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Trabalhar sob os caprichos da natureza

Trabalhar sob os caprichos da natureza

Apesar de não ter uma “oficina” para desenvolver a sua actividade, Fernando socorre-se da sombra de uma mafureira para garantir o seu ganha-pão. Por debaixo daquela árvore saem obras de escultura cujo mercado preferencial é a vizinha África do Sul.

Fernando Zita, conta com 44 anos de idade, casado e pai de cinco filhos, nasceu na cidade de Xai-xai, província de Gaza. À semelhança de muitos moçambicanos, viveu a sua mocidade na sua terra natal, mas porque as condições de vida tornavam-se cada vez mais azedas, decidiu rumar, nos meados da década 70, para a cidade de Maputo, para prosseguir com os seus estudos primários e finalmente procurar emprego.

Porque Maputo não é uma mera varinha mágica para a solução de problemas, como muitos erroneamente podem pensar, Fernando viu os seus sonhos a não surtirem o efeito esperado. Não foi para além da 6ª classe, e a interrupção dos seus estudos deveu-se ao encadeamento das difíceis circunstâncias da vida, o que se resume na falta de condições.

Depois de interrompida a sua escola, e na tentativa de superar as dificuldades que orbitavam sobre a sua vida, Fernando teve a oportunidade de trabalhar numa casa agrária como tractorista, contava o ano de 1980. Esta actividade durou pouco menos de duas décadas, “parei de trabalhar porque a empresa foi à falência”, conta para depois acrescentar que mesmo assim não arredou pé, teve de arranjar uma outra forma de ganhar dinheiro e fazer a vida. Para não ser tão dependente dos outros, a melhor ideia que lhe sobressaiu, foi abraçar-se ao empreendedorismo.

Na sua vizinhança, havia muitos escultores, aliás, ele simpatizava-se muito com os homens que faziam da escultura a sua arte. Enquanto os amigos e vizinhos iam trabalhando, ele repescava as técnicas usadas para produzir uma obra de escultura. Porque não se pode aprender de dia para noite, este processo de aprendizagem informal, custou-lhe pouco menos de dois anos.

“Eu vi que nesta arte dava para eu apostar, primeiro porque assimilava as técnicas com alguma facilidade, segundo porque este tipo de arte requer uma viagem psicológica para o artista ver e imaginar que tipo de obra pode produzir para agradar os seus clientes ou apreciadores das obras de escultura”, comenta.

Entretanto, em 2003 Fernando Zita procurou afirmar-se no empreendedorismo, produzindo obras de escultura e vendendo-as dentro do país. Foram três anos que este escultor deambulou pelas artérias das cidades de Maputo e Matola, com as suas obras em punho.

Este sinuoso exercício físico de andar de terra em terra, não lhe rendeu quase nada, “andava muito e não compravam os meus produtos. Acabava meses sem que comprassem alguma coisa e, para reverter o triste cenário de falta de mercado, passei a escalar zonas turísticas para vender as minhas obras”, conta para depois ajuntar que os seus locais preferenciais eram a praia da Costa do Sol, algures na cidade de Maputo e o distrito de Vilanculo, a norte da província de Inhambane, uma zona potencialmente turística.

Zita acrescenta ainda que nestes locais com uma grande afluência de turistas maioritariamente estrangeiros, as suas esculturas tinham muita saída, aliás, até havia quem fizesse encomenda das obras. Este empreendedor tinha um mercado sazonal, pois o turismo depende intrinsecamente da estação do ano, a exemplo disso, no verão verifica-se um grande fluxo de turistas e consequentemente muitos deles apreciam e compram esculturas sem, no entanto, descurar outro tipo de obras de arte.

Porque a alegria do pobre é de pouca dura, nos dias de chuva ou quando as intempéries decidiam abater-se por esta terra do salve-se quem poder, este escultor não vendia nada, pois os supostos compradores começavam a rarear, devido ao mau tempo.

Fazer da sombra das árvores uma oficina

Fernando Zita para desenvolver a sua arte de escultura socorre-se da sombra de uma mafureira algures no quintal da sua casa. No entanto, nos dias de chuva, ele vê-se na obrigação de não poder trabalhar, pois as obras enquanto estiverem no processo de produção não se podem molhar, sob o risco de se transformarem em quebras, pois mesmo se estiverem prontas não se devem molhar nem apanhar qualquer humidade.

Este empreendedor compartilha o seu parco espaço com os seus três colegas que também são familiares. “Gostaria de construir uma oficina para eu poder trabalhar sem dificuldades, mas a falta de condições para o efeito afigura-se um grande obstáculo. No tempo chuvoso não se faz absolutamente nada, e sem trabalhar dificilmente posso sustentar a minha família”, comenta.

No entanto, Zita tem a esperança de que mais tarde ou mais cedo vai criar condições para trabalhar num lugar seguro. Segundo nos conta, a intenção de materializar este sonho remonta desde o início da sua actividade em 1996. “Se o meu negócio tivesse um bom rendimento já teria feito ou improvisado uma oficina para desenvolver a minha arte”, acrescenta.

O problema de sempre: a falta de mercado

À semelhança de muitos empreendedores no mosaico das artes, este escultor enfrenta o “vírus” da falta de mercado. Mais ainda, os custos de produção geralmente não são compensados, dado que dá-se ao luxo de produzir muitas obras de arte e no entanto, não são compradas.

Durante três anos Fernando percorria quilómetros a fio entulhado de esculturas que só lhe criavam um peso quase que desnecessário e infrutífero, “era normal eu andar durante todo o dia e no fim de tudo não vender nada.

As pessoas só se limitavam a perguntar o preço das obras e nada mais que isso”, lamenta para depois acrescentar que foi exactamente por isso que em 2006 preferiu alargar o horizonte do seu mercado: passar a vender as obras na vizinha África do Sul. Neste país a situação era relativamente melhor, o negócio tinha saída e a moeda das transacções era o rand, o que sobremaneira tornava mais rentável os seus produtos artísticos.

Nas terras do rand, com o decorrer do tempo e movido pela sua humildade e compreensão, este escultor foi granjeando a simpatia de muitos clientes. Aliás, alguns clientes tornaram-se seus amigos, a tal ponto que chegavam a levar as obras para efectuarem os pagamentos no fim do mês ou no fim da quinzena, para os que recebem os seus salários no fim de cada 15 dias. Fernando leva cerca de um mês a produzir as suas obras para posterior exportação para a África do Sul.

Apenas mudou de mercado, as suas metodologias de venda continuam as mesmas, “basta eu descer do autocarro nas terras do rand, logo de seguida começo com o negócio, juntamente com um irmão meu que também faz esculturas, e percorremos longas distâncias a vender. Numa semana conseguimos vender cerca de 10 obras”, conta acrescentando que com um negócio a caminhar nestes ritmos, as distâncias tornam-se insignifi cantes porque no fim ao cabo, os seus produtos são comprados.

O preço das esculturas ronda entre os 100 e 300 rands, dependendo do modelo e tamanho das obras, já que as mais pequenas são menos caras que as maiores. Para os que optam pelo pagamento em prestações, primeiro pagam uma tranche de 50 porcento e depois a outra metade no fim do mês.

“Infelizmente há pessoas que levam as obras e pagam muito tempo depois do combinado, pior ainda, vezes há em que alguém dá-se ao luxo de mudar de residência sem que antes tenha finalizado os pagamentos, uma vez que muitos vivem em casas arrendadas”, lamenta.

Porque nem sempre o facto de um peixe estar podre numa caixa significa que os restantes estejam na mesma situação, Fernando Zita continua a fazer valer o seu espírito de compreensão e humildade para com os seus clientes, “quem achar que pode pagar as obras em prestações aceito, mas com uma condicionante: a primeira tranche tem que ser em cerca de 70 porcento, só assim posso reduzir os prejuízos no caso de alguns não concluírem o pagamento do valor remanescente.

“Tenho licença para desenvolver o meu negócio”

Diferentemente de muitos moçambicanos que emigram para a África do Sul ilegalmente ou que exercem os seus negócios sem o consentimento das entidades que concedem o licenciamento para o efeito, este escultor foi autorizado a exercer a sua actividade comercial sem problemas.

“Quando me encaro com polícias durante a caminhada e me exigem a licença, mostro os documentos e dão-me luz verde para continuar com o meu trabalho”, conta para num outro desenvolvimento afirmar que “em Moçambique ainda não legalizei a minha actividade, facto que se deve essencialmente à falta de mercado. Não quero gastar o meu pouco dinheiro para depois não ter benefícios. Mas, a minha vontade era de vender as minhas obras no meu país, só que não as compram”.

Zita habitualemte compra e manda abater árvores (mafureiras) em Ntenga, algures no município da Matola, numa zona pouco habitacional e com abundância de variedades de árvores, principalmente mafureiras, o alvo preferencial dos escultores. Nalgumas vezes os vizinhos ou outras pessoas que já sabem que este escultor compra mafureiras, vão ter com ele, combinam os preços e tudo mais.

Pagar 5 randes em cada quilo das obras

Para além de custear em cerca de 200 randes a sua viajem à África do Sul, Fernando deve pagar o imposto das suas obras para permitir que as mesmas transitem àquele país vizinho. O pagamento das taxas aduaneiras varia de acordo com o peso das obras, “em cada quilograma pago 15 randes, e gasto mais de 100 para efectuar esses pagamentos. Numa actividade cujo rendimento não é dos desejados, tirar este valor para poder exportar as minhas obras, é como colocar o dedo na ferida”, ajunta.

Perante este aparente triste cenário para este escultor, a melhor saída é produzir obras com menos peso possível, razão pela qual actualmente as suas obras rondam entre um e dois quilogramas de peso. “Dantes eu produzia obras com mais 5 quilos, mas parei porque tinha que pagar altas taxas alfandegárias para exportá-las. Se reduzirem as taxas posso recomeçar a produção de esculturas de grande porte”, diz.

“Mesmo com a falta de mercado vou apostar na escultura”

Fernando Zita com 15 anos de profi ssão, tem a esperança de que as coisas poderão mudar a qualquer momento. Acredita que as pessoas, sobretudo os moçambicanos, vão encarar o trabalho do escultor de outra maneira, dando mais valor ou consideração.

“Actualmente são poucos os meus compatriotas que dão importância às obras de escultura,e por mais que se faça uma signifi cativa redução do preço, não compram”, conta para depois acrescentar que ainda que, em Moçambique, o seu negócio tenha fracassado, durante a quadra festiva que se avizinha vai vender as suas obras nas praias e zonas turísticas como Vilanculo, província de Inhambane, onde tem se registado um elevado fluxo de turistas estrangeiros.

Para este escultor a madeira branca é a “melhor” para a produção de esculturas e é proveniente das árvores de mafura (entenda-se mafureiras). Segundo nos conta, os troncos deste tipo de árvores são relativamente mais resistentes que os do outro. Para garantir que haja matéria-prima para produzir, Fernando tem que abater mafureiras para poder ter os troncos e deles fazer as suas obras de arte.

“Pago entre 500 e mil meticais para comprar uma árvore e como não tenho motosserra para cortar as árvores, pago 500 meticais às pessoas que fazem o abate, e depois tenho que pagar o transporte dos troncos até à minha casa”, conta para depois ajuntar que se tivesse condições comprava uma motosserra e abatia pessoalmente as árvores, pois tal exercício não exige técnica nenhuma.

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