momento, aufere um salário de 2200 meticais já não tem direito à “esmola” governamental.

Imaginem as pessoas que estão naquela faixa entre os 3 mil e os 3,5 mil. Seguramente que irão, de conluio com a patrão, informar que têm um salário de 1800 ou 2 mil para terem direito à cesta. Imaginem os contratos de trabalho que irão ser feitos à pressa para estarem ao abrigo da cesta. Se calhar, quando derem por ela, não será 1,8 milhão de pedintes mas o dobro.

Será que ao dar estes ‘peixes’ – não se está a ensinar ninguém a pescar – o Governo irá poupar em relação aos gastos actuais? É uma questão de tirar o lápis da orelha e fazer as contas, porque estes cálculos estão ao alcance de qualquer merceeiro. Outro busílis: será possível organizar toda esta logística de uma forma satisfatória, que benefi cie mesmo quem necessita? Tomando como exemplo as inspecções automóveis e os cartões de registo dos telemóveis, processos aparentemente bem mais simples, tudo leva a crer que não.

Pode ser que me engane muito mas parece que já estou a ver os produtos das cestas expostos nos dumbanengues, a preços bem longe dos bolsos dos necessitados aos quais se destinavam.

Parece também que já estou a ver os automóveis dos camaradas a fazer as vezes das renas do Pai Natal, distribuindo mensalmente os cabazes pelos seus militantes, dando corpo à máxima: ‘O Natal é quando um homem quiser.’

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