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Um artista sem respeito não tem nenhum valor na sociedade

A Associação Cultural Wuchene foi apurada, pela quarta vez consecutiva, e irá participar em mais uma edição do Festival Nacional da Cultura que, este ano, decorre entre 14 e 19 de Agosto, em Inhambane. Neste sentido, em conversa com o @Verdade,, o líder da agremiação, Mário Mucavele, revela pormenores da experiência da colectividade.

@Verdade: Mais uma vez, desta feita pela quarta consecutiva, o seu grupo está apurado para o Festival Nacional de Cultura. Que comentário faz?

Mário Mucavele: Fomos apurados nas duas categorias – o Xigubo e a Marrabenta. Não posso dizer que participar no Festival Nacional da Cultura já é uma tradição para nós. Mas penso que tudo depende de um trabalho aturado. Sinto-me muito feliz porque o nosso trabalho revela algo, as pessoas apreciam-no. Nós não nos apurámos por iniciativa própria. São os membros de júri – pessoas competentes – que avaliaram o nosso trabalho e deram uma nota positiva. Esta será a terceira vez consecutiva que o nosso grupo participa no Festival Nacional da Cultura.
Já estivemos, em 2008, em Xai-Xai. Em 2010, participámos em Chimoio e em 2012 também estivemos em Nampula. Agora, em 2014, estamos a recomeçar um novo ciclo de digressão pelo país, com a nossa participação em Inhambane.

@Verdade: Quando é que começa o seu envolvimento no movimento artístico-cultural?

Mário Mucavele: Trata-se de um longa caminhada. Comecei a praticar a dança em 1996, altura em que eu era roupeiro e o Grupo Wuchene era denominado Xigodo Xa Nkutlhu. Em 2001, quando grupo passou por uma crise em termos de membros, em resultado dos conflitos internos que tivemos, mudámos de nome.
De todos os modos, assegurámos a manutenção da colectividade – com a nova designação – até à actualidade. Quando legalizámos a situação jurídica da Associação Cultural Wuchene, em 2007, realizámos a primeira acta em que fui nomeado tesoureiro. Tivemos uma segunda acta em que fui eleito presidente, estando, neste momento, a cumprir um mandato de cinco anos.
Portanto, mais do que um grupo, o Wuchene é uma associação cultural que já representou Moçambique em vários países. Por exemplo, participámos no Expo Xangai, em Beijing. Também estivemos no Brasil, na Suíça e em Portugal, incluindo vários países africanos dos quais nem falo porque constituem a minha casa.

@Verdade: Wuchene é um grupo cultural que pratica a dança – nas suas diversas modalidades – e o teatro. Como é conciliar esses movimentos e liderar as pessoas envolvidas?

Mário Mucavele: É muito complicado. De todos os modos, para trabalhar com a cultura é preciso ser artista a fim de compreender aquele ser. O artista é um dos indivíduos mais complicados porque, constantemente, ele está a criar e a inovar a sua visão sobre o mundo. Nesse sentido, o dirigente de um movimento artístico deve moldar a sua postura em função das tendências e da dinâmica contemporânea.
Por exemplo, nós tivemos membros que faziam Xigubo no passado. Por diversas razões (emprego, escola e casamentos), todos abandonaram o baile. Nós que ficámos, tínhamos a missão de formar novos membros para nos representarem. Portanto, os dois grupos que actuaram aqui são constituídos por novos elementos. É preciso compreender a contemporaneidade, que se deve fazer para que o criador se sinta confortado continuamente. Quando se lidera uma formação artística, é preciso que se ignore a nossa formação académica e o nosso emprego, a fim de se dedicar unicamente ao artista. Só com esta postura é que a liderança pode ser bem-sucedida.

@Verdade: Imagina a sua vida sem a arte?

Mário Mucavele: É muito complicado. Eu sou funcionário do Estado. Fui formado em Medicina. Faço urgências e trabalho em turnos, mas em nenhum momento deixei o trabalho artístico-cultural para trás. Arranjo tempo para trabalhar para o Estado e nunca pensei em abandonar a arte. Sou artista.
De todos os modos, uma das coisas basilares que tenho dito aos meus colegas é a necessidade de se formarem. A arte tem uma vida muito curta. Como bailarino trabalhei muito. Representei a nação moçambicana em vários lugares do mundo. Fui estrela mas, neste momento, com 31 anos de idade, já não tenho forças para dançar. O meu vigor está reduzido.
Portanto, o trabalho artístico-cultural deve ser conciliado com a escola – para que as pessoas não se arrependam – porque, no caso da dança, o corpo tem o seu tempo útil para fazer os seus movimentos, da mesma forma que, em determinadas épocas, esses movimentos atrofiam, o que nos limita.

@Verdade: Durante os seus tempos de bailarino, imagino que terá havido algum momento em que – por qualquer razão – teve de abdicar, circunstancialmente, da dança. Como se sentia?

Mário Mucavele: Quando, em 2012, chegou o memento de irmos participar no Expo Xangai, na Ásia, eu tinha de fazer os exames do fim de semestre do meu curso de Medicina. Ao mesmo tempo, assumia a liderança do grupo. No entanto, não podia viajar. Sentei-me com os meus colegas, expliquei-lhes muito bem que gostava imenso de participar no evento, mas, naquele momento, não podia viajar com eles porque tinha de fazer exames.
Muitos dos meus colegas não acreditaram que eu ia abdicar da viagem. Ficaram preocupados: ‘Nós não podemos viajar sem o nosso líder. Quem é que nos vai representar?’ Dei-lhes alguma orientação sobre como se deviam comportar. A murmurar, alguns deles, sem acreditarem que eu estava a abdicar de um programa para o qual me havia esforçado bastante, viajaram para China.
O meu lema era o seguinte: ‘Em nenhum momento, o bailarino se deve colocar na sala de ensaios quando, em casa, tem um entulho de apontamentos por ler’. Este é o segredo. É verdade que esse sacrifício condói o coração, distrai a mente, porque a dança é um convívio familiar. Quando nós nos apegamos a alguém que nos abandona, por um período longo, é doloroso. É muito difícil permanecer em casa quando os outros estão a actuar. Se a arte lhe entranhou é preciso mostrar ao público os seus dotes.
A medicina está bem definida – é uma arte de saber fazer. É preciso que se tenha a destreza manual, a ética e se saiba identificar perante qualquer paciente. O mesmo acontece com a dança. É preciso que se tenha a agilidade nos pés, os movimentos na cabeça, nas mãos, mas, mais do que isso, é necessário que se tenha a ética acima de tudo. O artista é aquele que tem respeito. Um artista sem respeito não tem nenhum valor na sociedade. 
Então, aquele contacto que um médico tem com um doente não difere – em nada – do encontro que se estabelece entre o bailarino e o espectador. Se o bailarino está a dançar a Marrabenta é necessário que substitua a cara feia que possui por um sorriso sardónico que não existe. Terminado o espectáculo, pode-se voltar a ser o que se é. Se alguém está a praticar o Xigubo – uma dança guerreira – e é sorridente, em palco deve ficar feio. Na arte é preciso saber adequar-se em função dos contextos.

@Verdade: Wuchene é um grupo cultural que possui uma longa experiência artística internacional. Como é que tem sido a vossa vivência em Moçambique?

Mário Mucavele: É difícil responder esta questão em Moçambique, por uma razão muito simples: Se eu comparar o tratamento que tive, como artista, aqui na vizinha África do Sul, com a forma como sou tratado na minha terra, e dependesse unicamente da arte, iria preferir filiar-me a um grupo sul-africano. Mas Moçambique é o meu país.
Na verdade, Moçambique não valoriza os seus artistas. Dizem que os bailarinos são provocadores de barulho. São brincalhões. No nosso país não se entra na dimensão sentimental do artista. Várias vezes, no Parlamento moçambicano, o próprio ministro da Cultura, Armando Artur, foi chamado chefe das brincadeiras.  
Mas uma coisa é certa: em Moçambique, nós os artistas vivemos como ratos roedores porque poucos apoiam a cultura. Em contra-senso, existem muitos países que desenvolvem a sua economia através das artes.
Tenho mais de 90 bailarinos no meu grupo. Onde é que vou arrecadar dinheiro para subsidiar todos estes artistas? É preciso que eles também entendam a situação.

@Verdade: Como é que o senhor, como líder, convive com essa situação?

Mário Mucavele: Várias vezes, eu, como líder, sou obrigado a investir o meu próprio dinheiro para assegurar que os bailarinos não abandonem o grupo. Por exemplo, as bailarinas têm o seu problema mensal – a menstruação – precisando, por isso, de pensos, de ceroulas e de sabão. A associação precisa de desencadear acções para garantir que elas estejam bem, uma vez que se não forem bem cuidadas abandonam o associativismo a favor do lar onde, supostamente, irão encontrar um marido que lhes garanta o que não encontram na arte.
Imagine ser abandonado por uma pessoa em que você investiu por cinco anos. É uma complicação. É preciso saber lidar com as bailarinas sabendo explicar-lhes as dificuldades por que se passa para que elas não repudiem o grupo.

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