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Um festival que atingiu o êxtase

Um festival que atingiu o êxtase

Enquanto o sol descia, anunciando a chegada da noite, vários cidadãos de diferentes idades – vendedores, polícias, bombeiros, médicos, curiosos e amantes da música – juntaram-se no Complexo Matchiki-Tchik, entre 23 e 24 Maio último, em Maputo, celebraram e encantaram-se com diversos ritmos moçambicanos e estrangeiros. O arrebatamento do espírito, na IV Edição do Festival Azgo, foi de tal sorte que todos entraram e saíram satisfeitos.

Na sexta-feira, as portas abriram às 17h:00 para um espectáculo que devia ter começado às 18h:00. Entretanto, as centenas de pessoas que já estavam no interior do Complexo Matchiki-Tchiki tiveram que esperar, impacientemente, hora e meia para verem os seus artistas favoritos a actuar. Nessa festa, não só os admiradores dos que iam entrar em acção tinham boas perspectivas.

No exterior, por exemplo, os vendedores sazonais, diga-se, preparavam a chima, o carapau e o frango, consoante o número de entradas que se registavam. Enquanto os agentes da Lei e Ordem zelavam pela segurança no espaço – dentro e fora do complexo – as senhoras – entusiasmados com a receita que podiam colectar – preparavam o “jantar” sentadas em bancos, observavam e comentavam a respeito das pessoas que transpunham a rede metálica que impunha limites entre a parte interna e a externa.

Dentro daquele complexo havia outro grupo de cidadãos que preparavam, também, refeições. Para além disso, feirava-se bijutaria, vendiam-se preservativos, telefones celulares, dentre outros produtos. Tudo era a preço promocional.

O início tardio do show

Até às 18h:00 – hora marcada para o começo do espectáculo e que, infelizmente, por razões não explicadas não foi comprida – o público começava a aglomerar-se em maior número, num fluxo de gente no qual bastava apenas um piscar de olhos para um companheiro se perder do outro.

A festa era campal e, consequentemente, devido à demora do início do evento, o frio e a ansiedade de ver os seus ídolos a brilharem nos palcos apoquentavam os presentes. Apesar da demora, afiançamos que ninguém desistiu porque as pessoas queriam ver o que o tão difundido “Azgo” tinha para oferecer. Novidades tais como o zimbabweano Oliver Mtukudzi; a cabo-verdiana Mayra Andrade; o português Sam The Kid; os “Bons Rapazes”, ou seja, os Ghorwane; Christine Salem, da Ilha Reunião, dentre outros artistas eram aguardados com enorme expectativa.

No entanto, para acalmar a aflição e atenuar o frio que se fazia sentir naquela zona próxima do Oceano Índico, concretamente na praia da Costa do Sol, alguns realizavam jogos, outros passeavam de um canto do recinto para o outro. Mas ninguém tinha o direito de sair, excepto os organizadores. Pontualmente às 19h:30 horas, o apresentador anunciou o pontapé de saída do show. Era o tempo de se fazer o reconhecimento do palco.

E, para atrair a atenção do público que já estava agastado com a demora, escolheu-se o “Trânsito”, um agrupamento moçambicano, para actuar. De referir que era o começo de uma noite longa e repleta de emoções. Ao som acústico, num ritmo tradicional, Chude Mondlane, Chico António, Edmundo Matsielane e Nico M’Sagarra mostraram o que há de consumível no que diz respeito a instrumentos musicais – reciclados – e música tipicamente moçambicana.

No entanto, depois da actuação do “Trânsito”, que durou um pouco mais de 30 minutos, Christine Salem, da Ilha Reunião, fez a sua exibição ao ritmo “Maloya” (género musical da sua terra). Ela sacudiu o frio e agitou os presentes. A sua voz grave sugeriu a cada pessoa que estava no espectáculo uma retrospectiva de vida do seu povo. Os instrumentos convencionais e tradicionais usados por Christine Salem demonstram quão valorosos são os seus ritmos.

Aliás, as suas músicas, cantadas de viva voz, tinham sido proibidas na Ilha Reunião durante a década de 1980. A razão desse banimento é desconhecida. Naquele “quebra-quebra e mexe-mexe”, diga-se, o público acompanhava os compassos da música sem se interessar com a mensagem, mas o sentimento que se agregava à melodia denunciava uma união entre os presentes e a artista. O fim do dia foi-se consumindo despercebidamente. Ninguém queria sair do recinto. A festa estava “maning nice”.

Depois da brilhante actuação de Salem, o público dançou ao ritmo do músico e instrumentista moçambicano radicado na Suécia, Deodato Siquir. Este, com a música “A caminho de casa mais uma vez”, exteriorizou as saudades que tinha da sua terra natal. Aliás, para além das nostalgias, com a sua experiência e sabedoria, o compatriota aproveitou a ocasião para dar aulas de vida. Os seus ritmos são autênticos preceitos e, na sua maioria, versam sobre a vida do povo moçambicano.

Além de Deodato, Moçambique teve o privilégio de exibir a sua performance rítmica, através das misturas musicais de Dj Damost, dos ritmos de Mr. Bow e dos “Bons Rapazes”, ou seja, dos Ghorwane. Este grupo composto por sete membros – Roberto Chitsondzo, Carlos Gove, Paíto Tcheco, Jorge Moisés, Antoninho Baza, Júlio Baza e Muzikla Malembe – completou a tarefa iniciada pelos artistas que tinham passado pelo mesmo palco: trazer alegria e diversão ao público.

Apesar de terem andado muito tempo fora dos palcos, os Ghorwane (lago de província de Gaza) provaram que não ressequiram. Com “Majurugenta”, “Vana va Ndota”, entre outros temas – dos mais conhecidos em todo o país – os “Bons Rapazes” ofereceram momentos de êxtase aos amantes da música moçambicana.

A prometida satisfação da noite

Oliver Mtukudzi, cabeça-de-cartaz do primeiro dia, depois do anúncio da não participação no Festival Azgo do maliano Salif Keita, foi requestado nos camarins para concretizar a desejada actuação e animação. Antes de o apresentador anunciar a subida ao palco desse ícone da música ligeira zimbabweana, o público vibrou. Quem nunca tinha visto o músico realizou o seu sonho.

Aliás, quase todos sabiam cantar as músicas de Mtukudzi. Afinal, mesmo que não o conhecessem fisicamente, já ouviram falar e deliciaram-se com as suas melodias. Em frente ao estrado, as pessoas que realmente conheciam o artista abanavam as ancas, faziam a mímica, cantavam, tiravam fotos e manifestavam vontade de derrubá-lo do palco para senti-lo de perto.

Meia hora depois, Tuku, como é carinhosamente chamado no Zimbabwe, tentou abandonar o palco para permitir que outros músicos abrilhantassem a noite mas os gritos de ovação e preces para que continuasse impediram tal pretensão, e ele voltou a cantar. Depois da música tão solicitada pelo público, e por sinal a última do Festival Azgo para o ano 2014, Tuku retirou-se, finalmente, do estrado. E, assim, caiu o pano do evento que trouxe momentos de glória aos moçambicanos.

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