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Tunísia: revolta popular derruba Governo

Ex-presidente da Tunísia é condenado a 35 anos de prisão

Foi um golpe palaciano, mas o que o provocou foi a revolta dos tunisinos, que nem o discurso do Presidente Zine El Abidine Ben Ali, na quinta-feira à noite, a assegurar que não se recandidatava e a prometer reformas democráticas e o fim da censura, calou. Esta sexta-feira saíram à rua em Tunes às dezenas de milhares.

Em resposta, Ben Ali demitiu o Governo. Pouco depois, o Governo anunciava que o general estava “temporariamente incapacitado de exercer as suas funções”. Mais ou menos os termos usados por Ben Ali há 23 anos, quando afastou Habib Bourgiba no que ficou conhecido como “golpe de Estado médico”.

É o primeiro ditador árabe desde Saddam Hussein a cair. Mas esta é uma queda muito diferente. Começou a ser escrita a 17 de Dezembro, quando Mohamed Bouazizi se imolou pelo fogo em Sidi Bouzid, pequena cidade do Centro do país, em protesto por ter sido expulso pela Polícia Municipal da rua em que vendia vegetais. Sidi Bouzid depressa se tornou na Tunísia toda.

Mais Bouazizis surgiram: pelo menos cinco tunisinos suicidaram-se em protesto nas últimas semanas. As palavras seguintes da história desta queda, escreveu-as o próprio Ben Ali, ao ordenar que a polícia disparasse contra o povo que começou a gritar contra o desemprego ou o preço do pão e, dia após dia, foi perdendo o medo do homem que governou pelo medo. As contas dos mortos ainda estão por fazer, mas foram pelo menos 80 até quinta-feira.

Ben Ali chegou sexta-feira à noite a Jiddá, na Arábia Saudita, disseram à AFP responsáveis da monarquia. Horas antes, as televisões francesas tinham citado fontes do Governo de Nicolas Sarkozy para anunciar que Paris recusou a entrada do ditador. Uma filha e uma neta terão aterrado durante a tarde em França.

“É a primeira revolução pós-colonial no mundo árabe! Da auto-imolação de Bouazizi a 17 de Dezembro ao derrube de Ben Ali a 14 de Janeiro. Revolução de jasmim!”, escreveu no Facebook Mona Eltahawy, investigadora e comentadora egípcia.

Nos últimos dias, os protestos começaram a ser chamados “Revolução de Jasmim” nas redes sociais da Web. “Mostra, em todo o caso, que as revoluções de veludo são possíveis no mundo árabe”, disse, em entrevista ao jornal “Le Monde”, Larbi Chouikha, politólogo e membro da Liga Tunisina dos Direitos Humanos.

O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, aplaudiu “a coragem e a dignidade do povo tunisino” e pediu a realização de “eleições justas”. O futuro é incerto. Ontem, entre anúncios e contra-anúncios, o Exército assumiu o controlo do aeroporto e encerrou o espaço aéreo e o Governo decretou o estado de emergência em todo o país, autorizando as forças de segurança a disparar. Quando este já vigorava, depois das 19h00, ouviram-se tiros no centro de Tunes.

O primeiro-ministro e agora Presidente interino, Mohamed Ghannouchi, anunciou a realização de eleições legislativas em seis meses e prometeu respeitar a Constituição. Hoje mesmo deverá encontrar-se com representantes dos vários partidos para começar a formar um Governo. Aparentemente, a escolha de Ghannouchi foi negociada com o Exército e serão os militares a deter neste momento o poder. Notícias sobre a detenção de vários membros da família de Ben Ali, incluindo o genro, Sakhr Matri, um dos maiores empresários do país, não foram confirmadas. Mas um próximo de Matri garantia que ele estava no Dubai.

Em Tunes, foram pilhadas várias casas de outra família, a da primeira-dama, Leila Trabelsi Ben Ali. Os Trabelsi apropriaram-se nos últimos anos de muitas empresas. Fim da barreira psicológica “Cada líder árabe está a olhar para a Tunísia com medo. Cada cidadão árabe está a olhar para a Tunísia com esperança e solidariedade.”

O Twitter de Mona Eltahawy foi reenviado inúmeras vezes ao longo do dia por tunisinos e não só. Muitos comentadores acompanharam os acontecimentos na Tunísia como o princípio de uma revolta que prevêem se poderá espalhar a outras ditaduras árabes. Eltahawy diz que o dia de ontem foi “o mais feliz” da sua vida. “É maior do que um sonho numa região onde as pessoas passam a vida a repetir: ‘O que podemos fazer?’”, afirmou à Reuters Kamal Mohsen, estudante libanês de 23 anos.

No Cairo, tunisinos e egpícios celebraram juntos a saída de Ben Ali. “Talvez todos os Governos árabes estejam a acompanhar com os olhos bem abertos o que se passa na Tunísia e na Argélia”, escreveu no jornal “Asharq al-Awsat” o colunista Abdelrahman al-Rashid, antes ainda da queda de Ben Ali, mas já depois do discurso em que este jogou os seus últimos cartuchos, oferecendo inédidas concessões.

Durante a contestação na Tunísia também os argelinos saíram à rua em protesto contra o aumento dos bens básicos até que o Governo decidiu baixar os preços. Para Abdelrahman al-Rashid, “muito do que impedia os protestos e a desobediência civil era apenas uma barreira psicológica”. Foi essa barreira que quebrada.

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