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“Sempre me bati pela verdade desportiva”

“Sempre me bati pela verdade desportiva”

Artur Semedo, ao vencer o seu segundo campeonato, garantiu um lugar na história do futebol moçambicano à custa da qualidade do seu trabalho. E, claro, de lhe terem dado condições e uma boa estrutura na Liga Muçulmana.

Os muçulmanos venderam Jumisse e, no final da primeira volta, foram surpreendidos pela lesão de Binó. Chegaram inúmeros reforços, alguns verdadeiramente desacreditados. Falou-se num conjunto mais musculado, mas principalmente na necessidade de fazer uma nova equipa. A Liga começou por caminhar aos tropeções, mas a vitória frente ao Desportivo, na terceira jornada, foi o ponto de viragem. Vling, Amílcar, Cantoná, Carlitos e, mais tarde, Paíto foram sendo burilados e a equipa que terminou a época já nada tinha a ver com a que deixou dúvidas nos primeiros meses.

@Verdade falou com Artur Semedo sobre a actualidade do futebol moçambicano. Entre outras coisas, o técnico diz que Nelson é um craque e que há falsos moralistas no futebol moçambicano…

(@Verdade) – Como olha para o estágio do futebol nacional.

(Artur Semedo) – Aparentemente está bem, mas subsistem todos aspectos negativos que fiz questão de referenciar ao longo destes anos. O atraso estrutural que este futebol enferma nas componentes organizativas e organizacionais, isto na gestão orgânica do futebol; depois há outros aspectos que vão desde a formação aos quadros técnicos para o desporto, concretamente os treinadores; a aptidão dos jogadores é os próprios clubes enquanto entidades rentáveis para sustentar o futebol no espaço geográfico onde se encontram inseridos. Por outro lado, a relação entre as entidades instituídas para gerir o futebol (Ministério da Juventude e Desportos, Federação Moçambicana de Futebol, Liga Moçambicana de Futebol) é deficiente e, obviamente, essa lacuna dá-nos o futebol que temos hoje. Ou seja, estes grandes grupos vivem de forma desordenada.

(@V) – Quando chegou ao país deparou-se com um tipo de problemas. Esta a dizer que ainda hoje são os mesmos?

(AS) – Continuam a ser os mesmos, com algumas melhorias. Mas do ponto de vista estrutural existem, muitas vezes determinados pelas pessoas que ocupam os lugares de decisão. Entretanto, hoje temos um campeonato melhor organizado, embora apresente lacunas que podiam ser erradicadas há muito tempo, mas porque há interesses de quem gere os destinos do futebol os problemas vão se perpetuando. A qualidade dos treinadores, ainda que deficitária, está melhor. As equipas são melhor acomodadas, já existe uma relação mais dinâmica com a CAF e a FIFA.

(@V) – Como podemos melhorar.

(AS) – Hoje todo mundo tem acesso a informação em tempo útil, não custa nada percebermos o que se passa nos outros campeonatos com maior competitividade. A partir daí podíamos absorver a experiências dos outros. No entanto, creio que essas coisas não são debatidas e nem são públicas. As pessoas continuam a primar por um exercício cada vez mais doméstico, apesar desses exemplos internacionais. Ainda assim ambicionamos coisas que só os melhores é que podem atingir, o que contrasta com a nossa forma de estar. Isso é bizarro.

(@V) – Falou da melhoria do nível dos treinadores. Isso reflecte-se na melhoria das equipas do Moçambola?

(AS) – Quando estou a falar da melhoria dos treinadores não quero dizer que eles do ponto de vista técnico são razoáveis. Não propriamente nesse sentido. Nos últimos anos há formações que, não sendo boas, têm permitido que os treinadores possam melhorar em alguns aspectos. Por isso noto nas equipas algumas melhorias, mas muito longe daquilo que seria desejável para termos um campeonato melhor.

(@V) – As equipas poderiam estar melhores.

(AS) – Neste momento estão, embora apresentem lacunas gravíssimas. O treino tem de ser visto em várias perspectivas. Por exemplo, há equipas que não têm jogadores com qualidade para lutarem pelo título. Hoje, elas assumem claramente um projecto defensivo para não descerem de divisão. Isto quer dizer que os seus treinadores já perceberam que não têm material humano para lutar por lugares que não sejam aqueles. Algo que em anos anteriores eles ignoravam.

(@V) – Nos grandes campeonatos as equipas técnicas englobam elementos que observam os jogos dos adversários. A Liga tem quadros que fazem isso?

(AS) – Nos jogos em Maputo sim, mas devo dizer que provavelmente seja o treinador que dispõe de uma equipa técnica alargada no Moçambola. Fiz questão de ter uma equipa multidisciplinar, com lacunas próprias do nosso meio. Mas por razões de natureza estrutural, outras por imperativos financeiros não fazemos tanto como desejaríamos, sobretudo por uma questão primeira que é a mão de todas essas contrariedades: a nossa mentalidade. Isso não é culturalmente aceite no nosso meio.

(@V) – Tem o plantel que desejava na Liga?

(AS) – Não. Disse-o diversas vezes no início da época. Até porque transitavam alguns jogadores do campeonato passad0 que, por imperativos contratuais, tiveram de continuar no grupo de trabalho e outros que entraram por minha indicação, numa perspectiva de curto prazo, para atender situações pontuais. Este é o melhor plantel que poderia ter para esta época, mas não é o ideal.

(@V) – Qual é o sector que mais o inquieta na equipa. Nota-se que o processo de transição defensiva, apesar de a Liga ter sofrido poucos golos, é a maior lacuna da equipa. Por outro lado, é uma equipa bastante perdulária.

(AS) – Não será só o ataque a merecer a minha atenção. Desde a baliza ao ataque vamos fazer reajustamentos. Até porque só ficará, no clube, aqueles jogadores que deram indicadores fiáveis para o meu modelo de jogo. Permanecerá uma estrutura que nos permita arrancar sem sobressaltos a nova época, mas não será o grosso do plantel de que disponho está época.

(@V) – O Desportivo de Maputo da época passada era uma equipa rápida em transição defensiva, jogava com as linhas de pressão bastante subidas. A Liga faz o mesmo ao nível do meio-campo, mas o processo de transição defensiva é, muitas vezes, descoordenado.

(AS) – Desde a primeira hora treino o modelo de jogo das minhas equipas, muitos vão compreender isto de forma simplista. O que é treinar modelo de jogo? É só treinar o posicionamento dos jogadores? É só treinar o lado técnico? Treino a minha equipa para que recupere a bola o mais rápido possível e adquira os fundamentos do meu jogo, depois ao longo da época vou optimizando os processos.

(@V) – Insisto. O Desportivo, da época passada, jogava com os sectores muito próximos e, por via disso, recuperava muito mais rápido a posse de bola do que a Liga. Os jogadores da Liga parcialmente posicionam-se da mesma forma no terreno de jogo, mas nota-se nos centrais, sobretudo no Fanuel, a tendência de recuar para junto da área.

(AS) – Isso está relacionado com as características individuais dos jogadores. Enquanto que no Desportivo tinha um central extremamente rápido, o qual só podia jogar na diminuição do espaço do adversário na Liga não. Até porque tenho jogadores menos dotados desse ponto de vista técnico é normal que o subconsciente dos próprios obrigue-os a recuarem para jogar na expectativa. Talvez seja esse o aspecto, mas não pela questão da treinabilidade. Até porque treinamos da mesma forma.

(@V) – No entanto o modelo de jogo, no meu entender, foi construído para juntar as linhas, mas nota-se esse recuo.

(AS) – Notam-se receios involuntários de baixar as linhas. Isso claramente.

(@V) – Considero Fanuel um jogador banal fora da área. Julgo que ele recua para área para proteger-se das suas limitações técnicas.

(AS) – Por isso é que ele tem tendências a baixar as linhas e esperar que o adversário venha ter com ele. Assim socorre- se de outros argumentos que não a velocidade. Em zonas mais adiantadas não dispõe de capacidades para fazer face a velocidade dos seus adversários. Já não pode acontecer isso com um Zainadine Júnior.

(@V) – Já começaram a pensar nas competições africanas?

(AS) – Já fiz um esboço, mas a Liga não estará alheia as ideias estereotipadas que o mundo exterior tem em relação ao nosso futebol. O que pretendo dizer com isso: a maneira como o mundo desportivo, ao nível das instituições da CAF, olha para o nosso país é como se encara um parceiro pobre, incapaz de se intrometer na alta-roda das competições africanas. Isso porque demos sinais dessa fragilidade competitiva ao sermos eliminados precocemente nas fases de acesso. Apesar disto tudo estamos a construir uma equipa para contrariar essa tendência.

(@V) O plantel ressentiu-se da perda do Jumisse para o Portimonense de Portugal?

(AS) – Sim e não. Sim porque se tratava de um jogador que foi contratado por mim e respondia aos requisitos que exigia para a equipa. Efectivamente, por isso, é que fiz diligências para que a direcção o contratasse, apesar do ano de contrato que ainda tinha com o Maxaquene. Nessa perspectiva sentimos uma falta tremenda. Jumisse deve ser actualmente, no país, o médio mais capaz, apesar de não ser bem dotado do ponto de vista técnico. Na componente atlética dispõe de uma capacidade acima da média, o que lhe possibilitava ter uma margem de sucesso nos duelos individuais, para além de ser evoluído intelectualmente. Ou seja, neste momento, é o jogador moçambicano melhor talhado para um futebol competitivo de nível elevadíssimo. Por outro lado, embora o Jumisse tenha saído a equipa continuou na sua fase ascendente. Para a posição em que ele jogava ficou alguém que não tendo as mesmas características preenche os requisitos que a equipa pretende. No nosso modelo de jogo, jogadores que actuem na mesma posição, têm de ter uma base comportamental comum. Ou seja, a base comportamental cada um acrescenta algo que lhe é intrínseco que tem a ver com a sua entidade enquanto jogador.

(@V) Como olha para as características do Nelson?

(AS) – Nelson é um craque na verdadeira acepção da palavra, é um jogador que pensa antes dos outros, percepciona lances a uma velocidade incrível. Já trabalhei alguns dos jogadores mais dotados deste país e Nelson talvez seja a expressão mais elevada desta forma de atender as circunstâncias do jogo. É uma pena para mim que sofra as influências de uma mentalidade instalada no nosso meio. Em suma: é um jogador que vai denotando fragilidades competitivas que decorrem do modo de estar que não é alheio a nossa mentalidade enquanto moçambicanos. Mas, do ponto de vista global é claramente um jogador acima da média. Nelson sublima o futebol.

(@V) – Pelas características julga que o Nelson é um jogador para os Mambas?

(AS) – Tudo isto tem a ver com a perspectiva como olhamos para o futebol. Muitos vêem o futebol numa perspectiva que não é consentânea com aquilo que é o modernismo no futebol. Há jogadores como Nelson e outros que não quero estar aqui a enumerar que, na minha perspectiva, seriam os baluartes da selecção nacional se, porventura, olharmos para a modalidade como ela deve ser vista. O futebol tem características próprias, tem uma tecnicidade que o difere de outras modalidades e isso quer dizer que temos de ir buscar jogadores que sublimem a modalidade, que dêem expressão. Se Nelson é um dos melhores interpretes para dar visibilidade a modalidade que escolheu não sei porque carga de água não merece atenção.

(@V) Como olha para a vitória dos Mambas frente as Ilhas Comores?

(AS) – Há quem deve estar muito feliz com essa vitória. Há até quem premeie jogadores de um forma a roçar o ineditismo, sem querer dizer que os jogadores não mereçam o prémio com esta vitória, mas não pode haver uma manifestação de satisfação perante um resultado frente a uma selecção sem expressão e representatividade nenhuma no contexto do futebol africano. Falsos moralistas.

(@V) – Como olha para o discurso sobre a arbitragem que marcou este campeonato. Um discurso, diga-se, que durante anos foi associado a sua pessoa…

(AS) – É estranho que algumas pessoas que nunca levantaram a voz para falar de arbitragem hoje se assumam como os moralizadores deste futebol. Falsos moralizadores, digo. Hoje, julgam poder falar com propriedade sobre esta questão. Dirigentes de alguns clubes pelos quais passei levantam a voz como se a arbitragem estivesse associada a determinados emblemas. Para mim é muito estranho que isto esteja a suceder. Sempre me crucificaram e sempre fizeram passar a ideia, para a opinião pública, de que estava a justificar os maus resultados com a desculpa das arbitragens. Está provado que não era isso que eles diziam. Quero dar os parabéns a essas pessoas que finalmente chegaram a conclusão de quem sempre falou a verdade fui eu. Os dirigentes e treinadores que, no passado, se socorreram da arbitragem para ganhar campeonatos são os mesmos que criticam a torto e a direito. Quem sempre se bateu pela verdade desportiva, diga-se, fui eu.

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