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Sofrem maus tratos mas encontraram apoio num centro de velhice em Nampula

Artur Muruha, de 55 anos de idade, natural de Nanhupo Rio, no distrito de Mogovolas, e Luciano Mualeti, que não sabe em que ano nasceu, mas aparenta ter 70 anos, oriundo de Nétia, distrito de Monapo, são dois idosos que partilham o mesmo espaço no único Centro de Apoio à Velhice da Cidade de Nampula. As razões da sua estadia nesta instituição são as mesmas: foram humilhados, maltratados e rejeitados pelos seus próprios parentes, incluindo os filhos, que os acusam de feitiçaria. Apesar de terem sido abandonados pela família, os nossos interlocutores afirmam que se sentem bem no asilo e desde que lá estão têm amparo, dignidade e as suas vidas mudaram para o melhor.

Os anciãos declararam, de forma unânime, que estão satisfeitos na “nova casa” mas não se esquecem jamais dos momentos difíceis pelos quais passaram nas suas zonas de origem. Consideram que hoje levam uma vida digna e regrada, cumprem os horários das refeições, devendo recolher aos dormitórios até às 20 horas o mais tardar.

No Centro de Apoio à Velhice onde se encontram acolhidos não exercem nenhuma actividade devido à sua incapacidade física, mas passam o tempo de forma descontraída e a participar nos cultos religiosos. Todavia, nunca foram visitados pelos familiares.

A par de outros idosos que se encontram a residir no Centro de Apoio à Velhice de Nampula, Artur Muruha e Luciano Mualeti são cegos, uma deficiência contraída na idade adulta e da qual nunca mais foram curados.

Ao todo são mais de oito anciãos albergados no centro em alusão e, neste momento, um dos grandes constrangimentos é o fraco fornecimento de água devido a constantes restrições por parte do Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água (FIPAG).

Em Moçambique, grande parte dos idosos é exposta a maus tratos e acusações de feitiçaria, agressões físicas, factos que põem esta camada social numa situação de vulnerabilidade e deixada à sua sorte sem o amparo dos familiares, segundo Teresinha da Silva, membro do Fórum da Terceira Idade.

A interlocutora do @Verdade disse que os maus tratos perpetrados pelos parentes dos anciãos são uma parte dos problemas originados pela falta de meios de subsistência em muitos lares. Por isso, pensa-se, erradamente, que expulsar quem tem uma idade avançada (pai, mãe ou avó) é a solução para os problemas existentes.

Algumas pessoas da terceira idade que são violentadas quando sofrem de doenças graves enfrentam situações em que os seus filhos correm com eles de casa, ficam sem alternativas e refugiam-se em estabelecimentos de caridade. O país possui 19 centros de acolhimento, dos quais nove estão sob a tutela do Governo e 10 de entidades privadas.

Da Silva disse-nos que a cada dia que passa há mais idosos rejeitados pelos filhos por outros familiares. No entanto, em todo o país, somente as províncias de Nampula, Zambézia, Sofala, Manica, Inhambane, Maputo província e cidade têm centros de acolhimento para aliviar o sofrimento deste grupo de pessoas. A nossa entrevistada disse que está preocupada com a falta de valorização dos anciãos por parte dos parentes.

Artur Murula é chefe de outros idosos que se encontram no Centro de Apoio à Velhice em Nampula em virtude de terem sido abandonados pelos parentes que os acusava de vários malefícios, dos quais ser responsáveis pela má sorte dos seus filhos, netos e/ou mesmo de noras. Ele recorda que quando era jovem exercia a actividade pesqueira no distrito de Angoche, onde tinha fixado a sua residência e vivia na companhia da sua esposa e do tio. Murula disse que quando foi expulso de casa sofreu bastante até que um dia teve a sorte de ser apoiado pela Acção Social em Nampula.

Não sabem se ainda têm família

Artur Muruha e Luciano Mualeti disseram à nossa Reportagem que, para além de não estarem capacitados para realizar nenhuma actividade que assegure a sua sobrevivência sem que tenham de depender necessariamente do apoio do centro, a cegueira atingiu um estágio severo que já não lhes permite reconhecer as pessoas, por isso não sabem se têm família ou não, até porque nunca ninguém os foi visitar e identificar-se como seus parentes.

Muruha, por exemplo, contou-nos que estima que, desde os 28 anos de idade, leva uma vida marcada por obstáculos. “Quando contraí a doença fui transferido de Angoche para Nanhupo Rio, minha terra de origem, onde passei a viver com a minha avó. Meses depois, ela faleceu e algumas pessoas da religião cristã construíram uma residência na qual vivi e ainda providenciaram alimentos.”

Segundo o idoso, dois anos mais tarde, os cristãos abandonaram a região de Nanhupo Rio e o deixaram desamparado. Começou a passar dificuldades mas, felizmente, foi recolhido pelas autoridades locais para o Centro de Trânsito de Maratane em Nampula, de onde posteriormente foi transferido para o Centro de Apoio à Velhice da mesma província. Todavia, a nossa fonte disse ainda que se recorda de que em Angoche deixou três filhos órfãos de mãe. No asilo onde vive actualmente casou- se novamente. “Tenho uma machamba mas não consigo sachar e quem o faz é a minha esposa.”

Luciano Mualeti explicou-nos que antes de viver no actual estabelecimento de caridade estava casado mas a sua companheira e uma filha faleceram em 2005. Mualeti lembra-se de que tem dois filhos vivos e três netos todos menores de idade. Contudo, as suas dificuldades começaram em 2001 quando perdeu a visão.

A partir dessa altura passou a ser um fardo para a família porque precisa de apoio para realizar diversas actividades. Quando a esposa perdeu a vida, Mualeti e os filhos viviam graças à caridade dos vizinhos, e mais tarde beneficiou do apoio do Instituto Nacional de Acção Social. Esta decidiu transferi-lo para o centro de velhice e as crianças para o Infantário Provincial de Nampula.

Uma das netas abandonou o estabelecimento destinado a crianças desfavorecidas e regressou ao distrito de Monapo, onde se casou precocemente. Enquanto isso, um dos netos ainda se encontra no infantário provincial e está a frequentar a 7ª classe.

Assistência aos idosos é assegurada pela Acção Social

O delegado do Instituto Nacional de Acção Social em Nampula (INAS), Filipe Augusto Bô, disse que a sua instituição desembolsa, em média, cerca de quatro milhões de meticais mensais para suportar actividades de assistência social básica. Este trabalho envolve a transferência de valores em forma de pensões, proporciona serviços sociais aos infantários e ao Centro Apoio à Velhice locais, bem como para o combate à mendicidade, apoio a crianças vulneráveis, assistência médica e medicamentosa, dentre outras actividades.

O nosso interlocutor disse ainda que até a semana passada o centro tinha um total de 15 idosos, mas a cada dia que passa o instituto recebe novos pedidos para o acolhimento de idosos. Relativamente ao programa de subsídio básico do qual beneficiam os grupos sociais vulneráveis, Filipe Augusto disse que no primeiro trimestre do ano em curso a delegação do INAS em Nampula já tinha sido assistido 13.740 pessoas, incluindo idosos.

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