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Terroristas não dão valor a vida dos africanos – Barack Obama em entrevista à SABC

Terroristas não dão valor a vida dos africanos - Barack Obama em entrevista à SABC

Numa entrevista transmitida na passada semana pela televisão sul-africana, o Presidente dos EUA, Barack Obama afirmou que “por aquilo que se vê em declarações proferidas por estas organizações terroristas é que não encaram a vida africana como tendo valor intrínseco. Elas vêem África como um lugar onde podem levar a cabo lutas ideológicas que matam inocentes sem qualquer consideração pelas consequências a longo prazo, de modo a efectuarem conquistas tácticas a curto prazo,” acrescentou.

Leia em seguida a entrevista na íntegra, onde Obama disse ainda que era tanto trágico como irónico que as explosões tivessem acontecido enquanto as pessoas estavam a celebrar o sucesso de um Mundial acolhido pela África do Sul.

PERGUNTA: Sr. Presidente, ontem contactou com o Presidente Yoweri Museveni do Uganda, prometendo o apoio dos EUA após o duplo atentado em Kampala. Pode dar-nos alguns dos detalhes dessa conversa?

O PRESIDENTE: Bem, apresentei de imediato as condolências do povo americano por este crime horrendo que foi cometido. E eu disse ao Presidente que os Estados Unidos vão apoiar plenamente uma investigação aprofundada do que aconteceu. Al Shabaab assumiu a responsabilidade por esta atrocidades e vamos redobrar os nossos esforços, trabalhando com o Uganda, trabalhando com a União Africana, para nos certificarmos de que organizações como esta não conseguem matar africanos impunemente.

E foi tão trágico e irónico ver ocorrer uma explosão como esta quando as pessoas em África estavam a celebrar a e ver a Copa do Mundo que se realizou na África do Sul. Por um lado, temos uma visão duma África em movimento, uma África unida, uma África que se está a modernizar e a criar oportunidades e, por outro lado, temos uma visão da al Qaeda e da Al Shabaab que é de destruição e morte.

Penso que este é um contraste bastante c

laro em termos do futuro que a maioria dos africanos quer para si e para os seus filhos. E temos que ter a certeza de que estamos a fazer tudo ao nosso alcance para apoiar aqueles que querem construir em vez de destruir.

P: Estes ataques têm muito a ver com o que se passa actualmente na Somália. Como é que isso altera, se alterar, os planos dos Estados Unidos relativamente ao Governo Provisório no poder?

O PRESIDENTE: Bem, olhe, obviamente a Somália passou por um período de guerra, de conflito. O Governo Provisório ainda está a tentar erguer-se. Mas o que sabemos é que se a Al Shabaab obtiver cada vez mais controlo na Somália vai exportar a violência tal como acabou de fazer no Uganda. Então, temos que ter um esforço multinacional. Isto não é algo que os Estados Unidos devam fazer sozinhos, o Uganda ou os outros devam fazer sozinhos, mas sim a União Africana na sua missão na Somália, trabalhando com o Governo Provisório para tentar estabilizar a situação e começar a colocar esse país numa via que proporcione oportunidades às pessoas em vez de criar um viveiro de terroristas.

P: O antigo Embaixador americano na Tanzânia – deve conhecê-lo, Charles Stith – escreveu recentemente um artigo sobre o Islão radical em África, concretamente, e gostaria de citar algo que ele disse.Ele disse: “Tornou-se mais claro para mim que o pequeno segredo insidioso que ninguém queria discutir abertamente era o efeito corrosivo do Islão político e o impacto negativo no desenvolvimento e na estabilidade do continente africano. É indiscutível que o Islão é um factor em África”. Na sua opinião, existem estratégias para enfrentar isto?

O PRESIDENTE: Bem, eu penso… veja, o Islão é uma grande religião. É uma religião que se desenvolveu lado a lado com outras religiões em África. E uma das grandes forças de África é a sua diversidade não só de religiões mas também de raças e etnias. Mas o que se tem visto em termos de islamismo radical é uma abordagem que diz que qualquer esforço para modernizar, qualquer esforço para garantir direitos humanos básicos, qualquer esforço para democratizar é de certo modo contra o Islão.

Penso que a grande maioria das pessoas que praticam a religião islâmica rejeitam isso. Penso que os povos de África rejeitam isso. E o que vimos em algumas das declarações feitas por estas organizações terroristas é que não consideram a vida africana valiosa em si. Consideram-na como um local aonde podem travar batalhas ideológicas, que matam inocentes sem se importar com as consequências a longo prazo das suas conquistas tácticas a curto prazo.

E é por isso que é tão importante, mesmo quando lidamos militarmente com organizações como a Al Shabaab, que também nos ocupemos da agenda do desenvolvimento e aproveitemos modelos de países como a África do Sul, que estão a tentar seguir a direcção certa, que têm empresários de sucesso, que têm democracia e liberdades humanas básicas, que realcemos os exemplos em que os africanos conseguem ser donos do seu destino e com boas perspectivas de os Estados Unidos serem um parceiro eficaz nisso.

P: Então é uma ligação com a pobreza, é o que está a dizer.

O PRESIDENTE: Bem, não é apenas uma ligação com a pobreza. Quero dizer, há uma componente ideológica que também deve ser rejeitada. Há jovens, que se não tiverem uma oportunidade, ficam mais vulneráveis a estas ideologias erradas, mas também temos que admitir que uma agenda anti democrática, anti liberdade de expressão, anti liberdade de religião, que é o que uma organização como Al Shabaab promove, muitas vezes segue de mãos dadas com a violência.

P: Sudão. O Tribunal Penal Internacional acrescentou acusações de genocídio ao mandado de captura do Presidente do Sudão Omar al-Bashir. Há uma opinião em África, certamente na União Africana, de que a perseguição ao Presidente Bashir enfraquecerá e prejudicará o processo de paz de Doha. Qual é a sua opinião?

O PRESIDENTE: Bem, a minha opinião é que o TPI emitiu um mandado de captura. Pensamos que é importante que o governo do Sudão coopere com o TPI. Pensamos que é também importante que as pessoas sejam responsabilizadas pelos actos praticados em Darfur e que tiveram como resultado, no mínimo, centenas de milhares de vidas perdidas.

E por isso tem que haver responsabilização, tem que haver transparência. Obviamente estamos a tentar contribuir activamente para que o Sudão se estabilize, a ajuda humanitária continue a chegar, para que o referendo e a possibilidade do Sul do Sudão se tornar independente no âmbito do acordo que foi negociado se concretizem. Portanto, é preciso conseguir um equilíbrio.

Queremos avançar de forma construtiva no Sudão, mas também pensamos que tem que haver responsabilidade e por isso apoiamos plenamente o TPI.

P: A paz não fica em risco se ele tiver que se apresentar ao TPI?

O PRESIDENTE: Bem, penso que a paz está em risco se não houver transparência e responsabilidade pelos actos que estão a ocorrer, quer seja no Sudão quer em qualquer outra parte do mundo.

P: O Mundial , Sr. Presidente, mencionou isso. Até certo ponto, eu imagino que em todo o mundo, foi ofuscada pelo que aconteceu no Uganda. Contudo, a África do Sul estava a gozar a glória de ter acolhido com sucesso este Mundial. Mas reconheçamos que houve cépticos, e bastantes, que se fizeram ouvir bem alto. Pergunto se foi um deles.

O PRESIDENTE: Não, não fui. Estive na África do Sul e vi a vitalidade extraordinária do seu povo, conheci o Presidente Zuma e compreendi o orgulho extraordinário que o seu governo exprimiu, que julgo ser um orgulho comum a todos os sul-africanos e acreditava que ia ser um sucesso.

Obviamente, foi um exemplo extraordinário não só para a África do Sul, mas para a África em geral porque o que sobressaiu foi que a África, apesar de todos os estereótipos que lhe são atribuídos, de todas as falsas perspectivas sobre a capacidade de África, quando lhe é dada uma oportunidade a África é um continente cheio de líderes, empresários, governos que podem funcionar eficazmente.

O que temos que fazer agora é aproveitar essa imagem positiva saída da Copa do Mundo. E quando estive no Gana no ano passado, fui muito claro acerca do que penso que deve ser a agenda: África para africanos. Isso significa que podemos ser parceiros dos africanos, mas em última análise, quer se trate de eliminar a corrupção, assegurar transições suaves de governos democráticos ou fazer com que os negócios floresçam e prosperem e os mercados funcionem para o mais pequenos agricultor e não apenas para os que têm mais relações, essas são questões que os africanos podem resolver conjuntamente.

E quanto à minha ideia de trabalhar para ajudar ao desenvolvimento de África, queremos fornecer recursos, queremos fazer parcerias com os que estão interessados em desenvolver a sua própria capacidade ao longo do tempo e não depender da ajuda externa a longo prazo.

P: No Gana também se referiu à necessidade de parar com as acusações.

O PRESIDENTE: Sem dúvida. Bem, veja. Eu acredito que se conversar com o cidadão comum no Quénia, na África do Sul, na Nigéria ele vai falar duma história trágica em termos de colonialismo e de influência negativa do ocidente. Contudo, penso que também reconhece que o seu maior problema neste momento é o polícia que o faz tremer ou a sua incapacidade de conseguir um telefone a tempo no seu escritório, ou ter que pagar um suborno. Esses são obstáculos ao desenvolvimento agora. E essas são coisas que os africanos podem resolver se houver determinação e uma liderança forte.

E Nelson Mandela fez-nos compreender quais os critérios de liderança que são necessários e penso que esses critérios podem ser cumpridos. Estamos a ver países em todo o continente que estão a começar a cumprir esses critérios elevados, que são tão necessários para finalmente ajudar as pessoas.

P: Queria falar acerca do Presidente, do antigo Presidente Nelson Mandela dentro de instantes, mas antes falemos desta candidatura, a candidatura dos EUA para acolher a Copa do Mundo em 2018 ou 2022. Até que ponto os americanos se interessam por futebol? Parece-me que estão a gostar bastante.

O PRESIDENTE: Ouça, parece-me que viu um salto quantitativo este ano devido à excelência da equipa americana. É absolutamente verdade quando dizem que o basebol é o desporto nacional aqui nos Estados Unidos, que o basebol é sem dúvida uma invenção nossa e que dominamos o futebol americano. Estes são desportos que se desenvolveram aqui e com os quais os Estados Unidos estão obcecados. O futebol chegou mais tarde. Mas o que se viu com a equipa americana foi um grande entusiasmo que eu não tinha visto antes em relação ao futebol.

E as gerações mais novas interessam-se muito mais por futebol do que as gerações mais velhas. Quero dizer, as minhas filhas jogam futebol e prestaram atenção a quem estava a fazer o quê na Copa do Mundo. Também julgo que o que iremos continuar a ver é um entusiasmo crescente e penso que as pessoas realmente querem que a Copa do Mundo se realize aqui nos Estados Unidos.

P: Gostaria de abordar a questão da SIDA. Sr. Presidente, tem havido muito apreço e boa-vontade para com os Estados Unidos devido à Iniciativa Mundial de Saúde da qual o PEPFAR é a pedra angular. Contudo há algumas críticas de grupos que trabalham na área da SIDA de que na África do Sul há na verdade uma diminuição real no financiamento embora haja um aumento de 2.3%. Como é que responde a isso? Baseia-se na inflação. A inflação nos países em desenvolvimento tende a ser superior à dos Estados Unidos. É um aumento de 2.3% e estão a dizer que é um aumento real.

O PRESIDENTE: Bem, tenho que dizer que estamos a ver não uma diminuição mas sim um aumento no PEPFAR, um aumento na Iniciativa Mundial de Saúde. E asseguro-lhe que quando luto por esse orçamento aqui nos Estados Unidos, as pessoas não vêem isso como uma redução. Vêem-no como um aumento. Compreendem que estamos a atribuir-lhe mais dinheiro que é o que deve ser feito. Queremos ter a certeza de que, por mais êxito que o PEPFAR tenha tido, por mais importante que seja para nós ter medicamentos anti-retrovirais ali, também estamos a ajudar a reforçar capacidades, de acordo com o que disse antes.

Assim, por exemplo, o que estamos a fazer em termos de criação de sistemas de saúde pública e de infra-estruturas em lugares como a África do Sul para que se reduzam os casos de infecção? Estamos a tratar não só da doença, mas também a fazer um trabalho muito melhor em termos de saúde pública, em geral, para que menos pessoas fiquem infectadas, em primeiro lugar. Julgo que é este o tipo de nova orientação que vão começar a ver em algumas áreas. Continuaremos a aumentar os medicamentos anti-retrovirais, a atribuir milhões de rand, biliões de dólares para assistência básica, mas também queremos capacitar ao mesmo tempo.

P: Última pergunta, Sr. Presidente. Nelson Mandela faz 92 anos no domingo. Quais são os seus pensamentos?

O PRESIDENTE: Bem, em primeiro lugar está com um óptimo aspecto.

P: Não está?

O PRESIDENTE: E quando falei com ele ao telefone depois da perda trágica da sua bisneta, pareceu-me tão lúcido e encantador como sempre. E continua a ser um modelo de liderança não só para a África do Sul, mas para o mundo. Por isso, celebramo-lo aqui nos Estados Unidos como vocês fazem na África do Sul.

Desejamos-lhe tudo de bom. E somos constantemente recordados de que o seu legado de considerar todos igualmente importantes, de não fazer distinções baseadas na classe ou na raça mas sim no carácter da pessoa, é um bom indicador para todos nós sobre como devemos agir como líderes. E assim desejo-lhe a maior felicidade. E a África do Sul continua, julgo eu, a ser abençoada não só com um tesouro nacional mas com um tesouro mundial.

P: Os sul-africanos desejam-lhe o melhor. Muito obrigado. Foi muito bom conhecê-lo.

O PRESIDENTE: Obrigado. Foi um prazer.

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