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Toma que te dou: Jaimito Malhathini: um chopi seduzido pela América e morrido como um vagabundo

A inteligência de Jaimito Malhathini lê-se na testa. Nas palavras que saem em surdina. No silêncio também. Por vezes nos laivos de vociferação. Salimo Muhamed tem uma música cujo título é Walhanya, gravada na década de setenta, onde se percebe nitidamente a extraordinária capacidade de execução daquele que se vai transformar num dos principais fundamentos dos discos Amanhecer I e Amanhecer II, editados em vinil.

Há os que dizem que o maior guitarrista de todos os tempos terá sido Daíco. Pode ser que tenham razão, mas não queremos debater isso aqui. Jaimito é uma peça incomparável. Funciona independente. Mostrou de forma cristalina a todos a sua inteira disposição de enfrentar o cepticismo. E as fachadas. E as petulâncias. Jaimito indiscutivelmente é uma grande viola a solo. Está mais do que explícito em todas as suas intervenções registadas em matrizes e outras intervenções que não foram registadas. Ele tinha a consciência do seu valor e, provavelmente por saber disso, considerou que Moçambique seria pequeno para acolher o seu elevado porte. Partiu para outras terras e para outros mares. Sem pensar nas pedras do caminho. Que o esperavam.

Nos finais de 2008 vejo Jaimito Malhathini sentado à mesa da esplanada do Centro Social da Rádio Moçambique, em Maputo. Nunca o tinha visto antes mas quando o vi reconheci-o logo. Bebia um refrigerante da marca Fanta e comia uma sanduíche. Cobria a cabeça com um chapéu cuja pala está virada para a nuca, do tipo raper. Sujo. Vestia roupas andrajosas e sapatos por demais cambados. No chão, encostada à sua cadeira, jazia uma sacola sem classificação. Recheada. Mastigava despreocupadamente e não levantava a cabeça. De vez em quando metia as mãos por dentro das calças coçando os genitais e voltava a pegar na sanduíche que consumia com concentração para absorver todo o prazer. Falava aparentemente sozinho. Mas os esquizofrénicos não falam sozinhos. Comunicam com alguém invisível. E eu estou numa mesa na mesma esplanada assistindo ao pasto do chopi de Zandamela, à espera que ele acabe de se alimentar para o abordar.

Queria que ele falasse do seu percurso. Da sua vida. Dos sonhos desfeitos ou não realizados. Dos desesperos. Dos medos. Das cadeias americanas que o acolheram durante anos dolorosos. E quem sabe, dos seus projectos. Porém, o que encontrei em Jaimito assustou-me sobremaneira. O que ele me estampou na mente é a própria lucidez.

– Olha, para te conceder uma entrevista tem que haver um motivo. E neste momento não há. Tenho que fazer alguma coisa, gravar um disco, tocar num espectáculo qualquer. Aí sim, podes vir ter comigo para conversarmos. Nessa altura vais saber tudo o que quiseres de mim. Agora não, não há nada que me motiva a dar-te uma entrevista. Desculpa lá.

Era uma reacção por demais inteligente. Sábia. Equilibrada. Sensata. Sobretudo honesta. Jaimito falava com humildade enquanto enrolava o tabaco de um cigarro normal num papel branco. Deixava tudo claro. E se eu insistisse, seria uma grande estupidez da minha parte. Até certo ponto uma maldade porque o que Jaimito queria era estar no seu mundo à parte. Ruminar sozinho o sofrimento espiritual que encontrou nas terras que pisou. O que ele queria era levitar dentro de si mesmo. Andar com a manta por lavar às costas, para cobrir nas noites frias de Maputo. O aconchego que a família lhe oferecia não fazia sentido. Se fosse para voltar a viver normalmente Jaimito tinha que regressar aos Estados Unidos da América, onde queria vencer e não venceu. Foi derrotado. Foi preso por transpor a Lei americana. E isso destruiu o coração de um chopi que regressou à Zandamela, sua terra natal, durante um tempo, para derrubar os coqueiros do seu pai, no lugar de trepá-los e arrancar o coco para beber a sua água.

Mas a vida é inexplicável. Inesperada. Por vezes o homem torna-se pior que um cão. E morre a chafurdar como um suíno.

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