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“Tive que ir a Nampula para descobrir que tinha covid-19” sobrevivente da doença na Cidade de Lichinga onde ainda não se testam casos suspeitos

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Decorrido mais de 1 ano desde a eclosão da pandemia em Moçambique a Província de Niassa continua sem capacidade para diagnosticar localmente os casos suspeitos de covid-19. “Tive que ir a Nampula para descobrir que tinha covid-19” revelou Magrete Chimbindo, sobrevivente da doença na Cidade de Lichinga. Outros cidadãos da capital provincial do Niassa disseram ao @Verdade que “a covid-19 é uma doença fabricada pelo governo a fim de reduzir a população e angariar mais apoios externos”.

A última província a notificar um caso positivo do SARS-CoV-2 continua sem laboratório para testar os casos suspeitos, as amostras são enviadas para a Cidade de Nampula ou mesmo para a Cidade de Maputo demorando quase 2 semanas para obter os resultados e contribuindo para uma seropositividade baixa, embora seja inúmeros os cidadãos de várias idades a padecer de doenças respiratórias.

“Em Novembro do ano passado adoeci, com tosse forte acompanhada por febres altas e que não passavam. Após tomar vários remédios que receitaram no hospital sem melhorar recorri a medicina tradicional, mesmo assim sem sucesso” começou por recordar Magrete Chimbindo, de 50 anos de idade, “sem forças para continuar, deixei o meu negocio de lado para priorizar a minha saúde”.

Separada, mãe de seis filhos adultos não tem ideia de onde pode ter apanhado o novo coronavírus, contudo não descarta que possa ter sido no seu local de trabalho o mercado Chiuaula, o maior da Cidade de Lichinga. “O meu filho aconselhou-me a ir a Nampula procurar outros serviços de saúde, depois de muitas análises que nada mostravam fui submetida a teste da covid-19”.

“O meu problema de respiração foi mal a pior, internaram-me no Hospital Central de Nampula e de seguida transferiram-me para outra enfermaria fora do recinto daquela unidade sanitária e então disseram-me que era positiva para a covid-19” lembra Magrete Chimbindo que teve receber oxigénio durante vários dias para recuperar da pandemia.

A nossa entrevistada declarou que pensou que não iria voltar a ver os filhos, e netos, “vi dois outros pacientes que estavam internados comigo a perderem a vida, fiquei 3 dias sem dormir, com medo de seguir o mesmo destino”.

Curada regressou a Cidade de Lichinga mas Magrete preferiu não contar as colegas do mercado sobre a doença que lhe custou quase todas as suas economias “fiquei com receio de ser rejeitada porque há muita ignorância, descriminação, desinformação. Mas acabei por ganhar coragem e expliquei a todos que de facto a doença existe, não quero que mais ninguém passe pelo que sofri”.

“Tentaram agredir-me, vandalizar a minha residência”

O comerciante internacional Samuel Gagiga afirmou ao @Verdade “sou o testemunho vivo desta doença, por duas vezes testei positivo. Uma no Malawi e outra cá no solo pátrio, assim como a minha esposa, tudo por minha ignorância, e pelo que passei, não gostaria que houvesse pessoa igual na mesma situação”.

Oriundo do Distrito do Lago este empreendedor de 46 anos de idade ganhava a vida vendendo produtos alimentares de Moçambique no Malawi e trazendo do lado de lá, de barco, capulanas e outros produtos apetecíveis. As medidas de contenção da pandemia condicionaram com o seu ganha pão, “para entrar lá é obrigatório fazer o teste PCR que custam 5.500 meticais para os estrangeiros”, disse ao @Verdade Samuel Gagiga que lembra-se que em Novembro de 2020 testou positivo para a covid-19 numa das viagens que fez ao Malawi.

“Como não tinha sintomas graves regressei ao Distrito do Lado para evitar um eventual isolamento, mas um conhecido desconfiou e denunciou-me publicamente. Outros cidadãos tentaram agredir-me, vandalizar a minha residência e só me salvei graças a pronta intervenção da policia. Refugiei-me na Cidade de Lichinga, para junto da minha família, onde apresentei-me as autoridades e, depois de ser medicado durante 2 semanas, disseram-me que estava fora do perigo”, relatou o comerciante que confidenciou que a mulher também acabou por contrair o novo coronavírus.

Dizem “que a covid-19 e uma doença fabricada pelo governo a fim de reduzir a população e angariar mais apoios”

Os transportadores de passageiros e de carga foram um dos grupos profissionais mais expostos a covid-19 na Cidade de Lichinga, Soario Mendes opera a rota Lichinga/Metangula e tem na memória os colegas que perdeu para a pandemia, “dois morreram no ano passado em circunstâncias estranhas e ao que tudo indica, deveu-se a esta doença, pelo menos um tenho a certeza que perdeu a vida por complicações respiratórias e porque não fez testes”.

Apesar da muita informação e sensibilização que tem havido os utentes dos transportes não observam as medidas de prevenção, “quando obrigamos os passageiros a usarem as mascaras eles zangam-se e outros até chegam a abandonar o carro, há desinformação cá em Lichinga dando conta que a covid-19 é uma doença fabricada pelo governo a fim de reduzir a população e angariar mais apoios externos”.

Soario Mendes não tem dúvidas que apesar dos poucos casos positivos e reduzido número de vítimas mortais a pandemia da covid-19 “trouxe desgraça para o sector de transporte, as receitas baixaram muito. Antes da eclosão desta doença transportávamos muitos passageiros para Metangula, fazia três viagens por dia, porque muitos são comerciantes que usam esta via para fazer ligação com Malawi, mas devido o aperto de cerco pela migração e que igualmente exigem testes PCR, muitos preferiram abandonar e esperar que as coisas regressem a um novo normal”.

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