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A Ntyiso wa wansati: Toda a Verdade

Queres que te conte toda a verdade, só a verdade nada mais do que a verdade, como dizem as testemunhas nos filmes americanos com a mão direita pousada na Bíblia?

Não tenho a Bíblia, perdi-a entre as sete mudanças de casa que fiz nos últimos dez anos, mas agora fazia-me falta. A minha amiga Teté abre-a todos os dias ao calhas à procura de respostas. E sabes que as encontra sempre? É uma sibila, a Tété.

Pouco mais de um metro e meio de gente, tão esperta como Edison, mais bonita do que a Sininho, mais poderosa do que a Madonna. Sabes porquê? Porque é boa pessoa e a bondade vence sempre.

Já estou a tergiversar, voltemos então à base, a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade; gosto de mudar de casa, mas se pudesse, já não mudava de homem. Estou cansada, quero encostar às boxes, como fazem os carros durante as corridas de Fórmula 1. Só que eles voltam para a pista e eu estou cansada de andar às voltas.

A vida é igualzinha a essas pistas, com curvas apertadas, rectas infinitas, armadilhas, árvores pelo caminho, cruzamentos que nem vemos, e metas, sempre metas, não interessa quantas voltas dás à pista, tens sempre metas para cruzar, horários para cumprir, contas para pagar, projectos que queres concretizar, sonhos dos quais não queres desistir.

E a verdade, querida Naná, é que ainda estou apaixonada por aquele rapaz dinamarquês que conheci no Verão, vinte anos mais novo do que eu que nunca tinha comido, percebes, nem andado de Mercedes.

Ainda sonho com ele, todas as semanas, e quando acordo, alagada de suor e de prazer, o perfume dele sobe-me pelo nariz e toca-me na memória e nas entranhas e só tenho vontade de apanhar o avião e bater-lhe à porta como se morasse na rua ao lado, assim, como quem não quer a coisa, e perguntar-lhe se também tem saudades minhas, se sonha comigo às vezes e se lembra do meu perfume quando acorda, se quer ir passar uns dias a Ibiza, apanhar sol, meter pastilhas e dançar até ao dia seguinte, alugar uma motoreta e voar pelas ruas estritas, comprar túnicas, colares de madeira e chapéus à cowboy, apanhar o barco até Formentera e ficar por lá para sempre, esquecida do mundo, a dormir e a acordar nos braços dele, como se nunca tivéssemos de lá saído.

O Inverno engana os sentidos com este calor despropositado, o clima anda a brincar connosco depois de termos andado a brincar com ele, é o planeta a vingar-se de nós, até é normal, vem na Bíblia, um dia isto acaba tudo, vem aí o Apocalipse e depois eu quero ver onde é que vamos todos parar, ao menos assistia ao fim do mundo feliz e contente, porque a verdade, querida Naná, é que ainda me vem à boca o sabor da boca dele, a minha pele ainda se lembra de pele dele colada à minha, com o sol de Formentera a lamber-nos as costas e o meu coração de mulher madura cheio como um figo, pronto a ser colhido e devorado, e se ninguém o apanhar, vou cair da minha árvore de solidão e depois quero lá saber se vem aí o Apocalipse ou um Tsunami, tanto me faz, enquanto isto não me passar também sou uma sobrevivente, porque o amor nunca mata, mas vai matando, vai corroendo, vai-te desgastando até não poderes mais lembrar, nem esquecer, nem coisa nenhuma.

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