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Tony quer popularizar a Renqueia em Nampula

António Fernando (ou, simplesmente, Tony, como a sua legião de admiradores o trata, em Nampula) abraçou a música ao acaso quando ingressou no Grupo de Teatro da Escola Primária Completa da Barragem. Frequentava 7ª classe. No entanto, agora, aos 23 anos de idade, para além do sucesso, o cantor corre atrás de um sonho – popularizar a Renqueia – numa cidade em que a pirataria só agrava a falta de apoio a que estão votados os artistas.

António Fernando, 23 anos de idade, sendo natural do distrito de Ribáuè, na província de Nampula. Em 1992, a par dos pais que procuravam melhores condições sociais, migrou para a cidade de Nampula. É que, na altura, a sua família sobrevivia na base da actividade agrícola.

Durante a infância integrou-se em diferentes colectividades culturais que se dedicavam à produção de obras de teatro, participando em festivais do ramo. O Grupo Nrepo, com o qual, em 2005, trabalhou é disso exemplo.

Na mesma altura, teve oportunidades de fazer parte de outros movimentos culturais. Mas o artista preteriu-as a favor da Associação Cultural Casa Velha. Para o teatro, Tony revela uma grande vocação, mas, ao que tudo indica, é na arte de cantar onde se sente realizado.

Antes de abraçar a música, ele praticava outras actividades culturais e desportivas. O amor por esta arte evidencia- se em 2007, quando era aluno da 9ª classe. Os seus amigos convidaram-no a visitar um estúdio a fim de que ele visse como se trabalha no ramo. A experiência foi-lhe marcante, de tal sorte que começou a aprender algumas práticas da área, tendo feito a sua primeira composição e começado a cantar.

De acordo com o artista, apesar de em Moçambique os estilos de música Pandza, Dzukuta e Rap serem os mais projectados, ele prefere investir mais na Renqueia, que é um ritmo tradicional bastante explorado e apreciado em Nampula. O referido estilo de música está a ser expandido para outras regiões do país.

Foi com a Renqueia que Tony conquistou os corações do povo da terra das mulheres bonitas, sobretudo nas zonas rurais, onde a mesma é valorizada e preservada. Portanto, para o cantor, promover a música tradicional de Nampula – com enfoque para a Renqueia – é uma forma de fazer alguma diferença entre os seus contemporâneos que investem na música que está a ser mais projectada.

Refira-se, então, que nos primeiros anos da sua carreira, Tony foi criticado por alguns dos seus confrades por não apostar em estilos já popularizados como, por exemplo, o Pandza, o Dzukuta e/ou Rap a favor da Renqueia. É em virtude disso que, agora, o artista congratula-se por ter persistido.

“Eu não vou deixar de cantar este ritmo porque – com a música tradicional e/ou ligeira macua – sinto que o povo nativo, sobretudo das zonas rurais, recebe-a de bom grado. É uma forma de contribuir para a evolução da cultura com a produção genuinamente local”, contextualiza.

Actualmente, Tony possui 23 músicas gravadas. Deste universo, 20 estão registados em videoclipe. O cantor considera que as suas músicas se baseiam na realidade local e no quotidiano. E, como comenta, “nas minhas composições musicais, gosto de aconselhar a mulher e a criança a terem um comportamento social correcto”.

Novos desafios

O cantor diz que, neste momento, está a trabalhar para lançar no mercado o seu primeiro álbum. O mesmo irá comportar 12 faixas musicais, dentre as quais oito novas e quatro antigas. Trata-se de uma selecção favoravelmente criticada pelos apreciadores da sua música.

Personalidades como Nico, Reflex Bigodão, Bling, Puto Lito, Charifo e Victor Salimo são alguns artistas que participam no trabalho discográfico já esperado em Nampula. “Actualmente, nota-se que a maior parte dos moçambicanos gosta de escutar a música local. Por isso, nós, os músicos, vamos trabalhar no sentido de melhorar a qualidade da nossa produção artística para conquistar outros mercados”.

A pirataria sufoca-nos

De acordo com António Fernando, a prática da pirataria – “algo que nos sufoca, em todo o país” – deve-se, por um lado, à falta da união entre os músicos e, por outro, à não implementação da legislação vigente.

O artista considera que não há disciplina no sector da música. Em resultado disso, proliferam pessoas que pensam que podem ser músicos, mesmo não reunindo as mínimas condições para o efeito.

“O músico comporta-se assim porque ele quer sobreviver. Pretende realizar concertos a fim de ter o retorno do investimento que a produção musical acarreta”, considera Tony, quando instado a interpretar o fenómeno. No entanto, não ignora a raiz do problema: “os responsáveis pela pirataria são os artistas que não conservam as suas músicas. Por outro lado, o Governo – que nada faz para acabar com as cabanas de gravação de música nos bairros – também tem uma parte de culpa”.

O pior de tudo é que, de acordo com o músico, no lugar de combater a proliferação dos estúdios de gravação musical nos bairros da urbe, o Conselho Municipal da Cidade de Nampula dá-lhes licença para operarem no sector. “É por essa razão que eu julgo que o Governo, ao invés de combater este mal – que está a fragilizar a actividade cultural e os músicos – promove-o”.

O outro factor – apontado por Tony – que na cidade de Nampula desalenta os músicos, na sua actividade, é a precariedade dos cachês que auferem nos concertos. “Somos chamados a realizar shows, nas casas de pasto, mas quando chega a hora de fazermos a nossa proposta em termos de honorários, os promotores de eventos culturais e divertimentos públicos não concordam. Entretanto, por causa da carestia de vida, os artistas acabam por aceitar cachês míseros”.

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