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A Ntyiso wa wansati: Todos os Mundos

Às vezes, é raro mas pode acontecer, conheces alguém com quem percebes imediatamente que te vais entender. Os psicólogos chamam-lhe empatia, eu chamo-lhe sorte. Uma pessoa com quem te entendes é uma pessoa a quem podes dizer tudo e com quem podes fazer tudo, como se os dois mergulhassem juntos não apenas num mundo, mas em todos os mundos possíveis.

A memória da pele nunca se engana. Nós sim, mas a pele não. As células são muito mais inteligentes a comunicar entre si do que nós. Nós pensamos demais, confiamos no cérebro como se este fosse uma máquina perfeita e ele quem melhor nos engana.

Sabias que o cérebro não tem capacidade para distinguir entre uma imagem que está a ver no presente e uma recordação? É por isso que tantas vezes ouvimos dizer não me sais da cabeça…Não é mentira nem fantasia, é mesmo assim que funcionamos todos.

Às vezes, e isto é ainda mais raro, essa pessoa parece feita de bocados de ti que deixaste para trás, como se ambos pertencessem a uma mesma ordem natural que o acaso e a ironia da vida se encarregaram de separar. E o mais assustador é que essa revelação, a revelação de uma ligação que está acima de todas as trivialidades, se vê no primeiro olhar.

Como se se abrisse uma porta que esteve sempre ali, escondida dentro da nossa cabeça, e quando lá entramos, conhecemos todos os mundos.

Talvez por isso te tenha reconhecido imediatamente assim que te vi, sem nunca me teres sido apresentado. Adivinhei o teu nome, não é estranho? Adivinhei o teu nome como quem lê a alma de alguém que nos é próximo.

E não há nada mais importante do que a alma, o Ser que temos dentro de nós, que nos faz lutar, sonhar e andar para a frente, mesmo quando andar para a frente significa ficar parado, à espera do momento certo.

Todos vivemos fechados no nosso mundo, não temos forma de sair dele. Vivemos todos sós, como numa prisão onde quase ninguém entra. Olhamos em volta e contamos pelos dedos as pessoas com quem conseguimos comunicar.

Encolhemos os ombros perante a imagem de quem já passou pelas nossas vidas e não deixou nada para trás, fechamos os olhos a quem vive debaixo do mesmo tecto e está mais longe do que se residisse numa outra galáxia. Viemos todos numa solidão que nunca escolhemos, porque nunca escolhemos nada, é a vida que escolhe tudo por nós.

E de repente, sem saberes nem como nem porquê, abre-se a tal porta, e atrás dessa porta está uma luz, e se seguires essa luz estás a entrar dentro de outra pessoa e quando ela entre dentro de ti e tu sentes que podes dizer tudo e fazer tudo, entraste em todos os mundos, mundos que nem imaginavas que fossem possíveis, como quem viaja ao centro da terra ou visita um outro planeta.

E então tu tens medo, é tudo quase novo, é tudo diferente, tens medo e não sabes o que fazer, ainda pensas em voltar atrás, mas a porta está ali, a chamar por ti, e tu hesitas, paras, escutas e olhas, sem saber o que fazer.

Devias passar a porta, devias seguir a luz, devias deixar-te ir como um balão que sobrevoa este e outros mundos. A vida é isto. É outra vida, uma vida diferente. Mas é melhor visitar todos os mundos do que viver toda uma vida fechado num mundo que já se conhece, sem portas nem luz, que não nos leva a lado nenhum.

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