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“The King’s Speech”, um conto de fadas inglês

Nesta época de prémios cinematográficos, vale a pena rever a lista dos indigitados. Se nunca representou alguém com uma deficiência física ou mental, uma história de maus-tratos nem tem sotaque, nem, pelo menos, um papel de homossexual, esqueça o sonho de chegar a um Óscar: não tem hipóteses. Há, no entanto, uma subcategoria que favorece a dramaturgia britânica: o caminho para os Óscares passa pela casa de campo real de Sandringham, o palácio de Windsor e o luxuoso sul de Londres. Um britânico que aspire a uma estatueta precisa de entrar pela realeza ou, pelo menos, pela aristocracia.

 

 

Tanto faz que seja Helen Mirren a fingir de Rainha ou Julian Fellowes a fazer-nos uma visita guiada aos diferentes estratos da sumptuosa casa de Gosford Park: as imitações de sangue azul são o segredo para ser chamado ao palco.

O mais recente beneficiário deste fenómeno é, naturalmente, “The King’s Speech”, nomeado para a grande noite dos Óscares. Porque é que os norte-americanos continuam a acarinhar estes temas?

A psicologia primária sugere tratar-se de um caso coletivo de projeção. Os norte-americanos pegam num aspeto da sua personalidade de que não gostam – neste caso, as hierarquias e as diferenças de classe – e atiram-no para cima dos outros, no caso, os britânicos. A rígida hierarquia de classes não existe nos Estados Unidos, mas ei-la no Reino Unido.

Nesta aceção, a Grã-Bretanha é o berço da desigualdade e da imobilidade social, ficando os Estados Unidos tacitamente favorecidos por contraste. Não admira que aplaudam: estas historietas animam-nos, mostrando quão atrasada é a nação que deixaram atrás de si.

Um mundo de vénias e mesuras

Naturalmente, o facto de o filme de Tom Hooper ser um prazer para os sentidos ajuda bastante; mas lisonjeia igualmente o seu público, elogiando implicitamente as atitudes mais avançadas dos espetadores da atualidade.

“The King’s Speech” descreve um mundo de vénias e mesuras, e cada cena gira em torno da chocante improbabilidade de um Rei gago recorrer à ajuda de um vulgar terapeuta da fala – e travar amizade com ele. Como isso se passa há mais de 70 anos, dá-nos a garantia de, embora se ponha a hipótese de termos sido assim em tempos, já não o sermos. A rigidez, o snobismo, são coisas do passado. Só que o mundo do “The King’s Speech” não se situa inteiramente no nosso passado.

Para começar, o atual primeiro-ministro, o presidente da Câmara de Londres e um grupo significativo dos nossos maiores atuais foram educados de uma forma perfeitamente reconhecível pelos homens que governaram em 1939. Quanto à monarquia, mantém-se praticamente intacta.

Veja-se o horror suscitado pelo recente rumor de poder haver greves no dia do casamento do príncipe Guilherme: como poderiam os sindicatos pôr sequer uma hipótese tão traiçoeira! É evidente que há grandes diferenças entre aquela época e os nossos dias. Houve tempos em que a autoridade da realeza assentava na grandiosidade e na força (personificadas no filme por Jorge V).

Mas, no período do pós-guerra, a realeza teve de modificar a sua maneira de estar, apresentando-se como um tipo extraordinário da família comum, uma exibição de domesticidade que atingiu o auge com o documentário televisivo de 1969, “Royal Family” [A Família Real], discretamente retirado depois de a Rainha ter decidido que tinha deixado fazer-se demasiada luz sobre o quotidiano real, com prejuízo de uma certa magia.

“The King’s Speech” sugere que, nos nossos dias, a realeza ganha a nossa afeição da mesma maneira que muitas celebridades – revelando as suas lutas contra a adversidade. Assim, aderimos melhor ao “Bertie” quando sabemos da sua infância fria e traumática – sovado por ser canhoto, posto à fome por uma ama maldosa. Assim, o filme puxa a Dianificação da monarquia para duas gerações antes, pedindo-nos que aclamemos Jorge VI, não pela sua majestade, mas pela sua vulnerabilidade.

Segunda Guerra Mundial: narrativa definidora de uma geração

Para tal, o núcleo emocional do filme localiza-se noutro ponto, especificamente na Segunda Guerra Mundial. O facto de o Rei estar apenas a ensaiar para a sua coroação, não interessa nada. Estar a preparar-se para se dirigir à nação em vésperas da guerra é que dá força moral à história. E assim, “The King’s Speech” é a confirmação de que a última Grande Guerra se transformou na narrativa definidora da nossa nação, quase o seu mito criador.

O que 1789 é para os franceses, o que 1776 é para os norte-americanos, 1940 é-o para os britânicos: o nosso maior momento de glória, em que estivemos sozinhos contra a ameaça nazi. Este é o período que os nossos filhos estudam na escola; toda a História anterior, incluindo a do Império, é cada vez menos patente. Quando recordamos o nosso maior antepassado, escolhemos Winston Churchill. Deste ponto de vista, os Windsor não são os porta-vozes ideais deste capítulo da nossa história insular. Como o filme deixa claro, o Rei precedente, Eduardo VIII, era um admirador de Hitler.

Como o filme não deixa claro, o incensado Rei Bertie emitiu uma mensagem para o ministro dos Negócios Estrangeiros, lord Halifax, na primavera de 1939, expressando a sua esperança de que os judeus, então desesperados para sair de Alemanha, fossem impedidos de o fazer. Halifax deu sequência ao desejo do seu Rei, enviando mensagem a Berlim, incitando a que o Governo nazi “atentasse na emigração clandestina” de judeus. Mas Jorge VI não é a parte da realeza que mais importa em “The King’s Speech”. Essa honra vai para uma personagem que quase não diz uma palavra: a jovem princesa Isabel.

A sua aparição neste filme é fulgurante, lembrando-nos que a atual Rainha estava presente em acontecimentos que se tornaram tão históricos como míticos. Vejamos: a Rainha reuniu semanalmente com 12 primeiros-ministros – o primeiro dos quais foi Churchill, uma figura tão gigantesca e afastada da maioria dos britânicos mais jovens como Nelson ou Wellington. Isto é central para a atração que a Rainha continua a exercer na nossa imaginação coletiva: é a conexão viva ao evento que se transformou na nossa história fundadora. É a última figura pública em todo o mundo com um laço genuíno à Segunda Guerra Mundial.

Isso, a par de uma longevidade que a torna uma das raras constantes na memória de novos e velhos, é uma das razões pelas quais os republicanos nunca encontrarão apoio para qualquer intervenção contra ela. “The King’s Speech” deixa a nu a dimensão do desafio para os que esperam ver a monarquia substituída por algo justo e democrático, depois da morte da Rainha. Terão não apenas de superar os habituais argumentos sobre sistemas e votos, mas também de desalojar os Windsor do seu papel de principais depositários da nossa memória nacional.

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