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Sónia André, a feminista durona

Sónia André

Reflectindo sobre a conversa mantida com a actriz moçambicana, Sónia André, a protagonista, com a filha Thandy, da curta-metragem Mwany, do realizador brasileiro, Nivaldo Vasconcelos, nada mais nos resta senão admitirmos que ela é, fundamentalmente, uma feminista durona. Saiba as razões…

Como narrámos, em artigos anteriores, podíamos, pura e simplesmente, sancionar favoravelmente à actriz moçambicana, Sónia André, pelo facto de há sete anos – quase sem nenhuma informação específica, muito menos alguém que a acolhesse com a sua prole, recém-nascida – ter-se deslocado ao Brasil, onde cursou arte e educação musical, na qualidade de marinheira de primeira viagem e, mesmo assim, ter sido bem-sucedida.

Mas, tanto o que ela vive, em Mwany, como a forma como ela enfrenta as peripécias da vida, essa sua mundivisão, são factos que nos mostram que André possui um feminismo atípico e, antropologicamente, fundamentado nalguma ancestralidade sem a qual nunca seria possível a sua transcendência. E aqui, vale a pena esclarecer, entendemos a transcendência como a capacidade que ela possui de se impor, como mulher, tornando a sua superioridade factual. Para tal, é preciso ser-se bravo, ou melhor, ser-se brava.

E Sónia, que ‘acusa’ a sua avó de ter proferido tal discurso replicado em Mwany é “tão brava como uma vagina à procura do pénis”. Diz assim mesmo! “E isso é um sinónimo de feminilidade e da força e controlo feminino”, comenta o director da obra cinematográfica, Nivaldo Vasconcelos, que manteve essa passagem em reconhecimento da sua aguçada feminilidade.

Até porque “o nosso filme fala sobre a mulher, a Sónia André que cria a sua filha sozinha, remetendo-nos à experiência da sua mãe e da avó que disse essas palavras muito significativas”. Entretanto, apesar de que Sónia André não esperava que Nivaldo Vasconcelos colocasse essa mensagem no filme, o que faz com que ela mesma enfatize que quem a proferiu é a sua avó que, desta vez – e numa situação típica de expressão de nostalgia – a mesma sentença inspirou a neta a parafraseá-la. Facto curioso é que, entre as pessoas que vêm o filme, ninguém ousa ignorar a sua originalidade.

“É uma mensagem muito original”, diz Djalma Lourenço, o director do Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema, congratulando-se de tê-la ouvido.

A natureza é feminina

Estamos perante um filme feminista. E por essa razão, levando o seu ponto de vista ao extremo, Sónia André diz que “tenho orgulho de fazer parte das mulheres, sem as quais a sociedade não existiria. O problema é que os homens têm esse carácter machista, o que lhes faz pensar que eles são quem manda, o que não é verdade. Quer queiramos quer não a natureza é feminina. E se assim for, a mulher é que manda e descomanda”.

É com esses discursos, compreendidos por alguma corrente de opinião como incendiários, que a actriz que também é pedagoga musical desconstrói alguns discursos constructos.

“A ideia machista, segundo a qual, ‘por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher’ é problemática. Nós não estamos atrás de nenhum homem. Jamais estivemos. Mas sim estamos do lado”, afirma. E não lhe faltam argumentos: “O hino da mulher moçambicana foi muito feliz ao considerar a mulher a ‘companheira inseparável do homem engajado na luta contra a velha sociedade exploradora’”.

O que, em parte se pretende explicar, e nós convimos, é que “se não tivessem sido as mulheres a manter a sua alimentação, os nossos camaradas não podiam ter libertado o país. E em casa, ainda que o homem trabalhe e traga a comida e dinheiro, no fim do mês, se a mulher não cozinhar ele não terá o que comer”.

De acordo com Sónia André, a supremacia (do poder) da mulher é imensa de tal sorte que, compreendendo o instinto ‘selvagem’ com que os homens agem, as mulheres conseguem moldá-los de modo a pensarem que eles têm a liberdade para determinar as regras de qualquer jogo, incluindo as relações intimas.

Por exemplo, diz André, “dentro do quarto, se o homem andar a desafiar a mulher, só vai atingir o ponto G, que é aquela coisa ‘selvagem’ do ser humano, e, infelizmente, não irá sentir o que, em condições normais, necessariamente experimentaria enquanto parceiro da mulher”.

Para a actriz, o homem pode-se ‘libertar’ por causa da sua natureza ‘selvagem’, “achando que a mulher lhe deixou agir dessa forma porque ele manda nela, o que não é verdade. A mulher compreende que o homem é idiota, e pensa que agindo de forma rude pode conquistar o que quer, então, que assim seja. No entanto, é em resultado disso que ele não atinge a sua satisfação na plenitude”.

Pequena biografia

Sónia André é pedagoga musical e actriz de cinema. Em Moçambique frequentou o Instituto Superior Politécnico e Universitário, ISPU, actual Universidade A Politécnica. No Brasil, nos cursos de pós-graduação, formou-se em Ensino de Artes na Universidade Federal de Alagoas, onde, recentemente, concluiu o seu mestrado, com nota máxima, em Educação Musical.

A obra Mwany, um sucesso de crítica e prémios nos mais conceituados festivais brasileiros, realizado pelo brasileiro, Nivaldo Vasconcelos, narra a sua vida, é a sua primeira participação cinematográfica como actriz.

Presentemente, Sónia vive no Brasil, para onde foi com uma criança de seis meses, Thandy da Conceição, há sete anos. Recentemente esteve na sua terra-natal, no âmbito do VIII Festival Nacional de Cultura, ocorrido em Inhambane, onde, a par da cidade de Maputo, a capital do país, exibiu-se o filme Mwany.

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