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SELO: Quem deveria governar Moçambique, um engenheiro mecânico ou um político inocente? – Por Rabim Chiria

Tenho pouca certeza de que o meu leitor abanaria a sua cabeça, positivamente, diante destas questões, porque o sujeito referido no tema carece da virtude primeira que assegura uma boa estabilidade do sistema social. Quando falo da virtude primeira, refiro-me à justiça social. Será que o político inocente tem a noção da justiça? O engenheiro mecânico tem a noção da justiça?

Para responder estas questões, vou, primeiro, prestar homenagem a Glaucon, o grande porta- -voz dos Sofistas. E também vou prestar homenagem a Sócrates, ponta-de-lance bem sucedido nas marcações argumentativas. Glaucon, num diálogo com Sócrates, conta uma história muito linda e emocionante, digo isto para quem gosta de narrativas literárias. O diálogo está no livro II da República de Platão.

Glaucon conta uma historieta intitulada “O anel de Giges”. Giges era uma espécie de pastor, que para além de ser o pastor dos seus Camelos, também prestava cultos divinos e, não só, era homem honesto e bom pai da família, mas depois de achar um anel que lhe dava o poder de ser invisível, Giges virou um grande assassino da região. O primeiro plano que Giges fez depois de ter achado o anel foi: “Invadiu o palácio do rei, matou o rei, seduziu a rainha e, fez tudo que puder, isto na invisibilidade”.

Terminada a historieta, Glaucon olha para Sócrates e diz: Todo o homem é injusto, os homens praticam a justiça porque tem medo da coerção social e, não porque sejam justos por natureza. Se todos homens tivessem o poder de ser invisíveis é claro que cada um agiria segundo os seus desejos e interesses. Chegado até esse ponto, Glaucon infere dizendo: “A justiça individual funda-se em dois binómios; medo/coerção social. A justiça desperta medo na mente de quem cogita violenta-la”.

Sócrates recebe a palavra e diz: A justiça não tem nada a ver com o medo; uma pessoa justa age justamente; agir justamente é estar coagido pela parte superior da alma; quem age pela parte superior da alma é coagido pela razão, não pelo medo e, nem por interesses; a parte superior da alma é parte pensante que se localiza no cume topográfico do homem, mas não no cume topográfico de qualquer homem, esta é a virtude exclusiva do “FILÓSOFO”. A justiça localiza- se na primeira esfera do cume topográfico do filósofo. É impossível que o filósofo aja por medo ou por interesses porque é coagido pela parte pensante e racional onde reina a justiça.

Segundo essas declarações de Sócrates, parece estar claro que a justiça não é uma virtude do político inocente e muito menos do Engenheiro Mecânico. A justiça é um dom exclusivo do “FIOSÓFO”, homem que age segundo a razão, uma razão que se encontra na parte superior da alma, ou da mente.

A parte superior da alma, não depende da parte inferior, porque a parte inferior é típica das sensações, dos interesses pessoais, apetites ardentes, individualismo, atitudes de exclusão, cinismo, orgulho, arrogância, ou seja, todos adjectivos negativos estão lá instalados. A parte superior não se submete a parte inferior; ela exerce uma autonomia sobre a camada inferior. Então, isto monstro claramente que o filósofo é imune a injustiça, ou seja, a injustiça não alcança o filósofo. É justamente por isso, que deve-se confiar os interesses do povo ao “FILÓSOFO” e, não ao político inocente e nem ao Engenheiro Mecânico.

Coloquemos as peças no seu devido lugar, senão a máquina vai cair em pedaços. E a culpa será do maquinista. No preenchimento dos cargos públicos deve se respeitar o princípio da honestidade, assim como o vento que respeita a ordem natural. O vento venta da única maneira que poderia ventar, assim como a girafa respeita a lei natural e, reconhece o seu lugar. O mesmo princípio deveria ser implementado pelos homens, sobretudo na atribuição das tarefas.

O sapateiro deveria ocupar o seu cargo de concertar sapatos, o político inocente deveria se empenhar na sua área de política, sem perder a sua inocência. O engenheiro mecânico também deveria ocupar a sua área de mecânica e, não ter outras ambições de governar um país. Ter um engenheiro mecânico como governante é mesmo que confiar o destino de um povo à uma girafa; isto porque a girafa age de única forma que poderia agir, ela não tem possibilidade de fazer algo contrário, ou seja, a girafa não tem autonomia racional e muito menos autonomia plena.

O mesmo acontece com os engenheiros mecânicos e políticos inocentes quando estão no poder, não tem autonomia racional e muito menos autonomia plena. Os engenheiros mecânicos e os políticos inocentes levantam problemas e não consegue trazer soluções, isto porque não são autónomos. Eles fingem que são autónomos, mas quando se expressam, nota-se que, não são autónomos, pela vagueza dos argumentos, e mudam repentinamente de opinião porque são de fácil manuseio, são manipulados com facilidade.

Por Rabim Chiria

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